Espuma dos dias — Uma pequena nota de quem ainda continua em férias, uma regalia que me é conferida pelos meus 81 anos de idade .  Por Júlio Marques Mota

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Uma pequena nota de quem ainda continua em férias, uma regalia que me é conferida pelos meus 81 anos de idade

Desta estadia relato-vos apenas alguns acontecimentos do meu quotidiano vivido em Faro.

 Por Júlio Marques Mota

Faro, em 31 de Agosto de 2024

 

  1. Grau Zero no imaginário popular

Estou na caixa do Pingo Doce e alguém me telefona. Procuro o telemóvel tateando na minha carteira a tiracolo e não o sinto. Rebusco a carteira e não o vejo. Diz-me uma senhora que está atrás de mim e que sobre a minha carteira aberta tem melhor visibilidade do que eu: Eu estou a vê-lo pela luz que dá. Posso tirar-lho? Pode, disse eu meio espantado com aquela pergunta. Pode, pode, repeti. Ela meteu a mão na minha carteira e, radiante, deu-me o telemóvel. Recebi-o, olhei para a senhora, uma senhora bem vestida, elegante até, na casa dos 70-75 anos, e agradeci.

A partir daqui travou-se um curto diálogo, um diálogo bem curioso. Diz-me o seguinte: qualquer dia temos que levar muito mais comida do que a que levamos agora.

Porquê, questiono.

Bem, sabe, o Almirante Gouveia e Melo bem nos avisou: os russos andam por aí a espiar-nos. Qualquer dia podem-nos atacar. E então precisamos de reservas de comida em casa. Isto foi dito com um ar muito sério.

Oh, minha senhora, deixe-se disso. O Almirante fez um bom trabalho quando se deu a história da vacinação da população portuguesa contra o Covid. Depois disso tratou da sua vidinha e da sua vidinha estava a necessidade de fazer a campanha de que podem vir aí os russos. E não se esqueça do barco que ele dizia que não estava avariado e que se confirmou que estava avariado. Lembra-se?

Como é que sabe que estava avariado?

Porque depois de atacar os marinheiros que se recusaram a navegar nesse barco mandou avançar o barco que depois parou porque não estava em condições de navegar. E a campanha resultou e, de tal modo, que até se falou dele para candidato à Presidência da República. Lembre-se disso, respondi. Paguei e saí. Seguiu-se na caixa a senhora que “encontrou” o meu telemóvel. Saio, olho para trás para voltar a despedir-me dela e vejo-a direita com o olhar fixo na minha pessoa, com um ar de espantada. Vêm aí os russos, temos de armazenar comida, é o que fiquei a saber quanto aos fantasmas que ocupam a cabeça daquela elegante pessoa de idade mental talvez avançada. Curiosamente, a frase dita corresponde exatamente ao título de um filme de sucesso realizado por Norman Jewison que foi cartaz em Portugal. Possivelmente as afirmações do Almirante tê-la-ão feito recordar este filme. Se o viu ou não é aqui indiferente. Este é o resultado da campanha de desinformação orquestrada pelos media. Vêm aí os russos, é a imagem criada no imaginário de muita gente crente nas parangonas dos media portugueses!

 

  1. Grau Zero na relação entre gerações diferentes

Está calor, sento-me num jardim à sombra de uma árvore a ler o Público. À minha frente está uma senhora de idade, na casa dos 70-75 mas, ao contrário do caso anterior, era uma mulher fisicamente consumida pelo tempo. Por outras palavras, era claramente uma camponesa. Com ela estava uma jovem na casa dos 12-15 anos que lhe diz: avó, enquanto descansas vou dar uma volta. Bem dito, bem feito. Foi dar uma volta. Cerca de 10-15 minutos depois voltou. Mas a avó, muito cansada, não estava com vontade de se levantar. Estava cansada, talvez cansada até de muita coisa. A criança diz-lhe avó vamos embora. A avó diz-lhe que espere mais um pouco. Ao ouvir esta resposta, a criança diz-lhe: avó, está muito calor, se não queres ir já embora, dá-me dinheiro para comprar um gelado. Ouviu-se um rotundo não, agressivo, seco.

Aqui meto-me eu ao barulho e digo: está calor, pague lá o gelado à sua neta. Está tanto calor, a gelataria está ali em frente e o gelado não é caro.

A avó olha-me com um olhar furibundo e diz: se acha que é assim, porque é que não lho paga você?

