CARTA DE BRAGA – “dos gatafunhos ao pensar” por António Oliveira

Quando comecei a desenhar, já lá vão muitos anos ainda se usava a lousa e um pau de giz e olhava quase triste para os meus gatafunhos, muito mais se via o desenho de um pintor todos eram pintores se as coisas saíam direitinhas ou via um retrato das mesmas coisas feito ainda por uma daquelas máquinas fotográficas de fole, que eu bem invejava, mas não tinha qualquer hipótese de arranjar.

Até porque passava tempos infinitos a tentar passar para a lousa o que estava a ver, e aquela coisa com fole (para que serviria aquilo?) apontava, e o artista logo exclamava ‘já a tenho!’, sem ter perdido tempo nenhum.

Mais tarde, uns anos mais tarde, aprendi a transformar os primeiros e mais pequenos dos meus gatafunhos em letras, mesmo com a ajuda daqueles cadernos de duas linhas –que creio já desaparecidos– e a ficar todo orgulhoso quando consegui escrever o meu nome. Também me ensinaram então, que transformar os gatafunhos em letras (sem ser a copiar) era o que também se chamava pensamento e, desse confronto permanente entre a mão e o pensar, tinha resultado o crescimento físico, mental, cultural e evolutivo da inteligência humana.

Não há muito tempo, também me pareceu estar a voltar lá atrás, quando comecei a ver de novo uns outros gatafunhos mas a cores e mais perfeitinhos a substituir palavras e até ideias, se calhar por já nem haver aquelas máquinas com fole para tirar retratos, ou terem acabado de vez com os cadernos de duas linhas.

Mas o problema do pensamento parece também estar a dar uma ‘volta do caraças’, porque o ecrã seja qual for o seu tamanho passou a ser o jornal diário do leitor normal, só com a concorrência do ‘manha de todas as manhãs’, sem se encontrem respostas para esta crise, por bem difícil, e estar em causa a desmaterialização da imprensa escrita que foi, tem sido e ainda é, um dos garantes da democracia na maioria das sociedades ocidentais.

Mas esta questão pode ainda ganhar novas e preocupantes dimensões: de acordo com um artigo da autoria de Josep Lluís Micó, catedrático em comunicação e especializado em tecnologia, as plataformas estudam como produzir conteúdos que se consumam compulsivamente, a que atribuem a denominação de ‘iPap kids’ e ‘screenagers’, neologismos resultantes da fusão entre ecrãs e adolescentes, em virtude das análises de muitos anos, dos seus hábitos e preferências nos YoutubeInstagramSnapchat e TikTok.

Aqui está também uma das principais causas da desmaterialização da imprensa, e das dificuldades de leitura de textos mais longos ou mais complexos, de que tanto se falou ultimamente, pois a linguagem tanto é consequência de factores inatos como adquiridos, de impulsos internos e externos, mesmo sendo pré-determinados, o que pressupõe também a pré-existência dos pensamentos e sentimentos que estão ‘’ para serem aproveitados, pelos mandadores das programações.

E não podemos esquecer, afirma o escritor Alejandro Peñalva, no Diario 16, ‘Cada vez mais nos abandonamos a esta perigosa corrente, agarrando-nos a inesgotáveis reservas de hipocrisia, fingindo ignorar a dimensão social do ser humano, o que nos converte em seres doentes de soberba e egoísmo, e desprezam valores tão necessários como a convivência, a tolerância e o entendimento’.

Antoine Saint-Exupéry escreveu em ‘O principezinho’, já em 1943, ‘⁠Vejo humanos, mas não a humanidade. Todo mundo é alguém, mas ninguém quer ser ele mesmo’, como se previsse a oitenta anos de distância, esta falta de amizade, onde imperam o cinismo e a canalhice que ofendem e humilham, consequências de uma desigualdade para quem a dignidade não existe, a mais perigosa das pandemias que o ser humano já penou.

Este é o tempo ideal para recordar que, se voltarmos lá atrás, ao tempo das nossas memórias, ou às daqueles a quem devemos aquilo que somos, pelo que nos ensinaram, ao lado de todos os outros, os donos dos domínios onde imperava o que humilha por nos negarem a identidade, só por não usarmos o distintivo nem o “s” no cinto das calças, poderemos passar o resto da vida a contar os tostões, mas a ver livremente todos os vídeos urgentes com não mais do que quinze ou vinte segundos, nos ecrãs que eles comandam.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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