Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1. Parte B: Texto 18 – O PERCURSO DE SRAFFA PARA PRODUÇÃO DE MERCADORIAS POR MEIO DE MERCADORIAS. UMA INTERPRETAÇÃO (1/3), por Giancarlo de Vivo

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

16 min de leitura

Nota de editor: Este texto devido à sua extensão e nível de abstração é publicado em três partes. Hoje a primeira.

Significativamente, o economista italiano Giorgio Gilibert disse, em 1989, que Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias, publicado simultaneamente em Cambridge e em Turim em 1960, é “um dos mais fascinantes livros da história da economia” (On the meaning of Sraffa’s Equations: Some Comments on Two Conferences, em Political Economy, volume 5, número 2, pág 181, 1989).

 

Parte B: Texto 18 – O PERCURSO DE SRAFFA PARA PRODUÇÃO DE MERCADORIAS POR MEIO DE MERCADORIAS. UMA INTERPRETAÇÃO (1/3)

Por Giancarlo de Vivo (*)

Em Contributions to Political Economy (Novembro de 2003) 22, 1-25, ver original aqui.

(*) O texto que se segue baseia-se, essencialmente, numa comunicação apresentada no centenário do nascimento de Sraffa, numa conferência organizada em 1998 em Roma pela Fondazione Istituto Gramsci, e cuja versão italiana está publicada em Pivetti (2000). A este texto foram acrescentados outros materiais – relativos à discussão entre Sraffa e Besicovitch sobre a existência e a unicidade das soluções -, de uma comunicação que apresentei em Fevereiro de 2003 numa conferência da Accademia Nazionale dei Lincei, e que será publicada em italiano nas suas atas. Pelos comentários muito úteis, gostaria de agradecer a Giorgio Gilibert e também a Geoff Harcourt, Luigi Pasinetti, Marco Piccioni e Massimo Pivetti. Os meus agradecimentos vão também para o Master e os Fellows do Trinity College, Cambridge, pelo generoso apoio dado à minha investigação, e para o pessoal da Wren Library, pela sua ajuda e tolerância ao longo de vários anos. Um agradecimento especial a Jonathan Smith, Arquivista Moderno do Trinity, pela sua ajuda constante e amigável.

 

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

I. AS ”EQUAÇÕES” DE SRAFFA

II. AS “EQUAÇÕES”: 1928-1931

III. AS “EQUAÇÕES” DE SRAFFA NA DÉCADA DE 1940: OS DESENVOLVIMENTOS CRUCIAIS

 

INTRODUÇÃO

Este artigo reconstitui o caminho seguido por Sraffa no longo percurso (iniciado no final dos anos 20) que o levou ao seu livro de 1960. O ponto de partida da investigação de Sraffa foi a formulação das suas equações custo-preço que, surpreendentemente, parecem não ter sido derivadas nem da teoria do valor de Ricardo, nem da “transformação dos valores em preços de produção” de Marx, mas sim dos esquemas de reprodução de Marx, publicados no volume II de O Capital, aos quais Sraffa foi quase certamente levado pelo seu estudo da interpretação de Marx sobre a teoria fisiocrática, desenvolvida no volume I de Teorias da Mais-Valia. O principal artifício que Sraffa utilizou nas suas tentativas de descortinar a existência de soluções para o seu sistema e suas propriedades, que basicamente significavam a construção de uma relação consistente entre salário-lucro-preço, foi, de alguma forma, eliminarr os preços desta relação. O artigo mostra que Sraffa tentou diferentes vias para atingir este objetivo e que as principais influências nestas tentativas foram Ricardo e Marx, em particular a teoria dos lucros do rácio-milho de Ricardo e a conceção conexa de uma taxa máxima de lucro. No decurso da sua investigação, Sraffa foi ajudado por alguns matemáticos ilustres, em particular Frank P. Ramsey e Abram S. Besicovitch. Da contribuição de Ramsey restam vestígios importantes, mas não mais do que vestígios, ao passo que da relação entre Sraffa e Besicovitch restam amplos registos, que desempenharão um papel importante na história contada neste artigo.