Muito claramente fiquei surpreendido com esta reação e respondi: sinceramente, pagaria se fosse minha neta. Não o é, e não tenho o direito de me substituir nessa função aos avós das outras crianças. Ela é sua neta, não minha.

Resmungou alguns minutos, levantou-se e saiu acompanhada pela criança, passeando pela praça Alexandre Herculano à sombra das árvores. Minutos depois e um pouco distante de mim vejo-a a contar as moedas e a dar à miúda o dinheiro para ir comprar o gelado. Foi o que ela fez. Deixei-me rir.

Um acontecimento insignificante? Não, não o é. Duas gerações separam esta avó da sua neta, a dela e a do pai e da mãe da criança. Duas gerações de diferença que são em termos de hábitos de vida uma eternidade. A avó, uma mulher já de idade criada e vivida no campo, não tem e nunca terá os hábitos de consumo da geração de agora. Para ela, o gelado soa a um luxo e onde o dinheiro não abunda não são permitidos luxos. Pelo lado da criança, o gelado entrou na vida corrente como um hábito, donde como uma necessidade e em dia de muito calor isso é muito mais óbvio ainda.

O homem é também o que são as suas circunstâncias e as circunstâncias de cada uma destas pessoas tem muito pouco em comum. Naturalmente assim. Esta avó claramente nasceu, cresceu, viveu e ainda vive sob o reino da necessidade. A neta vive, como a maioria das crianças de hoje no reino das possibilidades de satisfação dos seus desejos. As duas grandes diferenças entre esta avó e eu próprio, que nasci, cresci e vivi no mesmo reino da necessidade que ela, são as seguintes:

a) Ela ainda vive no reino da necessidade. Eu vivi nesse mesmo reino durante décadas. Nessas décadas fui evoluindo e hoje vivo no reino do que é desejável, possível e adequado.

b) Por questões de ordem cultural aprendi a ver as pessoas nos seus contextos, nas suas circunstâncias de vida, coisa que ela não aprendeu. O contexto cultural e das necessidades que lhe estão associadas é completamente diferente entre ela e a neta, e isso ela não percebeu.

O gelado para mim não é um luxo, foi-o, hoje é apenas um produto de consumo corrente e, exatamente assim, porque fui criado no mesmo reino da necessidade que esta avó, não ganhei o hábito de consumir gelado. Não o consumo, ainda hoje, prefiro a água mineral bem fresca. No entanto não deixo de considerar que o gelado faz parte das necessidades normais de muita gente. Era este o caso da miúda, é o caso das minhas duas netas, da minha filha e da minha mulher, daí a minha argumentação face àquela senhora de idade.

A situação de tensão vivida mostrou-me que eu estava perante dois mundos muito diferentes, o da avó e o da neta, dois mundos que basicamente viviam em paralelo e muitas vezes em forte tensão. Isso fez-me recuar no tempo, uma caraterística da idade, fez-me regressar aos anos de 60-75 em que muitos portugueses, sobretudo do interior do país emigravam a salto, sobretudo para França mas também para outros países, e deixavam os filhos com os avós. Muitas destas crianças deixadas com os avós, viveram a sua adolescência como a estava a viver aquela neta com a sua avó. Deixados para trás, foi a expressão que muito mais tarde aprendi num trabalho feito em conjunto com o meu saudoso amigo António Gama. Cruzei-me com alguns deles quando chegados à Faculdade, ajudei-os quando podia e quando sabia dos graves problemas de inserção que atravessavam. Os mecanismos de avaliação criados nas disciplinas onde lecionava permitiam-me não só uma maior proximidade com os alunos na deteção dessas situações, como aumentavam a capacidade da minha ajuda na sua inserção escolar. A inserção na vida resultava muitas vezes da inserção escolar é o que a experiência de décadas me mostrou!

Deixados para trás, Left Behind, foi a expressão aprendida muitos anos depois, mas olhando bem para o mundo que hoje vivemos verifica-se que há muitas formas de Left Behind de que são vítimas os jovens de hoje. Isso leva-me ao meu terceiro apontamento, de resto ocorrido meia hora antes desta conversa com a avó e a sua neta.

 

  1. Grau Zero no ensino em Portugal

O nosso ensino tem como função criar ignorantes, diz-me um jovem de 18 anos.

Precisei de uma fita métrica metálica de vários metros. Pedi-a emprestada. Fui entregá-la. O dono da loja não estava, em seu lugar estava um jovem que tinha acabado o 12º ano via profissionalizante-especialidade marketing. Sabia alguns traços biográficos do jovem que tinha pela frente. Pergunto-lhe: já acabaste o ensino secundário?

Sim, fiz o 12º ano do ensino técnico profissional, na área de marketing.

O que é que te levou a não seguir a via clássica do liceu?

Sabe, deparava-me com muitas dificuldades em matemática. Passava sempre com nota baixa, passando com boas notas a tudo o resto, inclusive em físico-químicas. Achei que seria um coxo se continuasse pelo liceu tradicional. Falou-se muito sobre esta situação curiosa, alguém que tem boas notas a tudo, inclusive a uma disciplina, a Física-.Química, que exige algum suporte matemático, embora leve nesta fase, mas mais forte no 10º a 12ºanos quanto à Física e até mesmo quanto à Química. Para mim, esta era uma situação estranha. Ter boas notas a tudo, inclusive a Física quando se tem má nota a matemática. Vieram clientes e saí da loja. Era um jovem vivaz, bom observador, arguto, e fiquei com a sensação de que estava perante uma situação de um jovem deixado para trás, não por ninguém em particular, mas pela sociedade em si-mesma, pela forma como funciona, pelas estruturas de ensino estabelecidas.

Como é meu hábito, fiquei interessado em saber as circunstâncias em que este jovem se moveu até chegar aqui. Fiquei sem as saber. Voltei no dia seguinte à loja e pedi ao dono da loja que me desse o número de telemóvel deste seu colaborador pontual. Deu-mo, telefonei-lhe e marquei encontro para se tomar café e conversar um pouco.

Assim aconteceu. No dia seguinte encontrámo-nos no café e conversámos durante duas horas. Questionei-o sobre o ambiente familiar, Hoje nada de especial, Há uns anos atrás, os pais separaram-se num divórcio litigioso que o abalou fortemente e o fez vacilar nos estudos, perdendo o ano, no 8º ano. Trata-se de um miúdo claramente muito afetivo e percebe-se o significado do choque da separação.

Depois essa crise passou. No entanto, para mim foi claro que se sentia a falta de pai, apesar do padrasto ser alguém bem à altura, o que ele claramente manifestou. A mãe refez família e está tudo bem. Face ao choque traumático da separação, a mãe tê-lo-á levado ao médico sob suspeita de hiperatividade, diagnóstico que o médico recusou, considerando que era apenas um pouco de carga energética a mais, mas nada de relevante. Não sou médico, mas penso que o médico tinha razão: um hiperativo não aguentava uma hora e meia com alguém a esgaravatar nas suas feridas de um passado recente. Felizmente para ele, dispõe de um lar equilibrado e, sobretudo, de uma mãe extremamente atenta.

Corrigiu-se a informação que eu tinha, o jovem em questão tinha feito o 10º ano de ciências. Aí percebeu que não avançava na matemática, com uma avaliação que magramente estava situada na vizinhança dos 10 valores. A mãe, mulher muito atenta, arranja-lhe um explicador, mas defeito do jovem e do explicador também, os resultados não melhoram. Quis mudar para Humanidades mas não foi possível, as turmas estavam cheias. Faz o 10º ano nestas condições e sente que não tem futuro no ensino tradicional por causa da matemática e decide mudar para a via profissional do ensino, ramo de marketing. Um ano escolar “perdido” embora eu ache que não foi perdido. Terá sido um ano de amadurecimento face às suas escolhas, apenas isso. Termina o 12º ano da via profissionalizante, faz a PAP, Prova de Aptidão Profissional (PAP) que faz parte integrante dos Cursos Profissionais e que consiste na elaboração de um projeto transdisciplinar, integrador de todos os saberes e competências, aprendidos e desenvolvidos ao longo da formação, e conclui assim o secundário.

Olhando para o que foi o seu trajeto escolar até ali, diz-me, depois da longa conversa havida, que se sente enganado e, mais ainda, diz-me que no final do seu 12º ano fica com a sensação de que o nosso ensino é uma fábrica de produção de ignorantes. Como exemplo, diz-me que fez o seu 12º ano em marketing com uma perna às costas e tal modo que nunca sentiu a necessidade de pegar num livro sequer! E acrescenta: não quero com isto dizer que aconteceu o mesmo com a maioria dos meus colegas.

