As sílabas marginais/oporto/de Nelson Ferraz

 

OPORTO

este lugar era uma cidade de pessoas simples.

as pessoas simples tinham a voz deste lugar.

mas este lugar ficou um rio e dez mil hotéis.

tropas de mil exércitos desembarcaram um estrondo

de costumes mal traduzidos.

as pessoas simples fugiram empurradas pelas bandeiras

que chegaram e chegam em contentores de baixo custo.

as casas simples deste lugar vestiram-se de nomes estranhos

que alternam com outros nomes estranhos.

este lugar era uma cidade de pessoas simples.

as pessoas simples eram daqui. estavam aqui.

as pessoas simples diziam coisas conhecidas

e sabiam os rostos dos dias com manhãs.

hoje

este lugar é uma salada que azeda em menus de fora.

os relógios fazem tuk tuk com pressas invasoras.

as tripas são menos famosas

do que as trips de bus e riquexó.

os guias são mais do que as mães

sabem todas as histórias e História deste lugar

e fazem smilles a torto e a direito.

com velocidade em part time

nasce um tvde por turista quadrado.

na baixa o turismo está em alta.

neste lugar vende-se o que é de graça.

há mamas por toda a parte num pasto tomado de assalto.

por um punhado de notas

fecham-se os olhos ao exagero que veio para ficar.

os senhores do estado com ganâncias numéricas

publicitam este lugar e ainda lhe chamam cidade.

mas nesta cidade já é difícil encontrar o Porto.

despejados ignorados envergonhados e silenciosos

os que são daqui escondem os seus quotidianos

entre as mudanças onde não cabem.

neste lugar

o sol a paz e as pessoas brandas

estão ao preço da chuva.

as pessoas simples foram-se daqui.

vão-se daqui.

este lugar está cheio de estar cheio

de ausências.

do Porto para Oporto

o equilíbrio é uma paisagem desligada

com as costuras a rebentar pelos olhos.

esta cidade é um fóssil a nascer depressa.

 

5 Comments

  1. Poema interessante que, pela importância do tema, mereceria ser mais trabalhado. Em particular, há excesso de gente simples, como se o Porto ainda fosse uma aldeia.

    1. Grato pelo seu comentário.

      O Porto nunca foi uma aldeia nem me parece que, um dia, venha a ser.
      As pessoas simples nunca são um excesso e também as há, ainda, nas cidades.

      Cumprimentos,
      Nelson Ferraz

  2. Grato pelo seu comentário.

    O Porto nunca foi uma aldeia nem me parece que, um dia, venha a ser.
    As pessoas simples nunca são um excesso e também as há, ainda, nas cidades.

    Cumprimentos,
    Nelson Ferraz

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