A MAGIA DA POESIA por Luísa Lobão Moniz

Lacunas, de Nuno Júdice

Falta-me o voo das moscas enlouquecidas
do outono; falta-me também aquela osga,
na parede do verão, à espera de algum mosquito;
falta-me a água estagnada por onde passam
as louva-a-deus, louvando o podre
perfume que as alimenta; falta-me essa abelha
que passeia por entre botões de flor,
passeando a beleza das suas asas num paraíso
de folhas verdes; falta-me a luz incerta
nos olhos de um cão que desistiu
da vida; faltam-me vozes de crianças, na rua,
ao saírem da escola;
falta-me esse ninho

de andorinha de onde saem pequenas cabeças
para que a mãe as alimente; faltam os passos
que me diziam quem estava para chegar;
falta-me um carro de bombeiros para
apagar o incêndio de tróia; falta-me esse
comboio a vapor das férias de infância;
e falta-me, agora, e apenas, um verso

para acabar este poema.                                    

Nuno Júdice, Revista Acanto, 2021

( Sublinhado meu)

Nuno Júdice não precisa que eu fale da sua biografia ou bibliografia nem dos seus prémios, não por ser de mais, mas não me compete tão complexa tarefa.

Mas, eu preciso do meu amigo Nuno, que para além do seu exemplo como poeta, como escritor de ficção, de ensaio, teatro, crónicas e ainda diretor de várias revistas, de cidadão atento à poesia e ao romance que iam sendo publicados em castelhano, francês, inglês…mas eu preciso do meu amigo cidadão que sempre lutou pela Liberdade tendo como arma as palavras inteiras ou partidas, em cima da mesa ou no chão, mas que nunca nenhuma ficou sozinha e abandonada.

Quando se fala de Nuno Júdice raramente, ou nunca se fala na sua relação poética com as crianças e adolescentes.

O Nuno perante um convite para ir a uma escola do 1º ciclo em Chelas, prontamente, com aquele sorriso consensual disse SIM. Ele sabia que se tratava de uma turma com meninos e meninas sem infância, com um pé já na marginalidade, ou até já com os dois, meninos e meninas com uma capacidade de leitura e de escrita muito hesitantes, para as suas idades (10- 14 anos).

Muitas dessas crianças eram de diferentes origens culturais. A maior parte, se não todas, não tinha livros em casa, alguns tinham jornais desportivos. E, outros, porque os livros não pertenciam à sua cultura.

Quando se disse a estas crianças que o poeta Nuno Júdice vinha ler poemas, escritos por ele, e conversar sobre poesia.

Nuno Júdice, não sei quem é!

O quê um poeta como os do livro de leitura?!

E chegou o dia do poeta desconhecido aparecer na sala de aula, calmamente, com um brilhozinho nos olhos. Nunca se soube o que estava a pensar ao olhar para a professora nem o que pensaram os meninos e as meninas que olharam para ele com um ar desconfiado.

Afinal o que vem cá fazer?

Algumas crianças sentaram-se nas mesas, o mais longe possível, mas outros sentaram-se ao seu lado para ouvir melhor.

Mais tarde disseram que tiveram medo de falar porque se calhar ele não ia entender, ele era poeta.

O silêncio abraçado à curiosidade era total.

A voz do poeta ouvia-se, via-se, sentia-se…

Não raras vezes foi interrompido porque não concordavam com o que ele tinha escrito.

Como faz um poema? Pensa, não é?

E o poeta recomeçava a leitura depois de explicar que a poesia não era só sobre aquilo que nós vemos. O poeta pode criar situações mágicas que encantavam os seus leitores. Elas concordavam, mas quando a pedra batia no vidro e este não se partia, lá vinha mais uma interrupção “toda a gente sabe que as pedras partem os vidros quando são atiradas”. E mais uma vez o Nuno, calmo e divertido, recomeçava a leitura do poema até que não houve mais interrupções, afinal o poeta podia brincar com as palavras.

“A poesia era fazer e criar” (Nuno Júdice, in As máscaras do poema, 1998).

Quando a poesia tratava de situações ou palavras mágicas, as crianças falavam das suas experiência com o seu nível de desenvolvimento cognitivo, e do contexto em que viviam.

A poesia perdura pela memória, a poesia, como arma de resistência, coloca a memória no centro da sua atenção contra a massificação e materialismo.

Em Lacunas Nuno Júdice diz o que lhe falta, reportando-se à sua infância quando as crianças, na rua, saíam da escola… vem-lhe à memória, certamente, o caminho que o levava à escola.

Nuno Júdice, Revista Acanto , 2021

O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

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