 

Este trabalho baseia-se num estudo dos documentos de Sraffa conservados no Trinity College, em Cambridge. O seu objetivo é reconstruir, tanto quanto possível, o caminho que Sraffa seguiu na investigação que o levou a alcançar os resultados notáveis publicados em 1960 em Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias (PMM)[1]. Será dada mais atenção ao percurso do que aos resultados propriamente ditos, os quais, evidentemente, qualquer pessoa pode analisar por si própria no livro.

Escusado será dizer que um trabalho como este nunca pode pretender ser definitivo. Mesmo independentemente de possíveis erros de interpretação, não se pode excluir que outros possam fornecer uma reconstrução parcial ou totalmente diferente da que propomos. A redação de um trabalho deste tipo deve, necessariamente, assemelhar-se à montagem de um puzzle, com a dificuldade acrescida de muitas peças terem de ficar de fora. Por conseguinte, não é de modo algum impossível que, utilizando outras peças, se possa reconstituir uma imagem, parcial ou totalmente diferente.

O livro de Sraffa foi publicado em Maio de 1960 [2]. Numa versão do Prefácio, que não passou da fase de prova [3], escreveu que o trabalho tinha começado “cerca de trinta e cinco anos antes[4]. Isto pode sugerir uma ligação mais estreita com a investigação do seu artigo de 1925 [5] do que com o artigo de 1926, que, de facto, não é mencionado em parte alguma do livro [6]. Esta suposição é reforçada se tivermos em conta uma carta (de 6 de Outubro de 1975) a C. P. Blitch, em que Sraffa escreve que, na nota de rodapé do início do seu artigo de 1926, escreveu que este continha “um resumo das conclusões” do artigo de 1925, a fim de “se proteger contra a impressão de que estava a vender o mesmo artigo de novo“. Mas – acrescentou – “provavelmente exagerei. Na teoria económica as conclusões são, por vezes, menos interessantes do que a via pela qual se chega a elas[7]. A propósito, esta observação sobre o interesse da via seguida por um autor permite-nos talvez supor que Sraffa não ficaria muito horrorizado com a presente tentativa de reconstruir a via através da qual chegou aos resultados publicados em 1960 – embora não se afirme, de forma alguma, que esta via é mais interessante do que as próprias conclusões.

Com base nos documentos relativos ao trabalho sobre a PMM, tal como estão atualmente disponíveis, penso que pode dizer-se que o que é notável não é tanto o período que separa o início do fim, mas sim os intervalos muito longos dentro desse período durante o qual Sraffa parece ter deixado o trabalho adormecido. Começou na segunda metade da década de 1920 e prolongou-se até ao início da década de 1930 – não me lembro de nenhum documento significativo da década de 1930 com uma data posterior a 1931, ou talvez 1932. Do início da década de 1930 saltamos para o início da década de 1940, e encontramos uma quantidade substancial (tanto no sentido da quantidade como da qualidade) de material datado entre 1941-1948 (maioritariamente 1941-45). Depois, saltamos novamente para meados dos anos cinquenta, e há muito material datado do período 1955-1958. O que Sraffa considerou como o toque final foi dado na quarta-feira, 29 de Janeiro de 1958 [8].

O que também é bastante notável na série de datas acima é que elas são um complemento quase perfeito daquelas que marcam os períodos em que Sraffa estava a trabalhar na edição de Ricardo. De facto, este trabalho começou em 1930, e provavelmente continuou durante toda a década: sabemos que a edição completa (tal como estava antes do grande achado dos manuscritos de Ricardo em Raheny [9], e sem contar com o volume biográfico, o índice e, claro, as introduções do editor [10]) atingiu a fase de prova no Verão de 1940 [11]. Nos dois ou três anos seguintes, no entanto, o trabalho sobre Ricardo deve ter definhado, tanto que, no início da primavera de 1943, Sraffa parecia prestes a retirar-se do papel de editor, na sequência de queixas da Royal Economic Society sobre o enorme atraso, que significava, entre outras coisas, que a Cambridge University Press tinha retido 13 toneladas de tipo e 11 toneladas de papel durante um período excessivamente longo, e numa altura de escassez causada pela guerra. O grande achado de Raheny, alguns meses mais tarde (julho de 1943), foi uma dupla bênção, na medida em que também deu a Sraffa uma razão para se esquivar ao último prazo que tinha de aceitar. O trabalho com os documentos recém-descobertos deve ter continuado durante algum tempo, mas voltou a estagnar. Em 1948 recomeçou a sério, quando – mais uma vez na sequência de queixas da Royal Economic Society, quando Keynes já não estava presente para proteger Sraffa – Maurice Dobb foi chamado para o ajudar na edição (em particular na redação das introduções [12]), e terminou em 1955 com a publicação do volume X. (O índice, como é sabido, teve ainda de esperar muito tempo para ser realmente tratado).

