Nota prévia:
Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje publicamos o segundo da série de textos sobre as Estados Unidos da América do Norte.
Júlio Mota
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
12 min de leitura
Estados Unidos – Texto 2. Os democratas têm uma opção melhor do que Biden
Isso exige que adotem uma abordagem antiquada para ganhar uma campanha.
Publicado por
em 16 de Fevereiro de 2024 (original aqui)

O meu coração parte-se-me um pouco por Joe Biden. Este é um homem que se tem candidatado à presidência desde que era jovem. Ganha a presidência, finalmente, de forma inesperada, quando já é velho. E essa idade trouxe-lhe sabedoria. Trouxe-lhe uma abertura que nem sempre teve. Governou como um regresso a um tempo atrás, a um tempo em que os presidentes eram líderes partidários, construtores de coligações em que não se dizia: “só eu posso resolver isto”,
Biden tem mantido unido um Partido Democrata que poderia facilmente ter-se fragmentado. Pensemos na campanha de 2020, quando ele derrotou Bernie Sanders, quando derrotou Elizabeth Warren, quando a sua vitória foi vista como, na realidade, o triunfo da ala moderada sobre a ala progressista, do establishment sobre os insurgentes.
Mas em vez de os fazer ajoelhar, em vez de agir como um vencedor, Biden agiu como um líder. Fez uma parceria com Bernie Sanders. Criou os grupos de trabalho de unidade. Integrou as ideias e o pessoal de Warren e Sanders não só na sua campanha, mas também na sua administração.
Recentemente, conversei com Pramila Jayapal, presidente da bancada progressista da Câmara dos Representantes, e perguntei-lhe por que razão é que o Partido Democrata não tinha rompido como os republicanos. Ela apontou-me para aquele momento. Biden, disse ela, fez essa “grande tentativa de unir o Partido Democrata antes da eleição de 2020 de uma forma que eu realmente nunca vi antes”.
E funcionou. Os democratas tinham 50 votos no Senado. Cinquenta votos que se estendiam de Bernie Sanders, à esquerda, até Joe Manchin, à direita. Biden e Chuck Schumer, muitas vezes não podiam perder nem um desses votos, e em momentos cruciais, não perderam.
Com essa coligação quase impossível desse manter unida, a administração Biden e os democratas do Congresso aprovaram uma série de projetos de lei – o acordo bipartidário sobre infra-estruturas, a Lei de Redução da Inflação, a Lei CHIPS e a Lei da Ciência – que farão desta uma década de infraestruturas e invenções. Uma década de construção, de descarbonização, de investigação. Expandiram a ler Affordable Care, e funcionou – mais de 21 milhões de pessoas inscreveram-se no A.C.A. no ano passado, um recorde. Fizeram o que os democratas prometeram fazer desde sempre e deram pelo menos os primeiros passos para permitir que a Medicare negoceie os preços dos medicamentos.
E a equipa de Biden disse que ia gerir a economia a quente, que finalmente ia dar prioridade ao pleno emprego, e assim foi. E depois a inflação disparou. Não só aqui, mas na Europa, no Canadá, em quase todo o lado. A pandemia tinha distorcido as cadeias de abastecimento globais e depois a economia reabriu, e as pessoas desesperadas por voltar a viver pegaram nas suas poupanças da pandemia e gastaram. E a equipa de Biden, em parceria com Jerome Powell e a Reserva Federal, conseguiu reduzir a taxa de inflação, e ainda estamos abaixo dos 4% de desemprego.
E não quero passar ao lado desse feito. A maioria dos economistas disse que isso não seria possível. O consenso esmagador era que estávamos a caminhar para uma recessão, que a chamada aterragem suave era uma fantasia. Foi ridicularizado como “desinflação imaculada”. Mas foi isso que aconteceu. Não tivemos uma recessão. Ainda estamos a assistir a fortes ganhos salariais para os americanos mais pobres. A desigualdade está a diminuir. O crescimento é rápido. Neste momento, a América é muito mais forte economicamente do que a Europa, do que o Canadá, do que a China. Vocês querem ser como nós.
