ERA UMA VEZ UMA CRIANÇA por Luísa Lobão Moniz

E porque o espírito da Feira do livro ainda pouco se afastou da memória do tempo volto não à Feira, mas à importância dos livros para a Criança.

Em tempos que já lá vão, quando os animais falavam e as crianças não tinham escolas e não tinham reconhecidas as suas especificidades, quando as crianças eram adultos em miniatura e serviam para trabalhar, como ditavam as sociedades da época, não se conhecem contos contados para crianças.

Diz-se que pais e mães não queriam estabelecer laços emocionais, sentimentos ou afetos com os filhos, pois a esperança de vida era baixa, havia muita mortalidade entre as crianças.

Após o reconhecimento social de que a Criança não era um adulto em miniatura, mas sim um ser humano diferente do adulto pelas suas especificidades, as famílias ficaram mais atentas à Criança.

Em Inglaterra, por volta do século XVII, começaram a aparecer, muito escassamente, algumas histórias para a Criança. O livro A Litlle Pretty Pocket-Book foi o primeiro escrito para a Criança.

E em Portugal?

No início do século XIX começaram a aparecer os primeiros livros para A Criança. Os livros eram essencialmente traduções de histórias francesas.

Sabe-se, hoje, que o desenvolvimento da Criança, o seu crescimento em termos das regras morais e sociais se baseiam também nos contos e histórias, porque a Criança aprende a descentra-se, ou seja, a subtrair algo ao seu comportamento egocêntrico aproximando-se assim da realidade do outro.

Adolfo Coelho, filólogo/antropólogo, organizou a primeira recolha de contos populares portugueses, a partir da tradição oral, intitulada Os Contos Populares Portugueses, em 1879.

Em 1877, Guerra Junqueiro publicou Contos para a Infância, e diz: É um ramo de florinhas cândidas, que as mães à noite, sem temor, deixarão na cabeceira dos berços.

Em 1883, Antero de Quental publicou Tesouro Poético da Infância, e escreve convencido de que há no espírito das crianças tendências poéticas e uma verdadeira necessidade de ideal, que convém auxiliar, satisfazer, como elementos preciosos para a educação, isto é, para a formação do carácter moral, coligi para aqui

As fadas… eu creio nelas!

Maria Amália Vaz de Carvalho organizou uma coletânea intitulada Contos para os Nossos Filhos adaptados de Grimm e Anderson onde se pode ler: contos que elas entendam, que as interessem, que as façam rir e as façam chorar.

Os contos tradicionais não escondem nem a violência nem a vida boa.

A violência que os adultos exercem sobre a Criança aparece nos contos de fadas dando-nos uma representação do poder dos adultos face à fragilidade da Criança.

A vida precisa de sentido e não se confina só às relações interpessoais vividas no seio da família, da rua ou da escola enquanto a Criança cresce.

Dentro dela muitas ansiedades ocupam o seu dia-a-dia, a Criança depara-se constantemente com novas situações às quais tem de se adaptar através do processo de assimilação/acomodação piagetiano, e da escolha de novas atitudes perante situações que pressionam o seu eu.

Assim tem sido ao longo dos tempos, sendo que o tempo tem aumentado, cada vez mais, medos à Criança que se quer feliz e com um desenvolvimento emocional capaz de as fazer rejeitar ou aceitar o que se passa em casa, na rua, na escola, na comunidade onde vive.

A Criança tem medo de que os adultos saibam que ela não gosta do irmão mais novo, tem medo de que a mãe não regresse mais a casa, tem medo do abandono, tem medo de que não gostem dela, tem medo da violência, tem medo de ser culpada…

É difícil ser-se Criança!

Os contos de fadas têm o condão, porque são o espelho das suas vidas afetivas, de a fazer ouvir o indizível.

A Criança entende que o pai abandone os filhos na floresta, pois não os pode sustentar, (Hensel e Gretel), entende o feitiço da fada para amenizar a maldição da fada má de fazer dormir, durante cem anos, a princesa até ao beijo mágico, mas sofrido do príncipe. (A Bela Adormecida).

