As sílabas marginais/os velhos jornais/de Nelson Ferraz

 

 

os velhos jornais

que manhã cedo apareciam pelas mãos do avô

sabiam a uma liberdade que não era.

 

noite dentro

alguém pesava as palavras antes de chegarem aos olhos.

 

mesmo assim

os velhos jornais tinham sempre um não-sei-quê

de companheiros de aventuras silenciosas.

 

o cheiro das letras era uma janela de tinta

que se abria

entre o café e o pão com manteiga.

 

os velhos jornais liam-se com o vagar de quem procura

uma palavra que está sem estar

ou uma história a sério que passou pelo coador azul.

 

com eles 

o tempo amanhecia-me nas mãos.

 

 

 

Leave a Reply