A morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura que está prestes a estar a cair na barbárie, escreveu um dia, Hannah Arendt.
Vem isto a propósito do drama imenso que a palavra Gaza, arrasta com ela, e que levou António Guterres a afirmar, durante uma declaração conjunta aos jornalistas, ‘A guerra em Gaza, coloca a humanidade à beira da perda absoluta da fé nas normas globais’, explicando que seria imperdoável não estarem a ser aplicadas as normas aprovadas, a seu tempo, pelo Conselho de Segurança.
Palavras que levaram o primeiro ministro Netanyahu a colocar a sede das instalações das Nações Unidas naquele país, nas listas dos objectivos militares do exército israelita, logo a ser atacada a 15 de Maio, uma semana depois de o seu responsável ter anunciado o encerramento das instalações em Jerusalém Oriental, após duas tentativas de fogo posto imputadas a ‘extremistas israelitas’.
Aliás e para responder às pressões internacionais, especialmente dos EUA, o seu ‘fornecedor’ habitual e mais importante, Netanyahu afirmou ‘Se temos de estar sós, estaremos’, numa mensagem velada a Anthony Blinken, o emissário especial de Joe Biden, que lhe foi dizer do possível corte da ajuda militar norte-americana, se Israel atacasse Rafah em grande escala e, se calhar, a qualquer sentença a vir do Tribunal Internacional de Haia.
Talvez por tudo isto, não me importo de trazer para aqui, as duras palavras de Luis García Montero, um respeitável catedrático em literatura, poeta e ensaísta, ‘Estamos a viver num mundo de muitas marionetas já passadas na idade, ou num circo onde trabalham às ordens dos interesses mais egoístas. Justificam genocídios, insultam sem pudor e estão ocos por dentro. Não ser marioneta, ser uma pessoa e ter sentimentos traz sofrimento, mas é importantíssimo para assumir a autoridade política que nos defenda da lei da selva’.
E, talvez por esse mesmo motivo, lá fora os jornais anunciaram no dia 16 deste mês, que Bayer, Volkswagen, BMW, Allianz, Deustche Bank, Siemens, Mercedes bem como mais de trinta empresas da Alemanha se tinham mobilizado para travar o voto ultra nas próximas eleições europeias, ‘fazendo campanha com os seus trabalhadores, para que não votem em partidos como Alternativa por Alemanha’.
Dizem que o extremismo e populismo tal partido (AfD), impedem a construção de uma Europa e de uma democracia fortes. Note-se que é uma atitude inédita no país, por nunca antes, tantas e tão destacadas empresas terem unido forças, a favor da diversidade, abertura e tolerância, aliás a base da prosperidade alemã.
Não parece estar der acordo com isso o primeiro ministro húngaro Viktor Orbán, por logo no começo da campanha eleitoral para as europeias, em Budapeste, e depois de ter acusado o Ocidente de promover a guerra na Ucrânia, ter sentenciado também, ‘Os patriotas devemos ocupar Bruxelas’; é apenas a continuação do que afirmou no vídeo que mandou para a convecção da extrema direita em Madrid, organizada pelo partido ultra Vox, com a presença do ‘El Loco’ argentino Milei, ‘Bruxelas está a permitir a emigração massiva ilegal sobre nós, a envenenar os nossos filhos com propaganda de género, a enganar os agricultores e a destruir as famílias tradicionais’.
Talvez seja conveniente recordar que de acordo com as normas, Orbán vai assumir em Julho, a presidência do Conselho da UE.
Mas quando lemos estas coisas ou assistimos também, aos espectáculos terríveis em que se transformaram os espaços noticiosos, confirma uma outra afirmação de Hannah Arendt, ‘Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança’, por estarem à frente dos destinos da humanidade pessoas que não querem saber nem se importam como ‘A dignidade é a mesma para alguém nascido na Itália ou na Etiópia, em Israel ou em Gaza. É exactamente a dignidade inalienável. Não há nenhuma circunstância que faça com que uma pessoa tenha menos valor, a sua dignidade permanece inviolável em qualquer contexto, situação, cultura’.
São palavras do filósofo e padre Anselmo Borges, tiradas já em Abril passado, de uma das suas crónicas no DN, tendo em atenção que quando a morte, mesmo de um animal, seja um espectáculo para transmitir e divulgar, estamos a renunciar a alguns dos maiores valores do ser humano, a compaixão e a piedade.
E ainda correm nestes dias, as imagens da tentativa de matar o primeiro ministro Fico, da Eslováquia. Mais um ‘espectáculo’ para nos trazer à memória, umas outras mais antigas, com consequências terríveis para todo o mundo. Deve dizer-se também que ainda não passaram muitos anos sobre elas, mesmo considerando a desmemória levada a cabo pelo desinvestimento no estudo das humanidades!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor