ATÉ PARA SEMPRE FEIRA DO LIVRO DE LISBOA – por Luísa Lobão Moniz

 

E mais uma vez a tradicional Feira do Livro de Lisboa abriu as suas bonitas e alegres páginas para todos os amantes e curiosos de novas edições, de reedições ou meramente para passeantes que dão por bem empregue o tempo que lá passaram a ver as capas dos livros expostos nos escaparates e a saborearem o seu apetitoso gelado, nos dias de calor.

Vão devagar a falar ao telemóvel, param como para descansarem ou para se concentrarem na conversa, enquanto 

“O tempo cobre o chão de verde manto,

 Que já coberto foi de neve fria,”

Entre pavilhões e pavilhões que se estendiam entre a Praça do Marquês de Pombal até ao Jardim Amália que contempla uma enorme Bandeira Nacional, que há já algum tempo substitui uma velha e rasgada bandeira orgulhosamente içada por Pedro Santana Lopes. João Cutileiro esculpiu uma fonte demonstrando que a agitação da água é a origem do que quisermos e assim lembrar a Revolução de Abril de 1974. Foi muito criticado por razões várias, mas a verdade é que devolveu aos cidadãos um espaço que no tempo da ditadura significava Poder. 

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

 Muda-se o ser, muda-se a confiança:

 Todo o mundo é composto de mudança,

 Tomando sempre novas qualidades.”

Foram apresentações de novos livros, de novos autores, de novos espaços. A Feira estava alegre e bonita cheia de pessoas de todas as idades. A maior alegria era constatar a proliferação de livros para crianças e para adolescentes, lado a lado com expositores de ensaios, poesia, enfim, livros para adultos.

Não se podia deixar de ver a quantidade de crianças que corriam e puxavam pelas mãos dos pais para irem ver um livro que já conheciam através da escola, ou que a capa lhes tinha atraída a atenção. Que bonito que foi!

Olhando para a parte central da Parque Eduardo VII não eram poucas as famílias que desfrutavam da relva bem verdinha e bem tratada.

Pais jovens sentados na relva folheavam os seus livros acabados de comprar enquanto os seus pequenos filhos brincavam, com outras crianças, com alegria, com gritos e correrias, em total segurança, alimentada por uma calma inigualável.

Sentia-se no ar o cheirinho a pipocas e a livros…os muitos cães, que acompanhavam os seus donos, corriam desorientados atrás uns dos outros, ladravam conversas que os humanos não percebiam.

Foi com satisfação, que pela primeira vez, ouvi, de vez enquanto, referirem-se livros para crianças e não livros infantis.

Na realidade os livros não são infantis nem adultos, são para crianças e quantas vezes também para adultos…

Poucos são já os professores formados nos anos da Revolução de Abril, que nas pesquisas que fizeram sobre Literatura “Infantil”, disciplina importante no curso de formação, comungaram desta ideia de substituir a palavra infantil, que define uma fase do desenvolvimento e crescimento humano, para criança, público a que se destina .

Questão importante? Não sei, eu sinto-a como tal. As palavras são para serem usadas o mais fielmente possível ao propósito a que se destinam.

“Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.”

Escritores, tradutores, ilustradores, editores que, por razões que todos conhecemos, já não vão à Feira, foram lembrados em conversas e em homenagens, enquanto outros davam autógrafos e dedicatórias nos seus mais recentes livros ou ainda davam entrevistas e eram fotografados para memória futura.

“E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.”

Por motivos afetivos e de justiça literária quero lembrar a homenagem que foi feita ao Homem e escritor, tradutor, ensaísta, poeta, dramaturgo, professor na Universidade Nova de Lisboa, Nuno Júdice que para sempre ficará na História da Literatura Portuguesa, e no enorme cartaz que servia de entrada na Feira do Livro de 2024 de Lisboa.

Maria Manuel Viana, amiga, escritora, tradutora, defensora dos Direitos das Mulheres e das Crianças foi também homenageada, de uma forma singela, mas muito emocionante, na Editora Teodolito.

Muito mais haveria a dizer sobre esta 94ª Feira do Livro de Lisboa, mas basta-me dizer até sempre Feira, festa, alegria, crianças e todos os que ainda não conhecem o mundo fantástico dos Livros…

 Nos 500 Anos do nascimento de Camões.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

 

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