E, no entanto, as sondagens de Biden são desanimadoras. O seu índice de aprovação mantém-se nos 30 e poucos. A maioria das sondagens mostra-o a perder para Donald Trump em 2024. Depois vem o relatório do conselheiro especial, que não encontra qualquer irregularidade criminal no tratamento de informação confidencial, que é – recorde-se – a questão que o conselheiro especial foi nomeado para investigar. Mas o advogado faz uma avaliação da aptidão cognitiva de Biden. Diz que um júri o consideraria um “idoso bem-intencionado com uma memória fraca”. Diz que Biden não se lembra quando é que o seu filho Beau morreu.
E Biden, furioso, faz o que as pessoas lhe têm pedido para fazer este tempo todo. Ele enfrenta a questão da idade de frente. E dá uma conferência de imprensa cheia de fúria.
E depois, quando está prestes a sair, volta para responder a mais uma pergunta – esta sobre Israel e Gaza, em que diz que a América já não está a acompanhar a invasão de Benjamin Netanyahu, e depois descreve o esforço que fez para conseguir que o Presidente Sisi abrisse a fronteira egípcia para receber ajuda. Chama a Sisi o presidente do México. Comete o tipo de deslize que qualquer um pode cometer, mas um tipo de deslize que está a cometer com demasiada frequência agora, um tipo de deslize que significa bem mais quando é ele que o comete do que quando é outra pessoa a fazê-lo.
Desde o início da administração de Biden, tenho perguntado às pessoas que trabalham com ele: Como é que ele parece? Como é que ele se sente? Como é que ele é nas reuniões? Talvez não seja um grande sinal o facto de eu ter sentido a necessidade de o fazer, de muitos jornalistas o terem feito, mas mesmo assim. E estou convencido, observando-o, ouvindo o testemunho daqueles que se reúnem com ele – nem todas as pessoas gostam dele – estou convencido de que ele é capaz de fazer o trabalho da Presidência. É perspicaz nas reuniões; faz juízos acertados. Não consigo apontar-vos um momento em que Biden tenha vacilado na sua presidência por a idade o ter atrasado.
Mas a questão é a seguinte. Posso agora apontar-lhe momentos em que ele está a vacilar na sua campanha para a presidência porque a sua idade o está a diminuir. Esta distinção entre a função da presidência e a função de concorrer à presidência está sempre a ser baralhada, inclusive pelo próprio Biden.
Esta é a pergunta que os democratas continuam a querer responder, a pergunta que a administração Biden continua a fingir que só quer ouvir: Biden pode fazer o trabalho de presidente? Mas essa não é a questão da campanha de 2024. A insistência de que Biden é capaz de ser presidente está a ser usada para encerrar a discussão sobre se ele é capaz de concorrer à presidência.
Já tive o meu próprio percurso nesta matéria. Escrevi uma série de colunas sobre como Biden continua a provar que os especialistas estão errados, sobre como ele provou que eu estava errado. Ganhou em 2020, apesar de muitos pessimistas. Os democratas ganharam em 2022, desafiando as previsões. Em 2022, eu tinha planeado escrever uma coluna depois das intercalares, dizendo que devia haver primárias porque os democratas precisavam de ver até que ponto Biden ainda era um forte militante. O teste precisava de ser feito. Mas quando o desempenho foi superior ao esperado, o interesse dos principais candidatos possíveis em concorrer esgotou-se. Esse teste não ia acontecer. Mas ainda assim, pensei, Biden poderia surpreender novamente. Eu tinha-me precavido de o subestimar.
Tivemos de esperar até este ano – até agora, na verdade – para ver Biden começar a mostrar como seria na campanha. E o que eu acho que estamos a ver é que ele não está preparado para isto. Ele não é o ativista que era, mesmo há cinco anos atrás. Isso não é uma informação privilegiada da minha parte. Vão ver um discurso que ele fez na Pensilvânia, no arranque da sua campanha em 2019. E depois vejam o discurso que ele fez no mês passado, em Valley Forge, a dar início à sua campanha eleitoral. Não há comparação. Os dois discursos estão no YouTube e podem vê-los. A forma como ele se move, a energia na sua voz. Os democratas que negam o declínio só estão a enganar-se a si próprios.
