NÃO VIVEMOS TODOS NO MESMO TEMPO por Luísa Lobão Moniz

 

Sísifo
Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


TORGA, M., Diário XIII

LIBERDADE!
A mulher vai bamboleando o corpo à medida que homens seguram no pano que a transporta.
Correm, ela balouça, já sem força para aguentar o seu próprio corpo habitado por um ser que não descansou enquanto se desenvolvia. Eram sirenes, eram choros, era fome, era uma mãe assustada.
Chegaram ao hospital (?), abriram alas para passar, era a pessoa que mais cuidados precisava. O seu filho ia nascer, sim nascer, mas saiu morto.
Os esforços dos profissionais de saúde foram em vão.
O seu corpinho seco, e sem vida, foi embrulhado num pano e ela não teve força para o ver. Virou a cabeça e faleceu…
Ao lado um bebé nascia, mas não chorou, estava desidratado e desnutrido. Depois de tentada a reanimação emitiu um vagido quase sem som. A mãe tinha a cara lavada em sangue e lágrimas. E agora? O que vai fazer? Não sabemos, salvou-se mãe e filho e o Mundo respirou fundo…

Mais uma vida, mas para que tempo? Para este presente? Para o presente que não é o mesmo para todos?
Para a guerra? Para lutar pela Liberdade?
Não sabemos, a Liberdade de escolha será dele.
Será?
De que mundo vai ser cercado? O que lhe vão ensinar? Vai ver como vivem as pessoas no dia a dia. Vai ser informado com falsas verdades vindas dos poderosos. Vai querer engrossar os milhões de pessoas que lutam, por todo o mundo, por uma vida melhor e o melhor é poder decidir e participar no seu futuro e no dos outros.
Sérgio Godinho lembrou que sem o pão, sem a habitação, sem saúde, sem educação não há liberdade a sério.
O saudoso Mário Branco disse-nos que não é preciso pegar em armas porque a canção é uma arma, Zeca Afonso cantava “O que é preciso é avisar a malta, o que é preciso, o que é preciso é agitar a malta, o que é preciso é dar poder à malta”.

A Liberdade nasce da capacidade de reflexão, dos valores adquiridos, e da força inabalável de ser um Ser Humano com dignidade.
É não viver acorrentado, é não viver com medo. Será que é possível? Naturalmente que sim, mas é preciso o conhecimento necessário para percebermos que não vivemos todos no mesmo tempo…

As leoas tomam conta dos filhos, os leões protegem os filhos e as leoas contra o ataque de outros leões.
Os leões marcam o seu território com urina e rugem muito alto e com força para afugentar outros leões que queiram invadir o seu território.
Os filhotes machos podem afastar-se para outros grupos roubando a liderança do chefe desse grupo.
O que nos faz lembrar?


Viva a capacidade de reflexão e do sentido de Liberdade e dos Direitos Humanos.

 

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