Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 – Parte B: Texto 20 – Piero Sraffa e o futuro da Economia: uma avaliação pessoal (2/2).  Por Luigi L. Pasinetti

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Nota de editor: Este texto devido à sua extensão é publicado em duas partes. Hoje a segunda.

Significativamente, o economista italiano Giorgio Gilibert disse, em 1989, que Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias, publicado simultaneamente em Cambridge e em Turim em 1960, é “um dos mais fascinantes livros da história da economia” (On the meaning of Sraffa’s Equations: Some Comments on Two Conferences, em Political Economy, volume 5, número 2, pág 181, 1989).

 

Parte B: Texto 20 – Piero Sraffa e o futuro da Economia: uma avaliação pessoal (*) (2/2)

 Por Luigi L. Pasinetti

Parte II, capítulo 7 (págs. 153-173) da obra Sraffa and the Reconstruction of Economic Theory: volume three. Sraffa’s Legacy: Interpretations and Historical Perspectives. Editado por Enrico Sergio Levrero, Antonella Palumbo e Antonella Stirati. 2013 Palgrave Macmillan (original aqui)

 

(*) O 50º aniversário da publicação da Produção de Mercadorias através de Mercadorias de Piero Sraffa foi celebrado em 2010 pela organização de duas conferências paralelas: uma em Roma, pela Università Roma Tre, e a outra em Cambridge, pelo Cambridge Journal of Economics. Esses eventos deram-me o privilégio de apresentar a minha visão final do assunto deste texto em duas versões. A versão atual é a mais longa. Começou, e depois seguiu de perto, o texto que apresentei numa outra ocasião de referência – o centenário do nascimento de Sraffa (1998), na Fundação Einaudi de Turim, e depois incluído numa publicação de Routledge (ver Cozzi e Marchionatti, 2001). A versão de Cambridge, mais curta e compacta, seguiu mais de perto outra publicação minha, Keynes e os keynesianos de Cambridge, publicada pela Cambridge University Press (2007). As conclusões a que cheguei são, em substância, as mesmas, mas foram apresentadas de formas bastante diferentes, especialmente na primeira e nas seções finais de cada um dos dois artigos. Agradeço à Routledge e à Cambridge University Press por me terem permitido fazer uso gratuito de muitas das minhas versões anteriores, reformuladas na forma que acredito ser relevante para o propósito de cada uma das iniciativas.

***

(conclusão)

 

7.6 Um programa de investigação incrivelmente ambicioso

As três correntes de pensamento acima descritas constituem um programa de investigação tão vasto que assustaria qualquer pessoa que pensasse em realizá-lo isoladamente. No entanto, Piero Sraffa, no início, parece ter tido precisamente esse objetivo.

Podemos ver esse programa emergir aquando da sua chegada a Cambridge, e mais claramente na fase de revisão das suas Lectures on Advanced Theory of Value (não publicadas), ou seja, nos anos 1928-31. Mas não deve ter levado muito tempo a aperceber-se da absoluta impossibilidade de concretizar um programa de investigação tão atrozmente grandioso. O contraste entre objetivos e possibilidades realistas começa a emergir de forma marcante nas suas notas enquanto prepara as alterações às suas Lectures on Advanced Theory of Value. Estas Lectures tinham sido todas escritas à mão em 1927. Foram proferidas nos três anos seguintes, com alterações e emendas acrescentadas ao manuscrito na sua escrita clara, com evidente insatisfação crescente.

O simples facto de ser obrigado a dar aulas estimula a mente de Sraffa até aos limites da sua resistência. Podemos ver nas suas notas críticas que ele aprofunda, analisa e trabalha em extensões. Nunca o encontramos a caminhar para uma síntese. Assim, escreve notas que são essencialmente críticas e provisórias. Estas notas parecem ser para si próprio, mas talvez tenha começado muito cedo a olhar em frente e a esperar que alguém no futuro as pudesse apanhar (daí talvez também o seu cuidado em as datar). As críticas juntam-se às críticas e à crítica das críticas.