Falou-se de futuro, do seu futuro e a ansiedade aqui era enorme, bem chapada na cara. Fico com a sensação que tenho pela frente um jovem que procura ansiosamente a estrela de orientação para a sua vida mas em que a sociedade lhe deu para tal um telescópio aparentemente adequado, (com este a significar a estrutura escolar), mas com um jogo de lentes (o ensino professado que estava desligado tanto do que é a verdadeira e profunda instrução como do que é a educação) que não lhe dava nenhuma visibilidade porque se tratava de lentes para  curta distância , lentes que não podem pois permitir que se chegue a vislumbrar  a estrela que tanto deseja. 

Com 20 anos já vividos, pede-me desculpa das suas hesitações ou confusões quanto ao futuro. Diz-me que tentou entrar em Veterinária mas não conseguiu por falta de média para entrar e no seu quadro mental restavam-lhe duas hipóteses como cursos superiores: Marketing Digital ou Curso Técnico Superior Profissional de Desporto. Opta pelo segundo curso. Trata-se pois de um jovem adulto que se mantém interessado na sua inserção na vida ao contrário de muitos que constituem a população nem-nem, isto é, gente que nem estuda nem trabalha.  

Explico-lhe que as suas hesitações são normais, que não tem de se sentir diminuído por isso, que o futuro a ninguém pertence, que é sempre um tiro no escuro. Tem apenas que pensar em ter os pés bem assentes na terra quando decidir sobre as suas opções e nunca, mas nunca mesmo, deve fugir aos obstáculos que as suas opções lhe possam acarretar. Deverá apenas afrontá-las o mais racionalmente que lhe for possível. E rematei a nossa longa conversa com o recurso a Hegel: há derrotas que, se formos conscientes, podemos transformar em vitórias. Exemplo: reprovaste no oitavo ano por razões já explicadas. Vê essa reprovação como uma paragem na tua trajetória de vida e para continuares na mesma linha até ao 10º ano. Vê a tua passagem e paragem com o 10º ano feito como sendo a paragem numa estação da vida e uma mudança consequente de linha do teu comboio. A seguir embarcaste no comboio da vida e aqui te temos a equacionar o futuro. Desejo-te boa sorte.

Comecei a ficar fisicamente cansado. A intensidade da luz era enorme, o ar começava a ficar muito quente. Fiquei a ficar também psicologicamente cansado. Era uma conversa muito dolorosa. Não exagero ao dizer isto. No meio de tanta luz solar, tinha pela frente um exemplo, de entre dezenas de milhares possíveis, de um jovem inteligente que se sente interiormente com dificuldade em descobrir a via para estabelecer o seu projeto de  futuro, que se sente mesmo enganada, que ansiosamente, mesmo de forma desorientada, procura sair do beco escuro onde se encontra enfiado. Cansado, dei-lhe sinal de que me queria ir embora. 

Agradeceu-me o cuidado havido com ele e eu acrescentei: tens o meu número de telemóvel. Se fores parar a Coimbra não te esqueças de me telefonar. E ficámos por aqui.

Para percebermos a lógica bizarra do que é o secundário via profissionalizante vejamos com dois pequenos textos o que é que se entende pela via profissionalizante do secundário:

 

Texto 1. Curso Profissional tem Equivalência ao 12º Ano? (original aqui)

Os Cursos Profissionais são uma das opções que tens para seguir os teus estudos no nível secundário de educação e garantir a equivalência ao 12º Ano.

Se chegaste aqui é porque estás a pensar tirar um Curso Profissional para concluir o ensino secundário. Se tiveres alguma dúvida, escreve um comentário no final do artigo.

Os Cursos Profissionais têm Equivalência ao 12º Ano.

É verdade que concluíres um Curso Profissional dá-te equivalência ao 12º Ano mas, mais importante do que isso, é uma excelente decisão para estares mais preparado para o futuro e para os desafios do mercado de trabalho.

Porquê escolher um Curso Profissional?

Os Cursos Profissionais oferecem uma aprendizagem mais prática, garantem equivalência ao 12º Ano e permitem-te acesso ao Ensino Superior, se assim o quiseres no final do curso.

Para além disso, os Cursos Profissionais têm normalmente uma forte ligação ao mundo empresarial, possibilitando a realização de estágios aos seus alunos.

A aprendizagem dos Cursos Profissionais valoriza mais o desenvolvimento de competências práticas e técnicas que te vão preparar para o teu futuro profissional.

Ao terminares o curso com equivalência ao 12º Ano estarás preparado para ingressar no mercado de trabalho ou para seguires com os estudos para a Universidade.

Texto 2. Curso Profissional e o Acesso ao Ensino Superior (original aqui)

Antes de um aluno se inscrever num Curso Profissional, surge muitas vezes a dúvida:

Como vai ser o Acesso ao Ensino Superior? Será que vou poder ir para a Universidade depois de terminar o curso?

Por um lado, existe a dúvida relacionada com o facto de se o Ensino Profissional vai conseguir preparar-me para o Ensino Superior. Por outro lado, coloca-se a questão de se legalmente terei o direito de me candidatar a uma Universidade.

Vamos procurar esclarecer todas as tuas dúvidas. Se não ficares totalmente esclarecido, deixa nos comentários as tuas questões.

Ao terminar um Curso Profissional, posso candidatar-me ao Ensino Superior?

Claro que sim. Os Cursos Profissionais sempre deram acesso ao Ensino Superior. Ao seres aluno de Curso Profissional tens exatamente os mesmos direitos de entrar na Universidade que um aluno do ensino secundário regular.

Mas, para além do direito de te candidatares ao Ensino Superior por vias normais, foi aprovado um Decreto-Lei que cria um concurso especial para alunos que tenham terminado o nível secundário de educação através de um curso profissional.

Esse Decreto-Lei vem garantir a igualdade de oportunidades na entrada para a Universidade. Isto porque, o método de acesso tradicional está muito centrado no perfil de aprendizagem mais teórica que é seguido pelos alunos do ensino secundário regular.

Concurso Especial de Acesso ao Ensino Superior para os alunos do Ensino Profissional

O concurso especial de acesso ao Ensino Superior para os alunos do Ensino Profissional que foi aprovado em decreto-lei, anuncia que foi criado uma nova via de ingresso à Universidade com condições especiais para quem tiver tirado um Curso Profissional.

Esta nova via de acesso ao Ensino Superior prevê que não seja obrigatório para os alunos do Ensino Profissional terem que realizar os exames nacionais para conseguirem entrar na Universidade.

Em vez de fazerem exames nacionais, terão que fazer exames nas respetivas instituições de Ensino Superior às quais se candidatam de forma a avaliar se o aluno tem os conhecimentos e competências necessárias para ingressar no curso superior ao qual se está a candidatar.” Fim de citação.

 

Pessoalmente diria que a via profissionalizante é dedicada aos alunos que tem dificuldade em seguir a via clássica do ensino secundário, mas afinal, a quem se continua a garantir que pode ter acesso ao ensino superior [1]. Estou a ser delicado, mas uma coisa é certa, o ensino da via profissionalizante é hoje frequentado por cerca de 40% do total de alunos do secundário. Por aquilo que sei de professores de Coimbra, neste grupo há uma enorme massa de estudantes que está nas aulas por estar, que está nelas porque o corpo tem de estar em qualquer lado e com a cabeça centrada nas paragens virtuais, o que foi alimentado pelo facto de nenhum governo  ter tido ao longo de anos a coragem de proibir nas escolas do ciclo ao secundário a entrada dos telemóveis na sala de aulas.

A questão dos telemóveis na sala de aulas é tanto mais relevante quanto se sabe que nestas idades ter o telemóvel no bolso, mesmo desligado, faz diminuir a capacidade de concentração a quem já tem muito pouca. Trata-se de jovens que por múltiplas razões, muitas delas familiares, não foram ensinados a controlar as suas pulsões, a serem capazes de estarem concentrados numa sala de aulas, razões muitas delas sociais, a sociedade recusa-se a dignificar o trabalho [2], razões muitas delas culturais, as famílias e a Administração Publica encaram a cultura como irrelevante, razões muitas delas de ordem ideológica, o estudante é soberano, os direitos individuais devem  ser prioritários face aos direitos coletivos,  etc. Percebe-se pois que muitos destes jovens vão  depois engrossar as filas dos nem-nem e depois disputar trabalhos precários contra imigrantes ilegais ou afundar-se na droga ou na depressão ou nas duas coisas que, de, resto, estão muito ligadas.

.O ensino profissionalizante é, na minha opinião e por este conjunto de razões, um evidente exemplo do disfuncionamento em que vive a sociedade portuguesa. No entanto diz-se alto e bom som que se trata de uma via (facilitada) de acesso ao ensino superior, incentivando-se a sua frequentação. Será porque este tipo de ensino é subsidiado pela União Europeia? Será porque assim se esconde a situação em que vive grande parte da nossa juventude? Responda quem souber.

Das notas explicativas sobre a via do ensino profissionalizante acima reproduzidas pode-se ler:  

A aprendizagem dos Cursos Profissionais valoriza mais o desenvolvimento de competências práticas e técnicas que te vão preparar para o teu futuro profissional.

 

Trata-se competências práticas [3], mas depois admite-se que tenham o mesmo nível de capacidade de aprendizagem de matérias abstratas, mais teóricas, que se ensinam nas Universidades. Isto faz-me lembrar uma situação curiosa: uma aluna fez o secundário numa escola como sendo NEES (Estudantes com Necessidades Educativas Especiais). Anos depois regressa à mesma escola como diplomada, como professora! Dispenso-me de comentários.

Dispenso-me de criticar esta visão do ensino até porque tenho à minha mão um texto de Adão Cruz, que subscrevo por inteiro, onde se critica e bem o ensino assumido como fora do campo da educação e autónomo relativamente a esta. É esta visão que leva a que no fim não nos resta nem educação nem ensino, como nos mostra o caso do jovem de 20 anos que acha que no nosso sistema de ensino se está, sobretudo, a produzir ignorantes.

Diz-nos Adão Cruz:

REFLEXÃO sobre CIÊNCIA E EDUCAÇÃO

Alguém disse que a educação de uma criança começa cem anos antes de ela nascer. Isto dá-nos a ideia de que a educação não é uma conquista individual, mas geracional. Ensino e educação são conceitos diferentes. No ensino organiza-se uma série de actividades didácticas para ajudar os alunos a compreender áreas específicas do conhecimento. A educação procura integrar o ensino e a vida, o conhecimento e a ética, a reflexão e a acção. É já um lugar-comum dizer-se que a educação não deve ser entendida como mera transmissão ou aquisição de meios e conhecimentos para qualquer fim, nem pode ser apenas a corrida para atrelar o homem a uma profissão. A educação deve ter como finalidade, para além da profissionalização, todo um processo de consolidação de valores e capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo conquistar a sabedoria para lidar correctamente com as diferentes circunstâncias que a vida lhe vai apresentando. Ninguém pode considerar desnecessária a qualificação profissional, mas esta não pode depender, exclusivamente, da rígida exigência de determinadas habilitações específicas, como acontece hoje em variadíssimos campos, uma espécie de visão unidireccional do entendimento, redutora da estruturação do homem e da grandeza de estar na vida. Só a formação global permite, ao desenvolver todas as capacidades intelectuais, humanas e sociais, dar a mais ampla dimensão à sua competência profissional.” Fim de citação

Dizer que alguém é deixado para trás, pode ser analisado de muitos pontos de vista. O caso deste jovem adulto é um deles. O exemplo mais emblemático a partir do qual eu conheci a expressão Left Behind foi visto na China, em que cerca de 25% das crianças chinesas faziam parte desta categoria, eram milhões. Este foi um dos custos da industrialização “forçada” e muito rápida da China, uma forma moderna de acumulação primitiva. Penso que o problema está hoje ultrapassado e o desenvolvimento da China ao nível das tecnologias de ponta em que é líder mundial são disso um bom exemplo. Não se é líder em tecnologias de ponta e de impacto na economia mundial se se é uns país de forte nível de analfabetismo. Com isto não queremos estar a defender o modelo de desenvolvimento chinês, estamos sim a querer explicar parque é que a Europa, que até aos anos 80-90 tinha ao nível da ciência e das tecnologias um claro avanço sobre a China, está agora com o seu modelo ultra neoliberal a perder a corrida em tudo o que é ciência e tecnologia: a Europa passou a sofrer de uma doença terrível, a euroesclerose. O ramo da produção dos automóveis elétricos é apenas um dos muitos exemplos disponíveis.

Reconhecia Paul Craigs Roberts da Administração Reagan e Chuck Schumers da Administração Clinton e Biden, numa publicação de NBER que os chineses aprendiam rapidamente e bem e os resultados disso estão bem à vista. Se isto é verdade, e mostra-se que o é, é porque os chineses criaram ao nível da formação e do ensino estruturas à altura ao contrário dos europeus e americanos que se fazem depender basicamente dos mecanismos de mercado.