Tudo isto, evidentemente, sugere que o trabalho na edição de Ricardo deve ter sido para Sraffa uma alternativa (talvez mesmo totalmente irreconciliável) ao trabalho na sua própria investigação.  À primeira vista, isto parece um pouco paradoxal. É certamente verdade que a edição de Ricardo exigiu muito trabalho em problemas como a localização de manuscritos, a verificação e a compilação de textos, a recolha de informações sobre factos, pessoas, etc.; este trabalho consumia muito tempo e não era facilmente compatível com uma investigação abstrata como a que Sraffa tinha empreendido. Mas as tarefas mais concretas devem ter sido, em grande medida, realizadas em poucos anos. A principal tarefa que tinha pela frente, a de escrever as introduções – tarefa que, como Keynes suspeitava em 1943, estava a reter Sraffa – poderia considerar-se subsidiária e não adversária da tarefa de prosseguir a investigação para a PMM, a julgar pelo produto final – o qual, como o próprio Sraffa escreveu [13], poderia até certo ponto ser visto como um comentário sobre Ricardo. No entanto, um ponto que surge muito claramente nos artigos de Sraffa é que o caminho que ele seguiu na sua investigação não tinha ligações óbvias com os problemas da teoria do valor tal como se tinham apresentado a Ricardo. E só muito tardiamente (no início da década de 1940) é que Sraffa considera em profundidade o problema de Marx de “transformar valores em preços de produção”. O ponto de partida de Sraffa parece ter sido a relação preço-custo (neste aspeto, podemos ver uma ligação com o seu trabalho anterior sobre Marshall).

A conceção estritamente materialista do custo, característica dos fisiocratas,[14] (aquilo a que Sraffa se referirá como a “noção de custo como o pão“), despertou um grande interesse em Sraffa e, juntamente com o estudo da interpretação de Marx da teoria fisiocrática em Teorias da mais-valia, conduziram-no ao volume II de O Capital [15] e aos seus esquemas de reprodução – sendo que é com os esquemas de reprodução de Marx que Sraffa relaciona explicitamente a formulação das “equações“, que serão discutidas neste artigo.

É claro que não se está a afirmar aqui que o estudo de Ricardo que Sraffa fez na década de 1930 foi irrelevante para o desenvolvimento do seu pensamento. Ricardo (e, de um modo mais geral, a teoria económica clássica) era importante, mas a sua relevância não era tão explícita, nem tão direta. Os problemas que Sraffa estava a enfrentar não eram imediatamente os mesmos problemas – ou pelo menos durante muito tempo não foram vistos por ele como os mesmos problemas – que os de Ricardo. Mas Ricardo entra na história num momento crucial, como se verá neste trabalho.

O que encontramos nos artigos de Sraffa relativamente à sua investigação teórica pode, por conveniência, ser agrupado em três correntes diferentes, mas obviamente relacionadas: a interpretação da teoria clássica, em particular obviamente a teoria do valor e da distribuição; a crítica da teoria marginalista; e o desenvolvimento da própria teoria de Sraffa, que, por uma questão de brevidade, podemos chamar as suas “equações“. O presente trabalho trata basicamente da terceira destas correntes, mas a primeira entrará em alguns pontos importantes. A segunda, a crítica da teoria marginalista da distribuição, não terá qualquer destaque no que vou dizer, mas deve ser lembrado que, naturalmente, foi um aspeto de grande importância para Sraffa desde o início, até porque desde o início alguns aspetos básicos das falhas da teoria marginalista do capital já eram claros para ele. Foi, naturalmente, quando os principais resultados das “equações” foram alcançados, que todas as suas implicações para a crítica da doutrina recebida foram trabalhadas, e isso foi no início da década de 1940, em particular entre o final de 1943 e o início de 1944. (Mas podem ser encontrados indícios de aspetos importantes da crítica, por exemplo, o caso do retorno das técnicas, dito reswitching, já em 1942 [16], se não antes).

 

I. AS “EQUAÇÕES” DE SRAFFA 

Sabe-se que já no Outono de 1927, pouco depois da sua chegada a Cambridge, Sraffa começou a mostrar as partes iniciais do que viria a ser o seu livro [17] a alguns dos seus novos colegas. Não só o próprio Sraffa nos diz, no prefácio da PMM, que em 1928 tinha mostrado a Keynes “um rascunho das proposições iniciais” do livro, mas já em 26 de Novembro de 1927 registou no seu diário “K.[eynes] aprova as primeiras equações” o que na gíria de Sraffa significavam equações sem excedente (“Segundas Equações” significavam equações com excedente mas em que o trabalho não aparece explicitamente, como nos §§ 4-7 da PMMM; “Terceiras Equações” significavam equações com excedente e com o trabalho a aparecer explicitamente). Mais ou menos ao mesmo tempo, mostrou as equações a Pigou, que comentou de forma notável (numa carta a Sraffa de Janeiro de 1928): “As suas equações parecem-me poder ser consideradas como um caso especial da análise geral. Com efeito, está simplesmente a supor… rendimentos constantes” – embora Pigou tenha acrescentado, de forma característica, “não suponho por um momento que eu tenha percebido o seu ponto de vista” [18]. Os textos que Sraffa mostrou a Keynes e Pigou parecem já não existir.

O trabalho sobre as “equações” implicou uma mudança considerável do foco da investigação de Sraffa em relação ao que tinha estado a fazer até então. Até ter terminado de preparar o seu artigo no Economic Journal (no final do Outono de 1926), a sua atenção tinha sido, naturalmente, em grande medida absorvida pela teoria de Marshall e pela sua crítica. Não sei até que ponto Sraffa tinha, nessa altura, aprofundado o estudo dos economistas clássicos e de Marx. A minha impressão é que, nessa altura, o seu conhecimento sobre eles (especialmente sobre os economistas clássicos) não era extenso e era muito filtrado e influenciado por outros autores, nomeadamente por Cannan, a cujas palestras assistiu em 1921-2 na LSE e que é frequentemente (e não de forma acrítica, claro) referido por Sraffa nas suas notas da década de 1920. A minha ideia é que, quando começou a preparar as suas aulas sobre “Advanced theory of value” para Cambridge [19], Sraffa iniciou um estudo mais aprofundado dos economistas clássicos e, em particular, de Marx. Afinal, mesmo a expressão “Teoria do Valor” estava mais associada aos clássicos e a Marx do que aos marginalistas que, frequentemente, designavam a teoria do valor por “teoria dos preços”. Mas o facto de Sraffa ter voltado a estudar Marx nesta fase é também demonstrado pelas suas numerosas notas de leitura de Marx (mas também dos economistas clássicos e outros, como Pareto, Cassel, etc.), datadas de 1927 e 1928. No que respeita a Marx, há várias citações de Teorias da Mais-Valia, o chamado volume IV de O Capital, que tinha sido editado para publicação por Kautsky em 1905-10. Sraffa, no entanto, cita As Teorias da Mais-Valia na edição francesa, cuja publicação só foi concluída em 1925. Sraffa possuía, evidentemente, (pelo menos dois) exemplares [20] da edição original alemã de 1905-10, mas é evidente, tanto pelas suas notas como pelas suas anotações no próprio livro, que o seu exemplar de trabalho era o francês – e, de facto, Sraffa referia-se habitualmente a Theories of Surplus Value como Histoire, a partir do seu título francês Histoire des doctrines économiques. Isto implica que o seu estudo das Teorias da Mais-Valia não poderia ter começado antes de 1925. Também as citações dos outros volumes de O Capital nestas notas de 1927-8 são da edição francesa. Embora os primeiros três volumes de O Capital tivessem sido publicados em francês muito antes da Histoire, e Sraffa tivesse quase de certeza lido O Capital (pelo menos o volume I) mais cedo, é seguro assumir que, provavelmente no início de 1927, ele leu (ou melhor, pelo menos em parte releu) O Capital de Marx, com o objetivo de preparar as suas palestras sobre a “Teoria avançada do valor[21]. De facto, há um esboço (numa pasta datada de finais de novembro de 1927) que desvenda como pretendia começar as suas palestras, onde diz:

Começarei por fazer um breve “estratto” do que considero ser a essência das teorias clássicas do valor, ou seja, as que incluem W. Petty, Cantillon, Fisiocratas, A. Smith, Ricardo & Marx.[22]

Embora tenha seguido apenas parcialmente este projecto (sendo as partes iniciais das conferências, sobre teoria clássica, mais históricas do que analíticas), o facto de em 1927 ter tido esta intenção apoia a minha afirmação de que, enquanto preparava as suas conferências, deve ter (re) lido Marx os economistas clássicos

Pode presumir-se com segurança que a mudança de ênfase de Sraffa, em 1926-27, da sua crítica a Marshall para as suas “equações“, se deveu principalmente à sua (re)leitura de Marx. É impossível dizer com certeza se foi a necessidade de preparar conferências sobre a teoria do valor que o levou a ler Marx e os clássicos, ou o contrário, ou seja, que decidiu dar conferências sobre a teoria do valor porque tinha começado a estudar Marx e os clássicos. (A primeira hipótese parece mais provável).

Sraffa adotou inicialmente uma atitude crítica em relação a Marx (e a Smith e Ricardo). Ele considerou que A. Smith & Ricardo & Marx começaram, de facto, a corromper a velha ideia de custo – dos alimentos ao trabalho.[23]

No início, os seus heróis parecem ter sido William Petty e os fisiocratas – “foi apenas Petty & os fisiocratas que tiveram a noção correta de custo como “o pão de forma[24] – escreve. Mas isto, creio eu, foi apenas um estado de espírito muito inicial e breve, talvez uma espécie de resquício do período Marshall – de facto, o grande apelo da “noção de custo como “o pão“” era, para Sraffa, o facto da sua firme abordagem materialista estar o mais distante possível daquilo que ele considerava ser o estudo das “ilusões[25] que constituíam a teoria marginalista. No entanto, muito cedo a sua apreciação de Marx mudou [26] e, em documentos contidos na mesma pasta que a passagem sobre a “corrupção” de Marx (e de Smith e Ricardo) da velha ideia de custo, Sraffa podia prever que “o resultado final” do seu próprio trabalho seria

uma reafirmação de Marx, substituindo a sua metafísica e terminologia hegelianas pela nossa própria metafísica e terminologia modernas [27]: por metafísica entendo aqui, suponho, as emoções que estão associadas à nossa terminologia e quadros (esquemas mentais) – isto é, o que é absolutamente necessário para tornar a teoria viva (lebendig), capaz de ser assimilada e de todo inteligível. Se isto for verdade, é um exemplo excecional de como uma diferença na metafísica pode tornar absolutamente ininteligível para nós uma teoria que, de outra forma, seria perfeitamente sólida. Isto seria simplesmente uma tradução de Marx para inglês, das formas da metafísica hegeliana para as formas da metafísica de Hume [28].

O seu entusiasmo por Marx deve ter aumentado progressivamente [29]: considera “formidável” que “em meados do século XIX um homem [isto é, Marx] consiga, quer por acaso, quer por esforço sobre-humano, reapropriar-se da teoria clássica: melhorá-la e retire as consequências práticas disso [30]; tendo-se concebido, ele próprio, como um simples “tradutor de Marx“, começa a preocupar-se com a estrutura do livro, para evitar o perigo de acabar como Marx, que se tinha revelado incompreensível para os seus contemporâneos:

Apresentação do livro

O único sistema consiste em fazer a história ao contrário, ou seja: o estado atual da economia; como se chegou aí, mostrando a diferença e a superioridade das teorias antigas. Depois, expor a teoria.

