OPORTO
este lugar era uma cidade de pessoas simples.
as pessoas simples tinham a voz deste lugar.
mas este lugar ficou um rio e dez mil hotéis.
tropas de mil exércitos desembarcaram um estrondo
de costumes mal traduzidos.
as pessoas simples fugiram empurradas pelas bandeiras
que chegaram e chegam em contentores de baixo custo.
as casas simples deste lugar vestiram-se de nomes estranhos
que alternam com outros nomes estranhos.
este lugar era uma cidade de pessoas simples.
as pessoas simples eram daqui. estavam aqui.
as pessoas simples diziam coisas conhecidas
e sabiam os rostos dos dias com manhãs.
hoje
este lugar é uma salada que azeda em menus de fora.
os relógios fazem tuk tuk com pressas invasoras.
as tripas são menos famosas
do que as trips de bus e riquexó.
os guias são mais do que as mães
sabem todas as histórias e História deste lugar
e fazem smilles a torto e a direito.
com velocidade em part time
nasce um tvde por turista quadrado.
na baixa o turismo está em alta.
neste lugar vende-se o que é de graça.
há mamas por toda a parte num pasto tomado de assalto.
por um punhado de notas
fecham-se os olhos ao exagero que veio para ficar.
os senhores do estado com ganâncias numéricas
publicitam este lugar e ainda lhe chamam cidade.
mas nesta cidade já é difícil encontrar o Porto.
despejados ignorados envergonhados e silenciosos
os que são daqui escondem os seus quotidianos
entre as mudanças onde não cabem.
neste lugar
o sol a paz e as pessoas brandas
estão ao preço da chuva.
as pessoas simples foram-se daqui.
vão-se daqui.
este lugar está cheio de estar cheio
de ausências.
do Porto para Oporto
o equilíbrio é uma paisagem desligada
com as costuras a rebentar pelos olhos.
esta cidade é um fóssil a nascer depressa.


Poema interessante que, pela importância do tema, mereceria ser mais trabalhado. Em particular, há excesso de gente simples, como se o Porto ainda fosse uma aldeia.
Grato pelo seu comentário.
O Porto nunca foi uma aldeia nem me parece que, um dia, venha a ser.
As pessoas simples nunca são um excesso e também as há, ainda, nas cidades.
Cumprimentos,
Nelson Ferraz
Grato pelo seu comentário.
O Porto nunca foi uma aldeia nem me parece que, um dia, venha a ser.
As pessoas simples nunca são um excesso e também as há, ainda, nas cidades.
Cumprimentos,
Nelson Ferraz
O Porto, a nossa Cidade Invicta, é parte e berço do nome do Portugal que somos.
Poesia magnífica.
Parabéns.
Abraço,
SOL da Esteva
Assim é. Obrigado.