Aqui há dias, com um enorme espanto meu e de mais duas raparigas, também sentadas na esplanada, um jovem –ainda não devia ter vinte anos– entretinha-se a ler, enquanto bebia uma cerveja pelo gargalo, sem usar o copo; nas mãos tinha ‘A conquista da felicidade’ de Bertrand Russel, que reconheci pela capa azul da Almedina.
Pensei para mim, até por nem ouvir os comentários das duas raparigas que falavam baixinho, inclinando-se uma para a outra por cima da mesa para não serem ouvidas, mas a olhar de soslaio o jovem que devia estar noutro tempo, ou noutro lugar, –se calhar até tinha o telemóvel escondido na pequena mochila deitada na cadeira do lado– talvez por ser bem perigoso, na sociedade actual, ter leituras que indicam preocupação pela cultura e pela crítica, a permitir ainda uma linguagem própria, fundamentada e alternativa.
E pensei também em quem teria tido em casa ou nas aulas, para se sentar numa esplanada, saco de plástico da FNAC ao lado da mochila, para o incentivar e levar a tal leitura, quando se encurta o ensino da literatura, da filosofia e das humanidades, talvez porque quanto mais incultos, mais fáceis de aborregar, manipular e comandar.
De algum modo, Saramago explicou muito bem toda esta situação, nos escritos que deixou nos ‘Cadernos de Lanzarote’, ao afirmar, ‘As três doenças do homem actual são a incomunicação, a revolução tecnológica e a vida centrada no triunfo pessoal’.
Não há muito tempo, também o ensaísta, escritor e cronista mexicano Neif Yehya, potenciou a afirmação de Saramago, ‘Graças à rede, às comunicações digitais e aos dispositivos “inteligentes” que carregamos nos bolsos, apareceu esse monstro que é o capitalismo de vigilância, que nos reduziu a “usuários”, uma condição que não é a mesma de “clientes”, pois a experiência humana que partilhamos em linha, foi “amoedada”, sem termos qualquer compensação por isso’.
Uma condição que se transmite à comunicação social, pois, até li há dias num sítio qualquer, ‘Estamos à mercê de um jornalismo cada vez mais reduzido a vender opiniões como factos’, até por ser notório que as primeiras páginas há já muito tempo que não informam, antes parecem estar a catequizar. As televisões e a rádio ajudam ao converter decisivamente as opiniões em factos, com as suas conversas e entrevistas com gente escolhida a dedo, que também fazem de nós uns cidadãos cada vez mais polarizados, que só toleram quem lhes afaga o pensamento.
‘O homem público deixou de ser um ser social, transformou-se num ser ligado apenas à sua intimidade; quando muito, num espectador da intimidade dos outros’, afirmou não há muito tempo, o sociólogo e historiador norte americano Richard Sennett, parecendo mesmo garantir com esta afirmação, a validade de uma outra com mais de setecentos anos, muito longe destes tempos onde toda a gente se expõe nas redes sociais. Escreveu Nicolau Maquiavel que veio a morrer em 1527, ‘Poucos chegam a ver o que somos, mas todos vêem o que aparentamos’.
Estamos mergulhados num ‘abismo da irrelevância’, como uma cronista caracterizou estes tempos, ‘As redes sociais, juntamente com a crise do jornalismo, elevaram à categoria de informação e conhecimento o que é apenas espectáculo e frivolidade. Não há debate público quando se fala na alteração do clima em termos negacionistas, não há debate público sobre a educação pública, quando se parte da desinformação e manipulação de factos para chegar a conclusões elitistas e tão desfasadas de verdadeiros problemas, transcendentes para o futuro de um país’.
E só tocou nestes dois temas, talvez por lhe serem mais próximos, mas outros poderia ter citado, como a precaridade e a carga fiscal exercidas sobre o trabalho, a quebra do poder de compra dos salários médios, a falta de vigilância nas florestas e a ruína do mundo rural, o descrédito da política e a perda de valores na luta contra a pobreza e a ascensão da extrema direita, isto só para acrescentar mais alguns.
A propósito e no mesmo jornal, vinha também uma frase que traduzi literalmente, ‘Dizia o sábio e comprometido José Saramago, que os políticos discorrem entre duas opções: a ambição e as ideias’.
Talvez por isso, também me sinto a dar razão a Charles Chaplin, ‘Todos somos figurantes. A vida é tão curta que não dá para mais’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