Se seguir a ordem cronológica, Petty, Fisiocratas, Marx, Jevons, Marshall, é preciso precedê-lo com uma declaração da minha teoria para explicar onde se “conduz”: o que significa expor primeiro toda a teoria. E depois há o perigo de acabar como Marx, que publicou primeiro o Capital e depois não conseguiu acabar a História das Doutrinas. E o pior é que não conseguiu fazer-se entender, sem a explicação histórica. O meu objetivo é: I) exponho a história, que é realmente o essencial; II) fazer-me entender: para o que é necessário que eu vá do conhecido ao desconhecido, de Marshall a Marx, da desutilidade ao custo material.[31]

Tendo em conta esta preocupação inicial, é curioso que Sraffa – muito mais do que Marx – tenha acabado por não apresentar praticamente nada da “história” no seu livro (ou mesmo do seu contexto) e – muito mais do que Marx – tenha acabado por ser incompreensível para os seus contemporâneos.

Passemos agora às equações propriamente ditas. Já foi referido que Sraffa fala de primeiro, segundo e terceiro sistema de equações. Começa, naturalmente, pelas primeiras equações, que representa um sistema sem excedente. Aderirei tanto quanto possível ao desenvolvimento cronológico (que, naturalmente, também é basicamente lógico) do pensamento de Sraffa e, por conseguinte, tratarei primeiro (e separadamente) do que encontramos nos artigos até à rutura do início da década de 1930. Isto, no entanto, cria um problema. Numa primeira versão do prefácio, Sraffa escreveu:

A matéria dos dois primeiros capítulos estava concluída em 1928, quando foi submetida numa forma preliminar a J[ohn] M[aynard] K[eynes] [32].

Por outro lado, parece-me que é apenas nos trabalhos do início da década de 1940 que encontramos exatamente as equações da PMM. Todas as formulações das equações que encontramos nos trabalhos anteriores parecem ter alguns problemas que as tornam de difícil interpretação, e nenhuma formulação das “Terceiras equações” (equações com excedente e trabalho explicitamente mencionados) parece ter sido encontrada antes da década de 1940.

 

(continua)

 


Notas

[1] Neste estudo não serão discutidos problemas relativos a mudanças nas técnicas, ou capital fixo e produção conjunta – por outras palavras, apenas tratarei de problemas relacionados com a Parte I do livro.

[2] No dia 27, mas a data oficial de publicação foi o dia 10 (ver D3/12/111; todas as referências aos documentos de Sraffa serão feitas ao catálogo preparado para o Trinity College por Jonathan Smith); a edição italiana foi publicada no dia 6 de Junho (diário de Sraffa, entradas no respetivo dia).

[3] Ver cópia de prova de PMM, item 3371 na livraria de Sraffa.

[4] Por uma questão de simplicidade, todas as citações dos documentos de Sraffa serão apresentadas a negrito.

[5] Sraffa (1925)

[6] Sraffa (1926). Além disso, na frase seguinte, refere-se explicitamente ao artigo de 1925.

[7] C 26.

[8] Registo no diário desse dia: “FINIS preenchida a última lacuna do meu trabalho (Rent)”.

[9] A este respeito, ver Obras, I, ix (Sraffa, 1951-73, será aqui citado como Obras, seguido dos números do volume e da página).

[10] Praticamente, parece nada ter sobrevivido dos primeiros esboços das introduções, mas algo pode e deve ter existido, dado que Keynes, em Agosto de 1939, comentou o que descreveu como a introdução ao Essay on Profits (D3/11/65). Nesta altura, provavelmente só a introdução ao volume I não estava pronta.

[11] Works, I, ix. Os sete volumes de 1940 correspondem aos primeiros nove volumes da edição publicada.

[12] Sobre a colaboração entre Sraffa e Dobb para a edição de Ricardo, ver Pollitt (1990).

[13] Ver C/259.

[14] Sraffa também viu isso claramente em William Petty.

[15] É de referir que a secção sobre Fisiocracia nas Teorias da Mais-Valia reproduz parte do volume II de O Capital, para o qual remete explicitamente o leitor.

[16] Ver D31/12/33/34, datado de 21-04-1942.

