Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — França: Texto 3

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Apesar das eleições do Reino Unido de hoje, em que se poderia fazer circular um texto sobre este país, decidimos continuar a série país por país. E o primeiro país que se tomou para iniciar a série foi a França, por três razões:

  1. Porque nos permite um alongar sobre o que é a esquerda hoje, como é que ela se comporta e como é que ela chegou a este triste estado. Exemplo; o agente criador do macronismo e da destruição do PSF, François Hollande, faz parte da Nova Frente Popular (dita de esquerda)!!!
  2. Porque, diferentemente da Inglaterra, a França depende e em muito do BCE, dito o Banco Central independente. Mas será que politicamente é mesmo independente ?
  3. Porque existem dois casos a explicar: por um lado, a importância do partido de Le Pen, Rassemblement National, por outro, a existência do caldeirão que é a Nova Frente Popular, reagrupando a chamada Esquerda.

O texto de hoje, de François Valentin, afirma que apesar dos riscos de instabilidade em França “o RN já não irá atuar como um partido radical, nem é visto como tal pela maioria do eleitorado. O partido RN transformou-se numa criatura oportunista de pegar tudo: no meio de toda a histeria que sopra de fora da França, Le Pen e Bardella parecem estar prontos para fazer todo e qualquer compromisso ideológico que seja necessário fazer”.

Júlio Mota

11 de julho de 2024


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

França – Texto 3: Como o Agrupamento Nacional conquistou o centro

A desintoxicação do Partido de Le Pen está completa

Por François Valentin

Publicado por  em 1 de Julho de 2024 (original aqui)

 

             Crédito: FRANCOIS LO PRESTI/AFP via Getty

 

Tem sido um tempo longo para chegar até aqui, mas depois de um resultado triunfante nas eleições europeias, e, em seguida, um resultado tão forte na primeira volta das eleições parlamentares francesas, parece que o Agrupamento Nacional [RN], o partido de Le Pen, está a avançar no quadro da violenta decisão de Emmanuel Macron de convocar eleições antecipadas.

O atual líder do RN, Jordan Bardella, poderia até ser designado como o mais jovem primeiro-ministro da história francesa. Se isso acontecer, representaria uma das mais emblemáticas mudanças de destino para um movimento político na Europa. Quando a Frente Nacional foi fundada em 1972 por Jean-Marie Le Pen, era o lar de um grupo eclético de colaboracionistas, resistentes, ex-poujadistas e nostálgicos da “Argélia francesa”. Durante os anos 80, o partido de extrema-direita tornou-se o espantalho da política francesa, uma tóxica terra eleitoral de ninguém tornada intocável pelo gosto de Le Pen pelo antissemitismo. Quando chegou à segunda volta nas Presidenciais em 2002, foi visto como uma catástrofe para a nação, mas Le Pen pai e a sua marca radioativa nunca esteve em posição de exercer o poder (ele perdeu 82-18 na segunda volta).

Embora um legado tão venenoso não possa ser completamente descartado, o Partido de hoje – uma fera alimentada por Marine, filha de Jean-Marie – deixou de ser um grupo radical à margem da política francesa. Pelo contrário, este Partido é agora visto como um partido oportunista abrangente, cada vez mais no centro face às margens políticas em França.

Le Pen passou 15 anos a “desintoxicar” o seu partido, limpando-o dos seus membros mais extremos, mudando o seu nome e até mesmo criticando fortemente o seu pai neste processo. Hoje, uns surpreendentes 92% dos judeus acreditam que o La France Insoumise de esquerda de Jean-Luc Mélenchon contribui mais para o aumento do antissemitismo, em comparação com apenas 49% para o RN. Mas os ganhos são duplos: eleição após eleição, o partido obteve ganhos constantes, chegando à segunda volta da eleição presidencial duas vezes. Com a cenoura tentadora do verdadeiro poder político, o partido decidiu eliminar quaisquer arestas agressivas remanescentes. O RN, como resultado, está a executar uma campanha que só pode ser descrita como sendo silenciosa.

Outrora, Marine Le Pen era a Marianne do Frexit, tornando-se a promessa central do RN em 2017. Desde então, no entanto, o partido tem evitado apresentar qualquer coisa que se pareça com eurocepticismo agressivo. Hoje, o seu modelo na Europa é Giorgia Meloni: a defensora italiana do nacionalismo dentro da UE, em vez do nacionalismo num só país.

Nas suas críticas à NATO, também, o RN também suavizou a sua posição, citando preocupações sobre a mensagem que enviaria aos aliados da França na Ucrânia. De facto, a guerra de Vladimir Putin parece ter vacinado o partido dos seus sinais demonstrativos anteriores de Putinofilia; a sua invasão veio poucos dias antes de Le Pen estar prestes a enviar um folheto presidencial com uma foto dela apertando as mãos de Putin. O RN pode não ser o maior apoiante  de Kiev, mas também não se opôs à maioria dos pacotes de ajuda da França nos últimos meses.

