Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 4 — Texto 4. Seis maneiras através das quais os modelos económicos existentes estão a matar a economia (1/2). Por Nick Hanauer

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 4 – A quem servem os modelos de macroeconomia – os impasses da esquerda americana

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

Nota de editor: dada a extensão do texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a primeira.

 

Texto 4 – Seis maneiras através das quais os modelos económicos existentes estão a matar a economia (1/2)

A suposta ciência não corresponde ao mundo real.

  Por Nick Hanauer

 em 5 de Abril de 2023 (original aqui)

 

            Ilustração por ROB DOBI

 

Os americanos têm sido martelados durante décadas com uma mensagem económica que equivale a isto: Quando pessoas ricas como eu ganham ainda mais riqueza através de cortes de impostos, desregulamentação e de políticas que mantêm os salários baixos, isso leva ao crescimento económico e benefícios para todos os outros na economia. E igualmente, investir em cada um de nós, aumentar o nosso salário, perdoar a sua dívida ou ajudar a sua família seria mau para nós mesmos! Esta é a forma de pensar chamada de trickle-down sobre a causa e o efeito da economia, e não há dúvida de que contribuiu substancialmente para a maior transferência de riqueza na história do mundo.

 

Nota de editor

Sobre o significado de trickle-down, vale a pena recordar o que sobre isso disse Mario Nuti, no seu texto de 2018 “Ascensão, Queda e Futuro do Socialismo” (publicado em A Viagem dos Argonautas 23/12/2018), e a nota de Júlio Marques Mota sobre o assunto:

Diz Mario Nuti:

A crença de que a globalização beneficia toda a gente, como a maré que faz subir todos os barcos, cujos benefícios em qualquer caso de uma economia «trickle down», ganhos que escorreriam dos ganhadores iniciais para o resto da população, é uma crença generalizada mas infundada: uma economia «trickle up» é a situação mais provável”.

Diz Júlio Mota, em nota:

“As expressões tricke-down e tricle-up terão sido conhecidas durante a Grande Depressão a partir de um texto de Will Rogers. Vejamos a sua explicação na íntegra: “Esta eleição foi perdida há já quatro a seis anos atrás, não neste ano. Eles [os republicanos] não começaram a pensar no velho colega comum senão quando começou a campanha eleitoral. O dinheiro tinha sido todo ele apropriado pelas gentes do topo da escala de rendimentos, na esperança de que este, depois, transbordasse e passasse a escorrer também a favor dos necessitados. O Presidente Herbert Hoover [Republicano] era um engenheiro. Ele sabia que a água escorre, de cima para baixo. Coloquem-na numa colina e deixem-na ir e esta chegará até ao local mais seco, por mais pequeno que este seja [a economia trickle-down]. Mas ele não sabia que o dinheiro poderia escorrer de baixo para cima. Dê dinheiro às pessoas da parte mais baixa da escala de rendimentos e as pessoas no topo dessa mesma escala tê-lo-ão de volta antes de chegar a noite, de toda a maneira. Mas, pelo menos, passará pelas mãos das pessoas pobres. Eles salvaram os grandes bancos, mas os pequeninos foram mandados para a chaminé.” Em: Will Rogers in the St. Petersburg Times – Nov 26, 1932.

 

O leitor pensaria que tentar vender um resultado tão desastroso para a grande massa de cidadãos seria incrivelmente impopular. Nenhum político diria abertamente que quer reduzir a classe média, dificultar a sobrevivência ou recompensar menos o trabalho árduo. Nenhum político diria abertamente que as pessoas ricas devem ficar mais ricas, enquanto todos os outros lutam para ter uma vida decente.

Mas esta mensagem foi escondida sob a linguagem confusa, técnica e muitas vezes impenetrável da economia. Muitos economistas académicos fazem um trabalho importante tentando entender e melhorar o mundo. Mas a experiência de economia da maioria dos cidadãos vem de ouvir uma história, uma narrativa que racionaliza quem recebe o quê e porquê. As pessoas que mais se beneficiam desta política dita de trickle-down, empregaram economistas para trabalharem bem a sua mágica para contar esta história e explicar por que não há alternativa à sua certeza científica.