Mas, mesmo assim, fiquei espantado quando a sua equipa recusou uma entrevista para a Super Bowl. Biden não está a ganhar por 12 pontos. Ele não pode chegar à vitória aqui. Está a perder. Está atrás na maioria das sondagens. Está atrás, apesar de tudo o que as pessoas já sabem sobre Donald Trump. Ele precisa de ganhar terreno. Se não o fizer, Trump ganha.
O argumento da equipa de Biden, para ser justo, é o seguinte: Quem é que quer ver o presidente durante a Super Bowl, afinal? E mesmo que eles dessem a entrevista, a CBS escolheria apenas três ou quatro minutos de uma entrevista de 15 minutos para transmitir. E se a CBS escolher um excerto que faça Biden ficar mal visto?
Tudo isso é verdade. Mas tudo isso é verdade no contexto de uma equipa que não acredita que quanto mais as pessoas virem Biden, mais gostarão dele. Há uma razão para que outros presidentes façam a entrevista na Super Bowl. Há uma razão para que o próprio Biden a tenha feito em 2021 e 2022, e para que Trump tenha dito que tomaria de bom grado o lugar de Biden este ano.
Estava a falar com James Carville, um dos principais estrategas por detrás da campanha de Bill Clinton em 1992, e ele explicou-me isto muito bem. Disse-me que uma campanha tem certos ativos, mas o ativo mais desejável é o candidato. E a campanha de Biden não está a utilizar Biden como se ele fosse um ativo desejável.
Biden deu menos entrevistas do que qualquer outro presidente recente, e a diferença não é pequena. Nesta altura das suas presidências, Barack Obama tinha dado mais de 400 entrevistas e Trump mais de 300. Biden deu menos de 100. E muitas delas são entrevistas de softball – ele vai ao podcast de Conan O’Brien, ou ao podcast de mindfulness de Jay Shetty. A equipa de Biden diz que esta é uma estratégia, que precisa de eleitores apolíticos, aqueles que não ouvem os meios de comunicação políticos. Mas, em primeiro lugar, esta estratégia não está a funcionar – Biden está em baixa, não em alta. E segundo, ninguém acredita realmente neste argumento. Eu não acredito neste argumento. Esta não é uma estratégia escolhida de um universo completo de opções. É uma adaptação estratégica aos limites percebidos de Biden como candidato. E o que é pior, pode ser uma estratégia sensata.
Quero dizer isto claramente: Gosto do Biden. Acho que ele tem sido um bom presidente. Acho que ele é um bom presidente. Não gosto de ter esta conversa. E sei que muitos liberais, muitos democratas vão ficar furiosos comigo por causa deste programa.
Mas dizer que isto é uma invenção dos media, que as pessoas estão preocupadas com a idade de Biden porque os media continuam a dizer-lhes para se preocuparem com a idade de Biden? Se o leitor realmente se convenceu disso, no fundo do seu coração, quase não sei o que lhe dizer. Em sondagem após sondagem, 70 a 80 por cento dos eleitores estão preocupados com a sua idade. Isto não é uma coisa que as pessoas precisem de ver nos media. Está mesmo à frente delas e está também a moldar a forma como Biden e a sua campanha estão a agir.
Os democratas continuam a dizer a si próprios, quando olham para as sondagens, que os eleitores voltarão para Biden quando a campanha começar a sério e começarem a ver mais de Trump, quando tiverem de levar a sério o que ele é e o que significaria para eles o regresso de Trump. .
Mas isso vai acontecer nos dois sentidos. Quando a campanha começar a sério, também vão ver muito mais de Joe Biden. As pessoas que agora mal lhe prestam atenção, vão passar a ver os seus discursos. Vão vê-lo constantemente nas notícias. Será que vão gostar do que vão ver? Será que isso os vai confortar?
Era por isso que aquela conferência de imprensa era importante. Aquela conferência de imprensa tinha um objetivo. Tinha um objetivo. O objetivo era tranquilizar os eleitores quanto à capacidade cognitiva de Biden, em particular a sua memória. E Biden não conseguiu fazer isso, nem por uma noite, nem por menos de 15 minutos. E este tipo de gafes tornou-se um lugar-comum para ele. Recentemente, disse que tinha estado a falar com o antigo presidente francês François Mitterrand, quando se referia a Emmanuel Macron. Disse que tinha estado a falar com o antigo chanceler alemão Helmut Kohl quando queria dizer Angela Merkel.