[17] A propósito, podemos registar aqui que, desde muito cedo, ou seja, pelo menos desde 1928, Sraffa pensou em escrever um livro: isto é notável, tendo em conta tanto a relutância de Sraffa em escrever, como a aparente escassez de resultados que tinha alcançado nessa altura.

[18] C 239/1.: Outro comentário (muito posterior, talvez mais interessante) de um proeminente economista marginalista (e sucessor de Pigou), D.H. Robertson, foi registado por Sraffa em duas entradas consecutivas do diário de 17 e 18 de Abril de 1960: “Dennis leu o meu cap. I, não lerá mais. “Um livro mau, devia ser queimado”. Dennis: não te envergonhes! Um livro imoral. Neoricardiano & Neomarxista“. Esta é, provavelmente, a primeira utilização registada do termo “neoricardiano” em referência a Sraffa. Muitas das provas foram mostradas a muitos dos amigos e colegas economistas de Sraffa, sendo o primeiro provavelmente Champernowne, que leu uma versão dactilografada da parte I e dois apêndices, já em Agosto de 1957 (registo diário de 26 de Agosto). Numa versão preliminar do prefácio (D3/12/99), A Champernowne, a Besicovitch, a Ramsey e Watson é feito um agradecimento.

[19] A preparação começou provavelmente no início de 1927 (a primeira oferta informal de Keynes de um lugar de professor em Cambridge parece ser de 25 de Janeiro de 1927, a carta oficial de nomeação é datada de 31 de Março de 1927; as aulas deveriam começar em Outubro seguinte).

[20] No entanto, ambos foram adquiridos após a Segunda Guerra Mundial (em 1959 e 1967). Nenhum deles tem anotações significativas. É possível que tivesse outros exemplares, porque Sraffa possuía frequentemente vários exemplares de livros importantes, que vendia ou trocava por outros livros, mas duvido que vendesse o seu exemplar de trabalho (a não ser por engano). É claro que é possível que tenham desaparecido exemplares. Na biblioteca de Sraffa há também uma cópia da segunda (1872), da terceira (1883), e da quarta (1890) edição alemã do volume I de O Capital de Marx, mas nenhuma delas tem quaisquer marcas ou anotações significativas da sua autoria.

[21] Na biblioteca de Sraffa há cópias anotadas dos volumes I-III de O Capital na edição francesa, que foi publicada em 1872-75 (vol. I) e 1900-1 (vols. II-III). Existe uma cópia da edição italiana de 1915 do volume I de O Capital, que também contém muitas anotações, mas pelo seu conteúdo penso que é provável que sejam de uma data anterior às anotações da edição francesa. Ao longo do seu trabalho para a PMMM, Sraffa refere-se geralmente à edição francesa de O Capital de Marx. Penso que se pode dizer que, tendo em conta a necessidade de preparar as suas conferências sobre a teoria do valor, Sraffa voltou a Marx, talvez in primis à Histoire, que tinha sido publicada alguns anos antes. Da Histoire regressou ao Capital, cujo primeiro volume já tinha provavelmente lido na edição italiana, e leu (talvez pela primeira vez) os volumes II e III, a partir dos exemplares da edição francesa que se encontravam no Trinity College (a edição completa dos volumes II e III não estava disponível em italiano até depois da Segunda Guerra Mundial).

[22]  D3/12/04/12.

[23] D3/12/04/02/i, em pasta datada de finais de Novembro de 1927.

[24] Sraffa via com bons olhos a utilização precoce por Ricardo do estranho termo “preço dos salários”, entre as muitas expressões que utilizou para esta variável distributiva. Sraffa considerava de facto “preço dos salários” como o “nome adequado ” (e criticou Marshall por ter criticado Ricardo) (D3/11/37). A razão era que esta expressão sublinhava a distinção entre os salários (a coisa real, o “pão”) e o seu preço.

[25] A E.[conomia P.[olítica] era uma ciência das coisas, a Economia era a ciência  das ilusões. D3/12/10/61).