Uma das principais ferramentas persuasivas dos economistas defensores do trickle down é o modelo económico, usado para prever e avaliar o resultado das políticas económicas e outros grandes desenvolvimentos económicos. Esses modelos existentes exercem uma força tão grande no debate político, em grande parte porque as suas previsões são tratadas por políticos e repórteres como factos económicos simples, produzidos por especialistas que refletem a nossa melhor compreensão das causas e dos efeitos económicos.

O que poucos entendem é que esses modelos económicos não refletem plenamente, e nunca podem fazê-lo, a extraordinária complexidade dos mercados humanos. Em vez disso, o objetivo é criar abstrações úteis para fornecer aos tomadores de decisão uma noção dos impactos orçamentais e económicos de uma determinada proposta política. Mais perturbadoramente, as suposições contidas nesses modelos definem completamente o que os modelos preveem. Se as hipóteses estiverem erradas, os modelos também estarão errados.

E estes modelos estão profunda e consistentemente errados.

Mas “errado” não captura o verdadeiro problema. O problema mais profundo é que esses modelos estão todos errados da mesma maneira, e na mesma direção. Eles estão errados de uma forma que beneficia massivamente os ricos e prejudica massivamente tudo e todos os outros.

Os títulos derivados desses modelos refletem consistentemente esse enviesamento:

Aumentar o salário mínimo para $15 custaria 1,4 milhões de postos de trabalho”, diz o CBO, ou “o aumento do imposto empresarial de Biden poderia encolher a economia, reduzir o volume de emprego” diz-nos um estudo.

Os modelos servem menos como análise científica e mais como encantamentos do culto ao neoliberalismo, e se os políticos e os jornalistas continuarem a aceitá-los com a mesma credulidade ingénua que sempre tiveram, dificultarão o espantoso progresso económico intermédio que a administração de Biden fez para reconstruir uma economia mais equitativa e próspera para todos.

O problema é que poucas pessoas dedicam tempo para explicar o que são esses pressupostos errados, porque é que todos eles promovem a visão de mundo dos ricos e poderosos, e porque é que eles não devem ser tratados como ciência, mas como uma terra de fantasias como o trickle down.

Aqui estão seis dos pressupostos construídos na maioria dos modelos económicos que estão entre os mais perniciosos:

 

1. Os modelos partem do princípio de que os investimentos públicos “eliminarão” o investimento privado e são, por definição, menos produtivos do que os investimentos privados.

O que acontece com a economia se o governo federal gastar US$ 1 milhar de milhões? A pessoa normal diria que depende do que eles gastam, e como a política é projetada.

Não é assim na maioria dos modelos económicos. Eles assumem que qualquer gasto do governo terá menos retorno do que qualquer negócio privado a gastar esse mesmo dinheiro. Assumem sempre.

Mas isso não é tudo. Eles dizem que os gastos do governo ainda vêm com uma penalização. Isso automaticamente faz com que as empresas gastem menos, levando a um menor investimento geral. Sempre assim.

Essencialmente, os modelos assumem que cada aumento no investimento público é anulado pela combinação de menores retornos e redução no investimento privado. Levando esse pressuposto ao seu extremo lógico, não há quase nada em que o governo deva investir. Ainda bem que Eisenhower assumiu o cargo antes que o estilo neoliberal de pensamento dominasse Washington, ou em vez de rodovias interestaduais ainda teríamos estradas de terra batida.

Estes pressupostos não estão nem bem escondidas nos modelos, mas diretamente na matemática. Como o economista Mark Paul observou, o modelo do Gabinete do Orçamento do Congresso (CBO) assume que todos os investimentos públicos têm uma produtividade exatamente igual a metade da produtividade dos investimentos privados. Os investimentos públicos gera um retorno de 5% ao ano, enquanto a mesma quantidade de investimento privado gera um retorno de 10%.

A primeira indicação de que algo está errado aqui pode ser percebida em todos esses números redondos: uma declaração constante de que o gasto público é 50% menos bom do que o gasto privado. Precisamente 50 por cento. Todas as vezes. Obviamente, este não é o resultado de uma análise de dados rigorosa. É simplesmente recapitular o velho mito de que o governo é, por definição, um desperdício, enquanto o investimento privado é sempre maximizado para a maior eficiência e retorno.