É um facto que, a certa altura, até a apresentação das suas conferências já escritas se tornou para ele uma experiência atroz e frustrante. Provavelmente, a intuição de Keynes era suficientemente aguda para perceber que Sraffa estava numa situação grave, sem talvez compreender claramente a origem e a extensão do seu drama. Em todo o caso, Keynes fica suficientemente impressionado para se convencer de que, de alguma forma, alguém ou alguma coisa deveria ser feita em seu socorro e consegue convencer o Professor T. Gregory, da London School of Economics, a desistir do acordo que já tinha assinado com a Royal Economic Society para recolher e editar as obras e a correspondência de David Ricardo. O contrato é transferido de T. Gregory para Piero Sraffa. Uma verdadeira bênção. Só Deus sabe o que Sraffa teria feito de outra forma.

Nesta altura, Piero Sraffa fica aliviado. Demite-se do seu cargo de professor em Cambridge, poupando-se ao pesadelo de dar aulas. Durante os 30 anos seguintes, mergulha na sua tarefa recém-adquirida – uma tarefa que, para os observadores externos, aparece, a partir desse momento, como a sua principal preocupação. Nos bastidores, o seu principal e grandioso programa de investigação é temporariamente posto de lado. Não totalmente, é claro. Pelo menos, aproveita a oportunidade para esclarecer, em seu próprio benefício, as incongruências do pensamento económico clássico. Este aspeto funde-se bem, afinal, com a primeira parte daquilo a que chamei, acima, a sua linha de pensamento “construtiva”.

Sraffa torna-se tão consciente da relevância das obras de Ricardo para o seu programa de investigação que, quando em 1941 a maior parte dos escritos de Ricardo foi para a tipografia (para aí permanecer durante anos, devido primeiro às suas dificuldades em escrever as introduções e depois à descoberta de novos documentos, como será explicado mais adiante), volta ao seu programa e começa a trabalhar numa nova fase que, a julgar pelas notas, parece tê-lo agora levado a concentrar-se na formulação correta, em termos de equações, de pelo menos algumas das suas proposições “clássicas”. Isto é bem evidente nas suas notas de 1941, onde se pode ver as suas reflexões anteriores a serem retomadas no ponto onde tinham sido deixadas. De facto, já em 1928 tinha tentado formular a sua teoria em termos de “equações”. Chegou mesmo a mostrar essas equações a Keynes. Este acontecimento é mencionado em muitos pontos dos rascunhos, e depois, embora de forma um pouco mais diluída, no Prefácio publicado. Mas no final da década de 1920 ele mal tinha sido capaz de ir satisfatoriamente além das “equações sem excedente”. Durante o período de 1941-44, faz realmente faz um avanço. Com os conselhos, nem sempre seguidos e por vezes contraditórios, de Besicovitch, consegue formular corretamente as equações com um excedente e com o trabalho explicitamente introduzido [7], descobrindo ao mesmo tempo as noções de taxa máxima de lucro independente dos preços, dos bens básicos e não básicos, e de “sistema padrão”. Estes resultados representam de facto um feito notável. Obtidos isoladamente e em silêncio, serão incluídos na primeira parte do seu livro vinte anos mais tarde. Mas, na altura, absorvem todos os seus esforços. Pouco mais pode fazer no que respeita ao resto do seu programa de investigação original. Volta, de vez em quando, às suas notas anteriores e acrescenta alguns comentários e reflexões. Não muito mais do que isso. Como consequência, o horizonte do seu programa de investigação reduz-se drasticamente. À medida que avança, fica entusiasmado com as propriedades notáveis que vai descobrindo na formulação matemática das suas equações. Mas isso absorve-lhe o tempo. É obrigado a adiar, ou a reduzir, os outros aspetos.