No século XXI, outras preocupações são abordadas nos livros para a Criança. A guerra, o ambiente, a interculturalidade, as questões de género, a alimentação, a saúde, as violências, a cidadania, a escola, a liberdade…

O universo da Criança é do tamanho do mundo, mas a Humanidade foi favorecendo os poderosos e esquecendo-se dos mais vulneráveis, entre os quais se encontra a Criança cigana.

Os Contos Tradicionais Portuguese são autênticos cantos de imaginação, de criatividade de um povo que quis e quer deixar ficar, para memória futura, o maravilhoso, o fantástico, a sagacidade, a crítica e a reflexão sobre a vida.

Contos Tradicionais Portugueses Escolhidos e comentados por Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, com um desenho de Maria Keil, escolhidos de obras de Teófilo Braga, Adolfo Coelho, José Leite de Vasconcelos, A. Tomás Pires, Consiglieri Pedroso, Ataíde Oliveira.

Isabel David Cardigos e Paulo Jorge Correia (2 volumes), Consiglieri Pedroso, Viale Moutinho, Teófilo Braga, Alexandre Herculano, José Leite de Vasconcelos e….um mundo a descobrir.

O universo da Criança é do tamanho do mundo, mas a Humanidade foi favorecendo os poderosos e esquecendo-se dos mais vulneráveis, entre os quais se encontra a Criança cigana.

Aqui vai um conto cigano:

A VINGANÇA DO SAPO

Isto aconteceu antes de haver pessoas e de elas dominarem o mundo.

Nesse tempo, só as árvores eram imóveis. Todas as outras coisas vivas se moviam livremente. Até as flores iam visitar os seus amigos: coelhos, esquilos, ouriços, pássaros, insetos, tudo quanto caminha, rasteja ou voa. Os peixes juntavam-se-lhes por vezes, porque podiam sair da água. Todos podiam falar e compreender-se uns aos outros.

Uma noite, numa clareira, havia uma grande festa: as pessoas contavam histórias e os pássaros davam um concerto seguido de danças. O esquilo dançou com a pervinca, os coelhos com os cravos. Cada flor tinha o seu parceiro. Até a aranha pulava com a libélula. Alegria geral.

O sapo, que não tinha sido convidado por ser demasiado feio, mesmo assim foi. Voltou-se para uma tulipa, mas ela rejeitou-o.

Começou toda a gente a fazer pouco dele e puseram-se em círculo à volta do pobre sapo, que tremia de raiva.

_ és medonho! és medonho! _ piou um mocho.

Animais e flores viraram-se para ele apontando o dedo e repetiam:

_ és medonho! és medonho!

Então o sapo perdeu as estribeiras.

_ Sois horríveis – gritou – hei-de vingar-me de vós!

Inchou, inchou, inchou, de tal maneira que o veneno saltou da sua pele e esparrinhou todos em redor.

O peixe refugiou-se na água, os pássaros dispersaram-se pelos ramos e quando as flores tentaram esconder-se enterrando-se no chão, murcharam.

E desde aquela noite nada foi como antes: os animais e as flores deixaram de saber falar e já não se compreendiam. As flores não podiam mexer-se do seu sítio. Quanto aos peixes, morriam assim que alguém os tirava da água.

Esta é a história do Cigano que talvez um dia se vingue do escárnio do gadjo.

Conto publicado no livro Contos populares ciganos de Diane Tong, Editorial Teorema, 1998.

Este conto, anónimo, foi publicado num livro para crianças francês e tem como intenção dar a conhecer o ponto de vista cigano.

Termina com um desejo de vingança cigana contra o racismo da sociedade dominante, os não ciganos.

Este conto cigano traz-nos muitos temas de reflexão: a exclusão social, o porquê de expectativas negativas do outro, a revolta como tentativa de sobrevivência, a coesão social, o coletivo e o individual…as diferenças…

 

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