E isto não contém um mínimo de verdade, sequer. Pense em cuidados de saúde. O governo dos E.U. investe anualmente milhares de milhões na pesquisa básica e é responsável por financiar uma escala incrível das inovações, da tecnologia desde as vacinas tipo mRNA aos antibióticos novos. Toda a gente beneficia dessa pesquisa financiada com recursos públicos, gerando mais inovações e benefícios – muitos deles realizados pelo setor privado.

Em seguida, considere como a BigPharma investe os seus lucros: com enormes orçamentos de marketing, aplicação de uma politica predatória de patentes, uma despesa de US $ 577 milhares de milhões em recompras de ações ao longo de cinco anos (mais do que foi gasto em pesquisa e desenvolvimento) e um aumento de 14% na remuneração dos altos executivos. É uma bonança para essas grandes empresas, mas é o oposto de eficiência, exceto no mundo fictício construído por modelos económicos.

A questão não é de que os gastos do governo gerarem sempre mais retornos do que os gastos privados, apenas que o pressuposto constante de que é sempre pior em 50% simplesmente não condiz com a realidade. Devemos avaliar a política pelo que se propõe fazer, não por quem se propõe a fazê-lo.

Uma fábrica de semicondutores a ser construída no Arizona. A Lei CHIPS and Science já gerou 200 mil milhões de dólares em investimento privado. KYODO

 

A outra ideia, que o investimento público leva a um menor investimento privado, é geralmente expressa com um termo extravagante: “provoca a evicção” do investimento privado. É um princípio fundamental da economia neoliberal, e a maioria dos modelos simplesmente assumem que é verdade. O Penn Wharton Budget Model, por exemplo, sustenta explicitamente que os investimentos do governo reduzem a quantidade de investimento de capital privado. Como o modelo também assume que o investimento privado é “produtivo” e o gasto público é “improdutivo”, isso automaticamente resulta em que qualquer investimento do governo em larga escala causa menor crescimento e menores retornos. Isso enforma as análises do seu modelo orçamental de que a lei de infraestrutura bipartidária de alguma forma levará a um declínio de 0,2% no capital privado produtivo, e que a proposta de US$ 2 milhões de milhões do Build Back Better reduziria o PIB em 0,2%, e que o pacote de alívio da COVID também reduziria o PIB num montante semelhante.

O State Tax Analysis Modeling Program (STAMP) do Beacon Hill Institute toma uma decisão ainda mais estranha, modelizando o governo simplesmente como uma entidade de passagem que não causa “nenhum efeito indireto ou induzido”.

Felizmente, o Presidente Biden rejeita este disparate. Uma plataforma central da abordagem intermediária de Biden é atrair investimento privado em indústrias chave, através do uso estratégico de dólares públicos. Como a Secretária de Comércio Gina Raimondo explicou sobre a implementação da Lei CHIPS e Ciência, “Se fizermos o nosso trabalho corretamente, os 50 mil milhões de dólares de investimento público aumentarão em 500 mil milhões de dólares ou mais de investimento privado de financiamento adicional para manufatura, pesquisa e desenvolvimento, para startups” (itálico adicionado).

Essa estratégia já está a funcionar. De acordo com a Semiconductor Industry Association, a Lei CHIPS e Science já gerou 200 mil milhões de dólares em investimento privado. A Iniciativa Climate Smart Buildings, criada pela Lei de Redução da Inflação, deve atrair mais de 8 mil milhões de dólares em investimentos do setor privado para modernizar edifícios federais. A administração de Biden alocou 2,8 mil milhões de dólares em fundos públicos para investimentos na fabricação de baterias para veículos elétricos, que já alavancaram 9 mil milhões de dólares em investimentos privados adicionais. A história é a mesma em toda a constelação de investimentos estratégicos intermediários da administração de Biden: os dólares públicos estão a atrair dólares privados, não a afastá-los, rejeitando totalmente os pressupostos do modelo no tribunal da realidade.

(continua)

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O autor: Nick Hanauer [1959 -] é um empresário e capitalista de risco com sede em Seattle e fundador da Civic Ventures, uma incubadora de políticas públicas. É licenciado em filosofia pela Universidade de Washington. (para mais info ver wikipedia aqui)

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