
A Secreta Vida das Palavras à Chuva porque era Natal
Era uma vez – apetece-me assim começar porque há nest’ A Secreta Vida das Palavras à Chuva, de José Fernando Magalhães uma história, desde logo enunciada no título, que merece ser discutida em dois tópicos só aparentemente desviantes: o que diz; como diz.
O que diz? Pois diz do quotidiano, do sonho e da realidade que se fundem e confundem, da viagem da vida pelos verdadeiros topoi, sobretudo da Foz do Douro – lugar onde e de onde e também para onde, que é afinal o glocal, aquela realidade multidimensional definida por Roland Robertson integradora do global e do local numa perspectiva homológica. Mas, a esta interacção que parece simular uma geografia física, alia-se a uma outra bem mais íntima que constrói e desconstrói um percurso existencial como o poeta afirma: “Nunca pertenço totalmente / Ao local em que me encontro / […] / Encontro-me inteiramente / No local a que pertenço / […] / E continuo no caminho / À procura de mim, […]” (p. 28).
Destarte o real quotidiano autêntico e actual – temas como pandemia, guerra, corrupção – surge como compromisso de identidade e cidadania activa conluiando-se, por vezes, através de um cepticismo raro com problemáticas como a finitude e a morte, a solidão procurada mas controlada, o refúgio no sonho e também na família, seu axis mundi. O mar circunda de azul acolhendo a metamorfose da natureza no ser amado. Da utopia do bem, de amores e desamores rezam textos como “Tropeço na tua ternura” (p. 131), que ancora uma matriz autobiográfica discreta mas persistente, sentida, ecuménica também.
Interessantemente, os dois primeiros poemas – “Sejam bem-vindos” (p. 7) e “Aceitaste o meu convite” (pp. 8-9), assumem um carácter pedagógico de apelo à leitura. Em jeito de prefácio algo irreverente, convida à entrada impondo regras: “[…] / Esqueçam os telemóveis, / Os tabletes, os aipódes e os aipédes / Não liguem as internetes […]” (p. 7). Regras aceites, são bem vindos todos os que não são insensíveis à palavra poética, nunca enjeitando uma sibilina história de vida – “Vais ouvir-me falar de mim, da vida, de tudo e de nada” (p. 8)
Este aparente prefácio prepara a abertura a uma preocupação premente e quase obsessiva na poética de José Fernando Magalhães. Refiro-me ao texto enquanto objeto de si próprio. Aquilo a que Genette chamava transtextualidade, os pressupostos teóricos de Bakhtin, Volóchinov ou Medviédev vieram intitular metapoesia. De facto, há, ao longo da obra do autor, a consciência crítica da estreita cumplicidade entre a palavra e o mundo e inquieta, o confronto que estabelece com o real numa penitente autorreflexibilidade. Estas reflexões sobre o fazer e ler o texto poético convertem-se num projecto de demanda da palavra certa e exata recorrente em textos como “Desenho um mapa” (p. 54) ou “Se me acontece” (p. 68):
Se me acontece escrever
Pensamentos, ideias, palavras movediças e soltas
E com eles formar versos, e mais tarde um poema
Só eles, os versos, sabem o que me querem dizer,
Que caminho me indicam, que voltas
Que letras devem sair pela tinta da caneta.
E, se me acontece vestir como minhas
As palavras dos pensamentos que acabo por escrever
Os escritos que me saem, as palavras de qualquer tema,
As vozes que por mim passeiam sozinhas
Como num sistema de vasos comunicantes, ou outro qualquer
Tornam-se parte de mim,
Cozinhadas em lume brando e conservadas em sal-gema.
A obra termina com o poema “Da minha língua vê-se o mar” (p. 149) de explícita feição intertextual com afirmações de Vergílio Ferreira, traduzido em galego (p. 151), mirandês (p. 150), catalão (p. 153), castelhano (p. 152) e francês (p. 154). Não fora a última tradução e eu veria – não sei se vejo – uma clara alusão ao iberismo ou à antiga hispânia. Assim, cautamente, apenas evoco os itálicos provenientes dos indo-europeus e as línguas românicas ou novilatinas de que José Fernando Magalhães é intransigente guardião. Um hino à pureza da língua portuguesa ou à sua postura perante a vida. Um telurismo ab imo, neste caso linguístico.
Como o diz? Pois num linguajar marcadamente nortenho, num tom narrativo sem deixar de ser lírico, que convoca o intimismo através da retórica do eu. A vivacidade advém de uma poesia tonal onde o verso maioritariamente livre cede aqui e além à rima, sobretudo emparelhada, alcançando a harmonia rítmica.
O recurso à metáfora ocupa um lugar preferencial por ser o culminar de todo um universo poético assente em oposições paradigmáticas; implica movimento, transposição, mudança de sentido, projecção; ultrapassa o âmbito restrito da comparação e converte‑se num meio de ignição, precisamente porque representa a primeira diligência, ainda cauta, viabilizadora da edificação de uma matriz do mundo. Não sendo para José Fernando Magalhães um fenómeno puramente linguístico, um desvio à norma, é, sobretudo, uma atitude mental, porque os mecanismos que permitem explicar o seu funcionamento são de natureza psicológica, prendendo-se com os processos mediante os quais apreende e organiza o seu conhecimento da realidade, anunciada no título da obra: A secreta vida das palavras à chuva.
Percorrendo o seu continuum, encontrei a síntese perfeita do conto que começou “Era uma vez” em “Tem dias em que me apetece” (pp. 34-35) onde solidão, amores e desamores, utopia do bem, cansaço, poder da palavra, autorreflexibilidade convivem em euritmia fraterna.
Tem dias e são muitos em que acontece a exposição cauta de uma intimidade sensível através da palavra poética. E porque tem dias, e porque tudo se passou no Natal de 2023, lembro que “O menino Jesus veio ver-[nos] nesse dia” (p.48) aqui junto a “O mar da Foz” (p. 22) e disse “De um futuro melhor e uma vida calma e transparente” (p. 48).
Isabel Ponce de Leão
in “As Artes Entre As Letras”
26 de Junho de 2024



Parabéns! Fantástico!