
A CASA DE BONECAS
O PASSADO QUE ME VEM VER, NÃO MORRE

Um dia, fui dono de uma aldeia lá no alto do Marão. Pelo menos sentia-me como tal. O destino plantou-me ali em farrapos de tempo espalhados por muitos anos, e para sempre lá me ficaram algumas raízes. Ali cresci, por fora e por dentro, aprendendo uma vida que não era suposto ser a minha. Ali, era eu, podia ser eu, magicamente indomável e verdadeiro.
Era a minha aldeia, nossa, já que não andava por lá sozinho, e pouco ou nada mandava.
Nessa aldeia, onde eu ia passar duas semanas da minha vida em cada ano, quase sempre as duas do meio do mês de Setembro, havia um deus. Era o deus da minha aldeia, que fazia milagres com os odores e com a paisagem, que parecia desfazer o mal, deixando que só o bem se mostrasse, e que não permitia que se vislumbrasse uma separação clara entre um e o outro.
Para nós, que para lá íamos nessa altura, o deus da minha aldeia era um deus de amor, de vida, um eremita, um curandeiro e um exorcista, que se não mostrava às gentes mas que nos esmagava tenebrosamente com o seu estar constante, inatingível e fanaticamente religioso, e que nos colocava de joelhos, perante a paisagem poderosa e perante os cheiros ora frágeis ora fortes mas sempre maravilhosamente intrigantes, onde descobríamos pontos de identidade, como quem reza. E no entanto, enquanto por lá andávamos, de nada nos apercebíamos. Para nós, a vida era assim, serena, segura, fácil e bela, porventura por obra e graça do nosso deus.
Se alguém tivesse a felicidade de dar por ele, o deus da minha aldeia apareceria como uma personagem intrigante e nada empática, esquálida e por certo aparentemente demente, e que se confundiria com a natureza.
Nessa aldeia que eu tive, vivi intensas histórias de amor. Amor absoluto e incondicional, serenamente aceites e, no entanto, sempre recusadas na sua existência e proveniência, como se fosse porventura pecado admiti-las por serem “coisas” que não existiam por aquelas bandas.
O deus da minha aldeia, omnipresente, pese embora sempre invisível, como se impunha, era uma espécie de deus menor, sobrevivente de guerras de outros lugares em que vivêramos, e que ali procurara guarida. Alimentava-se de nós, e nós dele, fundidos na mesma existência fundamentalista.
Encarnava por vezes em alguns dos habitantes, sempre os mesmos, homens e mulheres habituados e conformados à solidão da montanha e à dura vida maroneza, e que por acaso viviam todos paredes meias uns com os outros, em casas antigas e xistosas. Só a nossa se destacava das outras pela seu tamanho, minúsculo, pela cor branca da modernidade e juventude, e por ter quatro frentes sem terreno à sua volta. Uma casa terrenamente pobre e bondosamente rica. Como que uma casa de bonecas.
Nós, que lá vivíamos duas semanas por ano como se a casa, e toda a aldeia fosse nossa, éramos tratados como pequenos príncipes, com todas as mordomias possíveis para a época e para a região, e com a bênção constante do nosso deus, que encarnava diariamente naquelas mulheres maravilhosas e nos homens que com elas viviam.
Hoje já não tenho aldeia alguma. A minha aldeia de outrora já não é minha, apesar de eu a continuar a sentir como tal. O deus que lá vivia, já por lá não andará. Ou morreu, juntamente com os velhos em quem ele encarnava, os deuses também morrem, ou mudou de ares, ou anda à espera de poder ser de novo o deus de alguém, ou na pior das hipóteses, anda por aí escondido do mundo, vagueando pelas serranias, dormindo ao relento, fugindo das gentes, talvez que por aparentar um ar tenebroso e assustador (o mundo, que não ele).
Na aldeia que tinha o meu deus, e que se chama Meneses, já quase não mora lá ninguém, mas a paisagem e os cheiros mantêm-se quase imutáveis, pelo que o passado que me vem ver, não morre.


Que linda reportagem Dono duma Aldeia!….Abraço Luiz Sá
Obrigado Luiz Sá.
Forte abraço
Meneses? Aldeia Meneses? Meneses de Magalhães lembra-me uma casa brasonada de Ponte da Barca. O brasão já não existe porque foi substituído pelo de Portugal, porque a capela hoje pertence à Misericórdia. Muito gira a sua lembrança… Eu tenho saudades de em 15 de agosto visitar Serpins e era a minha aldeia… muito embora eu fosse de Coimbra