É precisamente nesta altura que ocorre outra interrupção. Acontecimentos inesperados durante a guerra levam Sraffa a tirar partido de uma descoberta excitante de um tipo diferente. Em julho de 1943, por acaso, uma caixa metálica fechada à chave, contendo um número considerável de documentos de Ricardo anteriormente desaparecidos, constituídos pela série completa das suas cartas a James Mill e outros manuscritos, é inesperadamente encontrada em Raheny, Co. Dublin. Logo que Sraffa é informado e toma conhecimento da descoberta, não hesita em decidir que tem de repensar todo o plano de publicação das Obras de Ricardo, apesar de os volumes já estarem no prelo! Cada vez mais, sobretudo a partir de 1944, a sua preocupação afasta-se das suas notas teóricas. Muito rapidamente, as suas energias são totalmente desviadas para a tarefa (incluindo a experiência emocionalmente pesada de escrever as introduções, com a ajuda de Maurice Dobb), de reestruturar e depois levar os volumes I a X de Ricardo até à publicação efetiva (1953-57). Dificilmente poderia ter feito outra coisa, sob a pressão crescente da Royal Economic Society para a publicação, há muito esperada, de uma obra que estava “no prelo” há mais de dez anos. Para este efeito, as suas energias são absorvidas quase na totalidade entre 1945 e 1955 (com o infortúnio acrescido do tempo perdido à força em consequência do já mencionado acidente de alpinismo na Noruega).

Quando, finalmente, todas as obras de Ricardo são publicadas (com exceção dos Índices, que permanecerão em vias de publicação até 1973), Sraffa volta finalmente atrás e retoma o seu trabalho teórico, tal como o tinha deixado nos anos 1940. De 1955 a 1960, quando ninguém o esperava, consegue reunir proposições suficientes para poder completar e, finalmente, publicar um livro. Todos nós o conhecemos bem: um livro de 99 páginas, espantosamente denso em conceitos, conciso e essencial, extraordinariamente compacto e desconcertantemente críptico – Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias. Sraffa abstém-se de fazer qualquer reivindicação ou pretensão. Apresenta-o apenas como “um prelúdio para uma crítica da teoria económica”.

 

7.7 Que fração do programa inicial?

Neste ponto, a pergunta que não pode deixar de ser feita é: que fração do programa original acabou por ser concretizada? A riqueza dos manuscritos existentes pode dar-nos pelo menos uma ideia do grande fosso que se abriu ao longo do tempo entre as intenções originais e o material que Piero Sraffa finalmente se convenceu a publicar.

Em primeiro lugar, há que registar com tristeza que Sraffa abandona o objetivo de publicar o que quer que seja sobre a história do pensamento económico. Trata-se de uma decisão extraordinária, tendo em conta as suas intenções iniciais. Uma ideia da amplitude do seu objetivo original pode ser obtida a partir de um esquema muito claro e revelador (ver Documento 4 no Apêndice) de como Sraffa vê o desenvolvimento do pensamento económico desde Petty até Marshall. Na mesma pasta, encontra-se uma página – intitulada “Principio” – com o seu plano de exposição pretendido (Documento 5 do Apêndice).

A interrupção de dez anos que se segue, enquanto prepara a edição das Obras e Correspondência de Ricardo, leva-o – como se pode perceber claramente pelas notas do pós-guerra – a uma profunda reavaliação. O seu grande programa inicial – posto de lado durante dez anos! – é objeto de uma reconsideração radical, de alto a baixo, graças, presumivelmente, a uma consciência mais realista do que poderia ser feito, tendo em conta o esforço e o tempo absorvidos para elaborar uma formulação satisfatória das suas equações. Numa nota, que nos Documentos de Sraffa se encontra entre as notas posteriores a 1945, encontramos um esquema intitulado “? Prefácio”, onde Sraffa dá conta explicitamente dos cortes que decidiu efetuar em relação ao esquema inicialmente previsto (ver Documento 6 do Apêndice).

