UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (618)

 

 

CIVILIDADE E BRIO

 

Há alguns dias, numa saída de sensibilização para um evento que se iria passar na “minha” freguesia, embora seja freguês da existente mesmo ao lado, deparei-me com duas pessoas que me confundiram, e aos meus acompanhantes, com pessoal afecto à Junta de Freguesia.

De imediato choveram as críticas ao “mau” funcionamento dos serviços de limpeza das ruas.

As ervas daninhas medravam por todo o lado, chegando a atingir bem mais de meio metro de altura em alguns sítios, e ninguém fazia nada. Era uma vergonha e não se podia admitir. E havia mais, os contentores de lixo cheiravam mal. E havia mais, folhas por todo o lado e ninguém as varria. Era uma pouca-vergonha! E a gente a pagar impostos para nada! E pareciam querer ir por ali fora, sem controlo algum nas suas, mais do que aceitáveis, queixas.

Com alguma paciência, os meus companheiros ensaiaram explicações. Em primeiro lugar que esses serviços estavam sob a alçada da Câmara e não da Junta, e depois que era muito difícil a esses serviços, principalmente no tempo quente, conseguirem ter as ruas, todas as ruas, impecavelmente limpas, asseadas e arranjadas.

As duas mulheres, empertigaram-se e retorquiram com as ideias que proliferam na nossa sociedade de pessoas exigentes: -Se pagamos impostos exigimos que façam o trabalho, e bem feito!

Nessa altura entendi que deveria intervir, e contei uma pequenina história.

– Lá na zona onde vivo, os lixeiros passam de madrugada e lavam os contentores de vez em quando. Os cantoneiros, ou melhor, o cantoneiro, passa ocasionalmente, limpa folhas, papeis e outros detritos que os passantes se “esquecem” de depositar nos cestos e caixotes do lixo que por lá há, e esvazia os cestos de papeis. Acresce que tem uma área muito grande para efectuar esse trabalho. Quanto ao limpar as ditas ervas que crescem sem controlo, não há quem, da parte da Câmara, o faça, a não ser “quando o Rei faz anos”.

– Dessa forma, alguns de nós, infelizmente poucos, que não gostamos de ver ervas crescidas junto a nossas casas, decidimos, a exemplo do que se pratica em algumas cidades evoluídas, limpar de vez em quando, as ervas que nas ruas junto aos passeios e nos passeios junto às casas de cada um de nós, crescem. E alguns lavam a sua parte dos passeios.

– É tudo uma questão de urbanidade e civismo.

E seguimos o nosso caminho, convencidos, pelo menos eu, de que a conversa tinha sido infrutífera.

Passaram-se oito dias e voltei a passar pelo mesmo sítio. Lembrei-me da conversa tida e olhei com atenção para as beiras do passeio, junto à casa e junto à rua. Tudo limpo em quase todos os centímetros da extensão do prédio. Nem mais um centímetro!

A civilidade e o brio tinham chegado ali, e estacionado.

Sorri de contentamento. Afinal parecia que tinha valido a pena a conversa tida.

Só ainda não tinham ultrapassado limites.

 

 

4 Comments

  1. Caro José Magalhães,

    Concordo em absoluto.
    Onde vivo reclamam com a limpeza e deixam lixo no elevador, nas escadas,…
    Felizmente os donos dos “cãezinhos” começaram a perceber que o jardim deve ficar limpo para as crianças poderem brincar. Foi preciso uma grande luta, quase que a termos de lhes esfregar na cara aquilo que os cães largavam.
    Continue com estas campanhas de civismo.

    Abraço,

    AB

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