UMA CARTA DO PORTO – POESIA – Por José Fernando Magalhães (593)

 

 

PINTO O MEU POEMA

Pinto o meu poema

E desenho o meu caminho

Num mar de letras.

Às vezes junto alfazema

Outras jasmim,

Tudo no mesmo cadinho

E às vezes umas fraquezas.

Pinto o amor

As cores,

Os cheiros

Sentimentos e sabores

Procuro desenhar com primor

O meu mar de cativeiros

Onde todos somos actores.

Pinto-me do cheiro do pomar

E de suaves cores pastel

Amo as palavras por si mesmas

Procuro um sentido para me desenhar

E sentado num capitel

Dissolvo a doçura que o sal tem

E quando um dia eu me acabar

Desprendo-me do meu corpo

Parto com as aves

E vou para o lugar do nunca

Um sítio singular

Onde não vive ninguém

De uma ponta, à outra estrema

Numa enorme enseada.

Deixo as minhas mãos

De uma maneira ágil

Pintarem o meu poema,

Na minha janela privada

Entrego-me ao meu destino frágil

E à imensa linguagem do silêncio

Onde tudo é quase nada.

 

OBS – poema publicado no livro

“A SECRETA VIDA DAS PALAVRAS À CHUVA”

Dezembro de 2023

porto

 

 

 

Leave a Reply