Nenhuma destas coisas tem grande importância em si-mesmas. A mente humana simplesmente faz isto. Mas fá-lo mais à medida que envelhecemos. E são importantes coletivamente. Os eleitores acreditam que Biden é demasiado velho para o cargo que procura ganhar. Ele precisa de os persuadir do contrário, e está a falhar nessa tarefa – sem dúvida a tarefa central da sua campanha de reeleição.
E isso pode tornar-se um ciclo auto-realizável. A equipa dele sabe que a conferência de imprensa foi um desastre. Então, como é que vão reagir? O que é que vão fazer agora? Vão impedi-lo ainda mais de fazer uma campanha agressiva, de situações sem guião. Tentarão certificar-se duplamente de que isto não volta a acontecer. Mas eles precisam de um candidato – os democratas precisam de um candidato – que possa fazer uma campanha agressiva, porque, mais uma vez – e nunca é demais sublinhar isto – eles estão atualmente a perder.
Parte do meu trabalho é falar com o tipo de democratas que fazem e ganham campanhas constantemente. Todos eles estão preocupados com esta situação. Nenhum deles diz que se trata de uma invenção ou que não é uma questão real. E isto é fundamental: não é com a idade em si que estão preocupados. A idade de 81 anos não significa nada. É a impressão que Biden está a dar da idade. De lentidão. De fragilidade.
A presidência é uma atuação. Não se trata apenas de tomar decisões, mas também de representar o que as pessoas querem acreditar sobre o seu Presidente – que o Presidente está no comando, é forte, enérgico, compassivo, atencioso, que não precisam de se preocupar com tudo o que está a acontecer no mundo, porque o Presidente tem tudo sob controlo.
Se é verdade que Biden tem tudo sob controlo, não é verdade que ele pareça ter. Alguns estrategas políticos que conheço pensam que é por isso que os seus números nas sondagens são baixos. Mesmo quando acontecem coisas boas, as pessoas não acreditam que ele as tenha feito. Um deles estava a dizer-me que o que mais o preocupa em relação a Biden é a estabilidade do seu índice de aprovação – não sobe nem desce. A inflação baixou muito nos últimos meses. As pessoas sentem-se muito melhor em relação à economia. Podemos ver isso nos dados sobre o sentimento dos consumidores. Mas o índice de aprovação de Biden não subiu. O seu desempenho na Ucrânia não o fez subir. A aprovação da Lei de Redução da Inflação e da Lei CHIPS não o fez subir. Para este estratega, parecia que muitos americanos não davam crédito a Biden pelas coisas, mesmo quando ele as merecia. E Biden não é agora um ativista suficientemente capaz ou agressivo para ganhar esse crédito para si próprio.
Os argumentos que vejo até mesmo alguns democratas inteligentes apresentarem para não terem de olhar diretamente para esta questão são arrasadores. O que ouço mais frequentemente é que Trump também é velho. Tem 77 anos. Também confunde os nomes – recentemente chamou Nikki Haley a Nancy Pelosi. Por vezes, fala sem sentido. E tudo isso é verdade. Mas essa é uma razão para nomear um candidato que possa explorar o facto de Trump ser velho e confuso. O objetivo não é dar a Trump uma partida equilibrada. O objetivo é vencer Trump.
Outro argumento que vejo é que se trata de preconceito de idade. É injusto apontar isso a Biden. Trata-se de discriminação em razão da idade e, na verdade, já vi pessoas apresentarem este argumento, a discriminação em razão da idade é ilegal no local de trabalho. Mas não é ilegal no eleitorado. Se os eleitores forem antiquados e Biden perder por causa disso, não há recurso. Não se pode processar os eleitores por discriminação em razão da idade.