Na verdade, na maioria das questões económicas, o partido está a manter as suas ambições a um nível baixo e talvez mesmo a enfraquecê-las. Mais obviamente, o que deveria ter sido a medida emblemática – abandonar a reforma da Segurança Social de Macron que define a idade legal de passagem à reforma aos 64 anos – agora foi significativamente enfraquecida, ao ponto de apenas mudanças cosméticas serem discerníveis. Quanto à energia, entretanto, Le Pen comprometeu-se a deixar o mercado da UE, mas Bardella sufocou a proposta com letras miúdas. Ele quer reduzir o IVA sobre os preços da energia, mas deixou claro que isso está “pendente” de “negociações em Bruxelas”.

Mesmo quanto à imigração, a plataforma mais radical do RN, podemos ver o espírito de moderação a começar a ser infiltrado no seu programa. Na verdade, a questão só é classificada como a “terceira emergência” para Bardella, atrás do custo de vida e segurança. Uma vez impulsionado pelo seu compromisso de restringir o acesso a posições administrativas estratégicas para cidadãos de dupla nacionalidade e de retirar a cidadania de direito de nascimento, o RN suavizou a sua postura. Sobre a cidadania natural, quer que as pessoas nascidas na França de pais estrangeiros tenham que declarar o seu desejo de se tornar francês aos 18 anos -uma rutura radical da tradição francesa, mas não uma anomalia europeia, com muitos países da UE a implementarem regulamentos similares qualificados de jus soli. Quanto à restrição de posições estratégicas fundamentais para a dupla cidadania, ela já existe.

E quanto às pessoas que trabalham no Partido? Muito tem sido escrito sobre a aparência fotogénica de Bardella, mas grande parte da liderança do RN é simplesmente constituída por ex-direitistas anódinos e apresentáveis. Depois de obter 89 deputados eleitos para o parlamento em 2022, Le Pen instruiu-os a colocar gravata e a evitarem agir como agitadores marginais. Naturalmente, eles obedeceram e começaram a votar com tato tanto com a esquerda como com os macronistas em várias questões. No seu primeiro ano no cargo, os 89 deputados do RN apoiaram cerca de metade dos projetos de lei macronistas – em tudo, desde a ocupação selvagem até à energia nuclear – mas também apoiaram a esquerda em tentativas de censurar o governo.

Esta “estratégia de fato e gravata” tem pago dividendos significativos, especialmente como um contraponto do estilo agitprop indisciplinado adotado pelos seus homólogos da esquerda, que fez os Le Penistas parecer políticos sérios. O radicalismo e a ambição da plataforma “Frente Popular” da esquerda unida (um adicional de mais 150 mil milhões de euros em despesa pública até 2027) também ajudaram. Isso fez consideravelmente mais para assustar os mercados do que o risco de se ter como primeiro-ministro  Bardella e, por outro lado, fez com que a miscelânea desfocada de promessas do RN pareçam razoáveis.

E, fundamentalmente, como resultado, o eleitorado está a começar a tratar o RN como um partido normal, em contraste com a histórica “barragem republicana “, onde os eleitores de direita e esquerda beliscavam o nariz e votavam em qualquer um, exceto em Le Pen, na segunda volta. Mesmo os eleitores centristas, quando confrontados com um desfecho hipotético entre a Frente Popular e o RN, colocam estes dois partidos em pé de igualdade.

Mais geralmente, o interesse pelo RN, e por Bardella especificamente, tornou-se cada vez mais difundido: Bardella, com os seus 17 milhões de seguidores TikTok, é agora classificado como o segundo político mais popular na França (Édouard Philippe, o prefeito centrista de Le Havre é atualmente o primeiro). Como o investigador Mathieu Gallard, especialista em sondagens,  escreve, o RN agora tem a representação demográfica mais representativa de qualquer partido na França.

A ressalva, é claro, é que mesmo um RN não radical pode acabar por ser extremamente perturbador para a França. Afinal, embora o RN já não seja constituído de eurocépticos duros, eles também não são euroentusiastas. E é improvável que Le Pen e Bardella se verguem à ortodoxia da UE sem pelo menos dar a impressão de lutar. Na verdade, mesmo a plataforma mais moderada de Bardella poderia desencadear fogos de artifício em Bruxelas, particularmente sobre o orçamento da UE, e poderia ter implicações significativas da dívida, dado o espaço orçamental muito apertado da França.

E apesar de todas as aspirações de Le Pen de emular o melonismo, o RN, ao contrário de seu homólogo italiano, nunca participou numa coligação governamental, nem mesmo num nível regional considerável. Embora tenha havido alguma velocidade frenética no ano passado entre o RN e as elites empresariais e administrativas da França, o RN ainda não tem uma forte presença no establishment. Assim, uma transição política desta escala poderia ser muito difícil.

Mas para todos esses riscos, o RN já não irá atuar como um partido radical, nem é visto como tal pela maioria do eleitorado. O partido RN transformou-se numa criatura oportunista de pegar tudo: no meio de toda a histeria que sopra de fora da França, Le Pen e Bardella parecem estar prontos para fazer todo e qualquer compromisso ideológico que seja necessário fazer.

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O autor: François Valentin além de colaborar com Unherd, é fundador e co-apresentador do podcast Uncommon Decency e investigador Sénior do programa Onwards Social Fabric e editor de Hexagone Newsletter. Foi chefe de gabinete da campanha das legislativas de Benjamin Haddad (2022). É licenciado em Relações e assuntos internacionais pela A.Walsh School of Foreign Service da Universidade de Georgetown e mestre de Análise de Política Pública por Sciences Po.

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