[26] Um estudante que estudou economia em Cambridge em 1932-5, muitos anos mais tarde escreveu numa carta a Sraffa: “uma das minhas recordações favoritas é a de uma reunião do clube de economia política de Keynes em que você defendeu O Capital de Marx contra uma fortíssima crítica” (C/291). Isto parece desmentir a descrição de Austin Robinson de que Sraffa se abstinha de falar no clube de Keynes, quando se discutia Marx, e sofreu silenciosamente as provocações de Keynes sobre se “há alguma coisa nesse tal Marx” (in Patinkin; Leith, 1977, p. 52).

[27] Esta palavra é inserida.

[28] D3/12/04/15

[29] Como um pequeno exemplo deste entusiasmo, podemos registar que em 1932 deve ter induzido Keynes a pedir emprestados alguns livros de Marx. Escusado será dizer que Keynes não ficou impressionado e, ao entregar-lhe os livros, escreveu: “Juro que não consigo compreender o que terás encontrado neles, ou o que esperavas que eu encontrasse! Não descobri uma única frase de qualquer interesse concebível para um ser humano racional. Para as próximas férias, tem de me dar um exemplar sublinhado”. Sraffa deve ter ficado impressionado com a reação de Keynes e, duas semanas depois, transcreveu parte da carta de Keynes a R. Palme Dutt, (o responsável comunista do Labour Research Department, onde Sraffa tinha trabalhado durante algum tempo aquando da sua primeira estada em Londres no início dos anos 20), acrescentando algumas notas interessantes sobre a distância que separa Marx não somente dos “intelectuais burgueses“ mas também da classe operária cujo “alimento intelectual e literário… é completamente fornecido… por gente com a mentalidade de Keynes”. Levantou, por isso, o problema de saber se estava a ser feita alguma coisa para proporcionar uma “mediação” que pudesse tornar Marx inteligível para a classe operária (carta de Sraffa a R. Palme Dutt de 19 de Abril de 1932 depositada em National Museum of Labour History, Manchester. CP/IND/DUTT/06/02; Sinto-me em dívida para com Nerio Naldi por me ter dado conhecimento desta carta).

[30] D3/12/04/17 (em pasta datada do fim de Novembro de 1927).

[31] D3/12/11/55 (em bloco de notas datado de novembro [1927, ou talvez 1928]). (“Estrutura do livro. A única maneira é fazer a história ao contrário, isto é: o estado atual da economia, como chegou aqui, mostrando a diferença e a superioridade das velhas teorias. Depois, expor a teoria. Se procedermos por ordem cronológica, Petty, Fisiocrata, Ricardo. Marx, Jevons, Marshall, é necessário que seja precedido de uma exposição da minha teoria para explicar o objetivo que pretendemos atingir: o que significa expor primeiro toda a teoria. Há então o perigo de acabar como como Marx, que primeiro publicou o Capital. e depois não conseguiu terminar a Histoire des Doctr. E o pior é que ele não conseguiu fazer-se entender, sem a explicação histórica. O meu objetivo é: I expor a história, que é o ponto verdadeiramente essencial. Faço-me entender: para isso é necessário que eu passe do conhecido ao desconhecido, de Marshall a Marx, da desutilidade ao custo material”).

[32]  D3/12/46/22.

 

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Giancarlo de Vivo leciona na Faculdade de Economia da Universidade de Nápoles Federico II, onde foi primeiro professor associado (1986-90) e depois professor titular de Economia Política. Atualmente ministra cursos de Macroeconomia e História do Pensamento Económico.

É membro do Comité Director da “Fundação Raffaele Mattioli para a história do Pensamento Económico” da Universidade Estatal de Milão. A partir de 1982 dirigiu (com John Eatwell e M. Milgate da Universidade de Cambridge) a revista Contributions to Political Economy, publicada pela Oxford University Press para a Cambridge Political Economy Society. Ensinou e examinou como professor afiliado na Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge (Reino Unido) para o curso de Mestrado em Economia (M. Phil. em Economia) (1980-1995). Foi Professor Visitante sénior na Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge (1979-80) e visitou Fello no Trinity College Cambridge (1991-2), onde ainda é membro da High Table.

Apoia a teoria clássica do valor e da distribuição, tanto nas suas formulações “históricas” (especialmente Fisiocráticas, Ricardo e Marx), como na sua versão moderna (Sraffa). Keynes e temas keynesianos. Bibliografia económica. Problemas da economia italiana.

 

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