Como exemplo do desenvolvimento tecnológico da China, ver o artigo publicado pelo Financial Times, (original aqui) intitulado: “O fabricante chinês de veículos elétricos Xpeng apresenta um carro de 22.000 dólares com caraterísticas de condução autónoma”

 

  1. Grau Zero na política em Portugal

Para falar do grau zero da política (com p minúsculo) em Portugal dois casos nos saltam imediatamente à vista, a indigitação de Maria Luís Albuquerque para Comissária Europeia e eventual vice-presidente da dita Comissão e os incêndios na Madeira. Como estamos em férias, o segundo caso é mais fácil de tratar e é, pois, este caso que escolhemos para falar de grau zero da política em Portugal.

Sobre os recentes incêndios na Madeira ouvi na televisão uma referência ao lançamento de um foguete como estando na origem do desencadear do monstruoso incêndio que se veio a verificar. Procurei estar mais atento ao tema mas nunca mais ouvi falar em foguete. Dias depois, leio uma carta ao diretor do Público em que alguém se manifestava extremamente irritado com o comportamento do padre de uma dada terra ao lado da zona onde lavrava o incêndio. Dois mais dois são quatro, diz-nos o ditado popular e foi só ligar as duas informações: haveria foguetes no meio disto.

Recebi há dois dias o texto da carta escrita pela filha de José Saramago, indignada com o que se passou na Madeira e com os responsáveis políticos daquela região. Voltei a procurar referências sobre a questão dos foguetes e encontrei uma informação da TVI, que vale a pena rever, (ver aqui) onde se diz:

Incêndio na Madeira começou com lançamento de um foguete. Miguel Albuquerque acredita que foi fogo posto

A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar a origem do incêndio que deflagrou na Madeira na quarta-feira passada. Quem não tem dúvidas do que aconteceu é o presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, que acredita que a causa do incêndio foi fogo posto.”

Neste programa mostra-se claramente o grau de incompetência das autoridades regionais e também nacionais assim como se mostra a pobreza em recursos ou inexistentes ou altamente degradados das Instituições estatais na resposta ao flagelo dos incêndios.

A questão a colocar é a seguinte; como é possível que não tenha sido proibido o fabrico assim como a utilização de foguetes nas festas populares, seja em que condições for, e como é possível que ninguém seja criminalizado, quem permite, quem utiliza, quem produz os ditos foguetes. Fica-se com a sensação de que o Estado não existe, que vale tudo, mas tão assustador quanto isto, é o silêncio de todos os políticos à volta do tema. Inimaginável.

Sobre esta matéria qui vos deixo a carta aberta da filha de José Saramago.

E assim termino esta minha nota sobre o grau zero civilizacional em Portugal.

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Notas

[1] A existência de passerelles entre os diversos tipos de ensino, à priori, é uma muito boa ideia. Creio que ela vem desde os tempos do plano Langevin-Wallon estabelecido com a Frente Popular em França e este plano tinha como objetivo “A possibilidade efetiva das crianças francesas beneficiarem da educação e de terem acesso à cultura mais desenvolvida, para que as funções mais relevantes sejam realmente acessíveis a todos os que têm as capacidades necessárias para as exercer e para que seja promovida uma verdadeira elite, não por nascimento, mas por mérito, e constantemente renovada pelas jovens das gerações seguintes”. A palavra passerelle é a mesma mas falamos de contextos diferentes. Com o plano Langevin-Wallon falamos  de uma outra época, de outras gentes, de uma outra  visão do mundo e de outros objetivos, entre os quais o de criar um verdadeiro elevador social numa sociedade em reconstrução, a sociedade francesa. Nada disto tem a ver com se passa agora em Portugal, onde o ensino funciona basicamente como instrumento da classe dominante e dos seus servidores na manutenção e reprodução das hierarquias de classe. Não comparemos pois o que não é comprável, qualquer que seja o ponto de vista em que nos situemos apesar da palavra ser a mesma, pois fala-se de realidades completamente diferentes.

[2] Sobre a dignificação do trabalho veja-se nota seguinte.

[3] Sobre cursos profissionais ver o texto de Harold Meyerson intitulado: Construir, bebé, construir (original aqui) .

 

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