A reestruturação não pára aqui, mas continua, como se pode ver por uma comparação entre o que é dito no Documento 6 e a publicação final [8]. Surpreendentemente, no final, nada resta de explícito sobre a história do pensamento económico. Só indiretamente encontramos breves (mas notáveis) peças relativas à história do pensamento económico na edição em onze volumes das Obras de Ricardo. Em Produção de Mercadorias, tudo o que se pode encontrar é um apêndice de duas páginas e meia chamado “Apêndice D – Referências à Literatura”. E isso é realmente tudo. Parece incrível pensar que estas duas páginas e meia são o que está realmente publicado sobre a história do pensamento económico por uma pessoa que é considerada um dos grandes estudiosos da área.

O mesmo processo, de um progressivo estreitamento de horizonte, acaba por afetar também a principal vertente da obra de Sraffa: a que se refere à crítica da teoria económica corrente. É surpreendente verificar que, no final, não resta qualquer crítica explícita à teoria económica marginalista (com exceção, talvez, de secções muito curtas aqui e ali, como a que se refere ao período médio de produção), embora essa crítica seja claramente o principal objetivo que Sraffa tinha em mente desde o início. Uma pista é dada nas frases iniciais do “Prefácio” do seu livro. Ele afirma:

É… uma caraterística peculiar do conjunto de proposições agora publicadas o facto de, embora não entrem em qualquer discussão sobre a teoria marginalista do valor e da distribuição, terem sido concebidas para servir de base a uma crítica dessa teoria. Se a base se mantiver, a crítica pode ser tentada mais tarde, seja pelo autor ou por alguém mais jovem e melhor preparado para essa tarefa (Sraffa, 1960, p. vi).

 

Consistentemente, dá ao livro o subtítulo Prelúdio a uma Critica da Teoria Económica – uma confissão implícita da sua consciência de estar muito longe daquilo que os seus manuscritos revelam ser os seus objetivos originais. Ao mesmo tempo, a frase final que acabo de citar revela o despontar da sua esperança de que alguns economistas da geração mais jovem possam seguir o seu exemplo e levar por diante a sua (originalmente concebida) tarefa.

É forçoso concluir que, no que respeita à publicação propriamente dita, aquilo a que chamámos a primeira e a segunda correntes de pensamento no programa original de Sraffa – na realidade, duas grandes correntes de pensamento nas suas notas – acabaram por ser abandonadas.

Parece paradoxal – se pensarmos na conhecida mente poderosa e crítica de Sraffa – que ele tenha decidido, no final, deixar a crítica completamente de lado e passar diretamente – de uma forma espantosamente concisa – para aquilo que foi acima apontado como a sua terceira, ou construtiva, corrente de pensamento. Parece quase inacreditável que, depois de ter censurado Marx nas suas notas anteriores (ver Documento 2 do Apêndice) por não ter apresentado primeiro uma explicação histórica, sendo assim a causa de não ser compreendido, ele faça exatamente o mesmo. No entanto, faz muito pior: não só abandona a sua conceção histórica da evolução do pensamento económico, como também deixa de lado qualquer crítica. Para além disso, o método de exposição extraordinariamente compacto de Sraffa comprime os seus argumentos até ao limite da incompreensibilidade. Não admira que o resultado tenha sido considerado confuso, enigmático e, para alguns, até obscuro.

Atualmente, o estado da compreensão em torno de Sraffa a melhorou um pouco. Muitos economistas da geração mais jovem não defraudaram as suas esperanças. Os seus contributos construtivos para a análise das relações entre o valor e a distribuição do rendimento, num sistema económico de produção mais geral, já foram bem entendidos. Os seus resultados analíticos relativos ao sistema Padrão e às relações entre os preços e a distribuição do rendimento foram amplamente ilustrados. Muitas das provas relativas às propriedades notáveis do seu sistema de equações (como a unicidade, a não-negatividade das soluções, a produção conjunta com capital fixo e terra como casos especiais, etc.) foram reformuladas com a ajuda de ferramentas matemáticas poderosas (como os teoremas de Perron-Frobenius). Além disso, a sua análise da mudança de técnica tem estado no centro de um vasto debate na teoria do capital. E as suas introduções às obras de Ricardo abriram o caminho para uma compreensão mais clara e profunda da teoria económica clássica.

