Poucos serão os que se lembram de uma engraxadoria que havia na Rua Sampaio Bruno, frente ao Café Embaixador, ali à boca da Praça da Liberdade. À entrada de um velho prédio alinhavam-se, se a memória não me atraiçoa, como diz o General Agostinho Costa, quatro caixas de engraxador, assentes no chão. Frente a cada uma delas havia uma cadeira arredondada, fixada num estrado de madeira, um pedaço mais alto. Uma quinta cadeira, junto à porta interior, destinava-se ao patrão, quando ali aparecia. Entre cada caixa e respectiva cadeira interpunha-se, também fixo no estrado, um suporte metálico em forma de pé, onde o cliente assentava o sapato. Todos os engraxadores trabalhavam em simultâneo e com clientes à espera. Muitas vezes ali entrei, mais pelo prazer de ouvir as conversas dos graxas e a sinfonia de estalos e gemidos do pano a arrancar o brilho ao cabedal, do que pela necessidade de ver os sapatos a luzir. Perdê-las era perder o dia.
Entre as muitas conversas de que me lembro, deixo-vos a que se segue, muito difícil de transpor para o papel, como é óbvio para quem conhece o gesto, a mímica e o inconfundível falar tripeiros. O engraxador que me limpava os sapatos, talvez o mais velho, parou a escova, retirou a prisca do canto da boca e disse para o colega do lado, mais novo e franzino:
– Tu queres saber, pá, ca minha mulher diz canda cos caluâres!
– É da mudãnça, responde o mais novo.
– Que mudãnça, meu?
– Da idade.
As bocas calaram-se por momentos, a prisca voltou ao seu lugar e as escovas retomaram o seu furioso movimento, ao través e ao comprido. Ao fim de alguns instantes, nova pausa.
– Mas o que mais me mexe cos colarinhos é quela diz que vai ó médico para ele le tirar os caluâres!
– É. Eles tem lá umas pírulas caisqueres.
– Atão ela vai ó médico pra ele le tirar os caluâres, meu?! Foi cand eu me virei pra ela e le disse: ó mulher, tu tira uma semana pó Gerês, onde eu num beja ninguém, queu tiro-te os caluâres tuâdos.