Mas é precisamente porque a sua análise não foi precedida de uma exposição da sua conceção da evolução histórica do pensamento económico e da sua crítica da teoria económica marginal que os seus esforços construtivos ainda estão longe de ser totalmente compreendidos. Muitos economistas, mesmo entre aqueles que, no fundo, simpatizam com a sua abordagem, permanecem num estado de insatisfação.

Acima de tudo, a parte da análise de Sraffa que permanece na sombra é a que diz respeito ao papel das quantidades físicas e aos movimentos económicos ao longo do tempo. Podemos compreender muito bem como os preços e as quantidades estão separados na teoria económica clássica e como, coerentemente, o estão no esquema teórico de Sraffa. Mas Sraffa dá um passo atrás. Nas suas “proposições” publicadas, as quantidades físicas são consideradas como dadas, de tal modo que alguns críticos interpretaram erradamente o seu sistema como sendo apenas um semi-sistema, referindo-se ao lado dos preços e não ao lado das quantidades da economia.

Como concebeu ele os movimentos económicos de quantidades físicas, ou seja, a dinâmica de um sistema económico? É tentador olhar para o esquema de von Neumann ou para o modelo dinâmico de Leontief para tentar recolher algumas pistas. Mas, apesar das semelhanças analíticas com o “sistema padrão” de Sraffa, a abordagem de von Neumann parece inadequada, tal como a de Leontief. Sraffa nem sequer menciona o modelo de von Neumann, nem o de Leontief. Aqueles que tiveram a oportunidade de lhe colocar questões sobre estas semelhanças conhecem as respostas negativas de Sraffa. As abordagens de Von Neumann e, em maior medida ainda, de Leontief são completamente estranhas à sua conceção dos movimentos de um sistema económico ao longo do tempo.

Qual é, então, a conceção de Piero Sraffa? Não é fácil dar uma resposta satisfatória a esta questão. Nas primeiras notas de Sraffa encontram-se algumas pistas sobre o problema do “fecho” do sistema, em termos do que os salários e os lucros podiam comprar. Mas são observações de passagem (ou assim me parecem). A minha impressão é que, neste aspeto, a (em muitos aspetos) enorme massa de notas de Sraffa não é suficiente para revelar qualquer direção clara. Talvez ele simplesmente não tenha tido tempo para se debruçar sobre estes problemas ou não lhes tenha dado prioridade.

Pessoalmente, continuo a pensar que a única direção coerente com a sua linha de pensamento reside numa conceção dos movimentos económicos em termos de dinâmicas económicas estruturais. Mas, devo sublinhar, trata-se de uma opinião pessoal. A questão continua em aberto. Receio que também esteja fora do alcance dos seus manuscritos.

 

7.8 Observações finais

O presente exercício de “visão panorâmica” sobre os manuscritos de Sraffa pode muito bem sofrer de um impulso um pouco apressado para chegar, pelo menos, a algumas conclusões precisas. Mas tem sido difícil para mim não ficar profundamente impressionado com a perceção do drama que deve ter sido vivido por este homem notável, no isolamento e no silêncio. Por isso, creio que tomar uma posição clara, ainda que controversa, é a opção mais útil que posso oferecer. É certo que, ao longo da sua vida, Sraffa evoluiu na sua atitude, mas – estou agora mais do que nunca convencido – não nas suas ideias e convicções fundamentais.

A partir dos seus apontamentos, é possível perceber claramente o longo processo: de uma erupção vulcânica inicial de críticas intermináveis à teoria económica corrente, dentro de um sólido quadro concetual do desenvolvimento histórico do pensamento económico – surpreendentemente escondido até dos seus amigos – a reflexões mais maduras e à procura de uma distinção entre as proposições e conceitos tradicionalmente defendidos que podiam ser claramente demonstrados como carecendo de fundamento lógico, e aqueles que deviam ser tratados com grande circunspeção, dada a hostilidade generalizada prevalecente em relação às visões clássicas e marxianas. Chegou finalmente a uma atitude extremamente cautelosa que o levou a limitar a sua obra publicada a um núcleo conciso de proposições analíticas inatacáveis que poderiam ser utilizadas, sem ser acusado de preconceito ideológico, para a crítica da teoria económica marginalista… no futuro. Os seus notáveis resultados finais – parece-me – apontam numa dupla direção: (i) podem de facto ser usados para uma crítica da teoria económica marginal, como ele afirma explicitamente; mas também (ii) podem fornecer uma base lógica sólida – a semente inicial, poderíamos dizer – para uma reconstrução da teoria económica.

É precisamente aqui que reside o enigma. Que relação se pode estabelecer entre a abundância (de notas) e a escassez (de resultados publicados)? Quantitativamente, o contraste é enorme. Mas será que também o é qualitativamente? A minha resposta é um claro não. O que foi publicado – parece-me – enquadra-se perfeitamente no grande esquema inicial. O vasto leque de temas, de interpretações históricas, de avaliações de abordagens, de críticas, que as notas abordam e, por fim, as tentativas (limitadas) de reconstrução, podem perfeitamente ser enquadradas num esquema logicamente abrangente, desde que estejamos dispostos a passar a uma abordagem metodológica que me parece ser da maior importância.

Devemos notar que Sraffa opta por se concentrar numa parte estreita, mas ao mesmo tempo na parte mais sólida e permanente do seu quadro teórico, ou seja, nos fundamentos estritamente básicos da sua análise. Na Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias, Sraffa não se baseia em qualquer estrutura institucional, não faz referência a qualquer contexto histórico, não menciona qualquer tipo de “agente económico”. Evita cuidadosamente fazer quaisquer hipóteses sobre o comportamento humano, estruturas de mercado, concorrência ou rendimentos de escala. Evita mesmo tomar uma posição explícita sobre a distribuição do rendimento e não se compromete com a forma como a taxa de lucro (ou, em alternativa, a taxa de salário) é determinada. A taxa de lucro é simplesmente considerada como uma variável determinada de forma independente.

Uma vez que a sua “teoria económica pura” de base não depende de pressupostos institucionais específicos, goza de vida própria, ao nível dos fundamentos da teoria económica. E Sraffa está confiante: “se os fundamentos se mantiverem [afirma no seu Prefácio], a crítica [mas, podemos também acrescentar, a reconstrução da teoria económica] pode ser tentada mais tarde”. É inegável que o que aqui se sugere é uma tarefa verdadeiramente formidável. Logicamente, não se trata sequer de uma única tarefa, mas sim de pelo menos duas tarefas distintas. O “programa incrivelmente ambicioso”, como lhe chamei acima, que pode ser detetado no início da sua massa de notas, abrange realmente 360 graus: sobre a história, sobre a evolução do pensamento económico, sobre as instituições económicas. Os muitos e variados aspetos e etapas desta tarefa podem – como podemos agora perceber – ser constantemente vistos por detrás de todos os esforços dos seus colegas de Cambridge, em várias partes, através de muitos aspetos.

No entanto – do nosso ponto de vista – isto não é de modo algum a história completa. Se a análise anterior estiver correta, há também a tarefa relativa aos aspetos fundamentais da análise económica que ainda está por concluir. Não devemos ser complacentes com isso, nem alimentar ilusões. Esta é a parte menos satisfatória de qualquer trabalho que possa ser tentado com base exclusivamente nos Documentos de Sraffa, porque – como já foi referido – parece ir para além do conteúdo dos próprios Documentos. Qualquer que seja a investigação que se possa efetuar sobre os Documentos de Sraffa, não se pode pretender encontrar neles o que neles não existe.

Cabe aos economistas da geração pós-Sraffa construir a parte dos fundamentos da teoria económica que Sraffa não conseguiu completar.

 

___________

Notas

[7] De Vivo (2004) confirma isto na sua muito interessante e detalhada análise do caminho de Sraffa para a formulação final das equações do seu livro.

[8] Há uma carta interessante e divertida de Raffaele Mattioli, datada de 15 de Março de 1955, que revela que tinham falado sobre a retomada pretendida do projecto de Sraffa e sobre os cortes drásticos que precisavam de ser feitos. Mattioli escreve (em italiano): “… espero que nos últimos 30 dias tenha conseguido reduzir para meio quilograma os vinte quilos de papelada … e espero que escreva o primeiro rascunho do “pequeno livro modesto”. Mantenha-me informado …’ (SP D3/11/83, f.6)

 


Apêndice: documentos selecionados dos documentos de Sraffa não publicados (*)

(*) Estou grato ao executor literário de Sraffa, Pierangelo Garegnani, e também a John Eatwell e Alessandro Roncaglia pela permissão para publicar os documentos (até agora) não publicados neste apêndice.

 

Documento 4

Sraffa Papers D3/12/4, f.10 (datada de Novembro 1927)

História

Economia Política Clássica (a era de Ricardo) ou A. Smith?

De Petty a Ricardo – conceção correta, pressupostos fundamentais; técnica primitiva, rudimentar.

(A. Smith tinha fortes tendências “vulgares”: pode verdadeiramente dizer-se que é o “fundador da economia moderna”!)

Economia Política Vulgar (a era de Mill)

De Malthus a Stuart Mill – tudo errado aqui: eles têm as conceções erradas da economia moderna e da técnica rudimentar dos clássicos.

Período dominado por Mill: Marx está aqui imponente como o último dos clássicos entre os vulgares, assim como Smith ficou isolado entre os clássicos, sendo o primeiro dos vulgares.

Economia (a era de Marshall)

De Jevons e companhia a Marshall – técnica altamente refinada, concepções podres e pressupostos fundamentais.

Mas a técnica tão altamente aperfeiçoada que às vezes os obriga inconscientemente a modificar as suas suposições conscientes (justamente contradizendo-se) e, assim, chegar a conclusões parcialmente verdadeiras.

Note-se que no final dos clássicos desenvolveu o socialismo primitivo (Owen, Hodgskin) e causou vulgar P. E. No final do período vulgar veio Marx e causou economia.

 

Documento 5

Sraffa Papers D3/12/4, f.12 (data atribuída, Novembro 1927)

Princípio

Começarei por dar um breve “estratto” daquilo que considero ser a essência das teorias clássicas do valor, ou seja, das que incluem W. Petty, Cantillon, Fisiocratas, A. Smith, Ricardo + Marx. Esta não é a teoria de nenhum deles, mas um extracto daquilo que penso ser comum a eles. Afirmo-o, naturalmente, não com as suas próprias palavras, mas com a terminologia moderna, e será útil, quando procedermos à análise das suas teorias, compreender os seus âmbitos do ponto de vista da nossa investigação actual. Será uma espécie de “quadro”, uma máquina, na qual encaixar as suas próprias afirmações num padrão homogéneo, de modo a poder encontrar o que nelas é comum e qual é a diferença com as teorias posteriores.

Em seguida, vou rever essas teorias de forma muito cursiva, lidando com elas, de modo algum exaustivamente, mas examinando apenas os pontos que são relevantes para o meu presente propósito. Assim, dos fisiocratas, não falarei do fisiocrático, mas apenas do um dos seus pontos fundamentais.

 

Documento 6

Sraffa Papers D3/12/43, f.4 (data atribuída, pós 1945)

? Prefácio

Pretendi, em certa altura, acrescentar, incluir neste trabalho, uma introdução que explicava a sua relação com o trabalho dos economistas clássico anteriores (escritores), (alguma antecipação disso eu dei em Secs … da introdução …) e uma série de notas controversas sobre pontos de vista defendidos pelos economistas modernos. Decidi, no entanto, enviá-lo como está e deixá-lo ser julgado pelos seus próprios méritos: se for considerado de algum interesse, haverá tempo para isso … poderão existir outras oportunidades de publicação desses aditamentos.

Slogans não utilizados

O sistema St fornece provas concretas da taxa de lucros como um fenómeno não relacionado com os preços.

Um dividendo pode ser declarado antes de saber qual é o preço do produto da empresa.

 


Referências

Cozzi, T. and Marchionatti, R. (eds) (2001) Piero Sraffa’s Political Economy – A Centenary Estimate (London: Routledge).

de Vivo, G. (2004) ‘Da Ricardo e Marx a Produzione di Merci a mezzo di Merci’, in the Conference Proceedings of the Lincei Academy, ‘International Conference on Piero Sraffa’, Rome, 11–12 February 2003, pp. 215–234.

Keynes, J. M. (1930) A Treatise on Money, 2 vols (London: Macmillan); Italian trans., Milano: Treves 1932 (1st vol.) and 1934 (2nd vol.).

Luigi L. Pasinetti 173 Keynes, J. M. (1936) The General Theory of Employment. Interest and Money (London: Macmillan).

Manara, C. F. (1968) ‘Il modello di Sraffa per la produzione congiunta di merci a mezzo di merci’, in L’Industria, 1: 3–18. Eng. trans.: ‘Sraffa’s Model for the Joint Production of Commodities by Means of Commodities’, in Luigi L. Pasinetti (ed.) (1980), Essays on the Theory of Joint Production (London: Macmillan): pp. 1–15.

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Pasinetti, L. L. (2007) Keynes and the Cambridge Keynesians: A ‘Revolution in Economics’ to be Accomplished (Cambridge: Cambridge University Press).

Schefold, B. (1971) Piero Sraffas Theorie der Kuppelproduktion des Kapitals und der Rente, PhD dissertation, University of Basel, republ. in Mr. Sraffa on Joint Production (London: Unwin Hyman, 1989).

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Sraffa, P. (with the collaboration of Maurice Dobb) (1951–73) The Works and Correspondence of David Ricardo, Vols I–IV (1951); V–IX (1952); X (1955); XI (1973); a publication of the Royal Economic Society (Cambridge: Cambridge University Press).

Sraffa, P. (1960) Production of Commodities by Means of Commodities – Prelude to a Critique of Economic Theory (Cambridge: Cambridge University Press). Italian version: Produzione di merci a mezzo di merci –Premesse a una critica della teoria economica (Torino: Einaudi, 1960).

Wittgenstein, L. (1922) Tractatus Logico-Philosophicus (London: Routledge &  Kegan Paul).

Wittgenstein, L. (1945) Philosophical Investigations (Oxford: Oxford University Press).

 


O autor: Luigi L. Pasinetti (1930-2023) foi um economista italiano da escola pós-keynesiana. Pasinetti foi considerado o herdeiro dos” keynesianos de Cambridge ” e aluno de Piero Sraffa e Richard Kahn. Juntamente com eles, assim como Joan Robinson, ele foi um dos membros proeminentes do lado “Cambridge, Reino Unido” da controvérsia de Cambridge. As suas contribuições para a economia incluem o desenvolvimento dos fundamentos analíticos da economia neo-ricardiana, incluindo a teoria do valor e da distribuição, bem como o trabalho na linha da teoria Kaldoriana do crescimento e da distribuição de renda. Desenvolveu também a teoria da mudança estrutural e do crescimento económico, da dinâmica económica estrutural e do desenvolvimento sectorial desigual. Foi professor emérito na Universidade Católica de Milão. (para mais detalhes ver wikipedia aqui)

 

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