E depois há o argumento que já ouviram no meu podcast. Um argumento que já apresentei antes. Biden não parece ser um candidato forte, mas os democratas continuam a ganhar. Biden ganhou em 2020. Os democratas ganharam em 2022. Têm estado a ganhar eleições especiais em 2023. Acabaram de ganhar o lugar de George Santos em Nova Iorque. Há uma maioria anti-MAGA neste país e eles vão sair para parar Trump. E acho que isso pode ser verdade. Continuo a pensar que Biden pode ganhar a Trump, mesmo com tudo o que disse. Só que há uma grande probabilidade de Biden perder. Talvez até mais do que probabilidades 50-50%. E Trump é perigoso. Quero probabilidades mais elevadas do que isto
Acho que uma razão pela qual os democratas reagem tão defensivamente às críticas a Biden é que chegaram a uma espécie de fatalismo. Eles acreditam que é tarde demais para fazer qualquer outra coisa. E se é tarde demais para fazer qualquer outra coisa, então falar sobre a idade de Biden é contribuir para a vitória de Donald Trump.
Mas isso é um absurdo.
Estamos em fevereiro. O fatalismo neste momento antes das eleições é ridículo. Sim, é tarde demais para jogar isso para as primárias. Mas não é tarde demais para fazer alguma coisa.
E depois então? O primeiro passo, infelizmente, é convencer Biden de que ele não deve concorrer novamente. Que ele não quer correr o risco de ser Ruth Bader Ginsburg – uma servidora pública heroica e brilhante que causou o resultado que ela mais temia porque não se aposentou suficientemente cedo. Que, ao se afastar, ele seria capaz de terminar o seu mandato como um presidente forte e focado, e as pessoas sentiriam muita honra no que ele fez, em colocar o seu país acima de suas ambições.
As pessoas que Biden ouve – Barack Obama, Chuck Schumer, Mike Donilon, Ron Klain, Nancy Pelosi, Anita Dunn – precisam de o levar a ver isto. Biden pode vir a vê-lo ele mesmo.
Não retiro nada à dificuldade que isso representa, o quanto Biden quer terminar o trabalho que começou, continuar fazendo o bem que acredita que pode fazer. A passagem à reforma pode ser, muitas vezes, um trauma. Mas perder para Donald Trump seria muito pior.
Admitamos que isso se verifica: que Biden afasta. E depois? Bem, então os democratas fazem algo que costumava ser comum na política, mas não o é há décadas. Eles escolhem o seu candidato na convenção. Foi assim que os partidos escolheram os seus indicados na maior parte da história americana. De aproximadamente 1831 a 1968, foi assim que funcionou. De certa forma, ainda é assim que funciona.
Vou apresentar um episódio inteiro sobre como funciona uma convenção aberta, então isto será um relato rápido. A forma como escolhemos os candidatos agora ainda é construída em torno de convenções. A forma como escolhemos os nomeados continua a ser construída em torno de Convenções. Quando alguém ganha uma primária ou um caucus, o que ele realmente ganha são lugares de delegados Como isso funciona é diferente em diferentes estados. Em seguida, eles vão para a convenção para escolher o candidato real.
Toda a estrutura da convenção ainda continua a ser assim . Nós ainda a usamos. Ainda são os delegados que votam na convenção. O que é diferente agora do que no passado é que a maioria dos delegados chega à convenção comprometidos com um candidato. Mas sem entrar muito nas ervas daninhas das regras de delegados estaduais aqui, se o seu candidato desistir, se Biden desistir, eles podem ser libertados para votar em quem quiserem.
A última convenção aberta que os democratas tiveram foi em 1968, um desastre de uma convenção onde o Partido Democrata se dividiu entre fações pró e anti-Guerra do Vietname onde havia violência nas ruas, onde os democratas perderam a eleição.
Mas não foi assim que se passou na maioria das convenções. Foi uma convenção que escolheu Abraham Lincoln em vez de William Seward. Foi uma convenção que escolheu F.D.R. em vez de Al Smith. Tenho lido o livro de Ed Achorn “O Milagre de Lincoln: Dentro da Convenção Republicana que Mudou a História”. A minha frase favorita vem do senador Charles Sumner, que envia uma nota de boas-vindas aos delegados, “cujo dever será organizar a vitória”.
De quem será o dever de organizar a vitória – adoro isso. É isso que uma convenção deve fazer. É o que um partido político deve fazer: organizar a vitória. Porque a vitória não acontece por acaso. Tem que ser organizada.
Todo a gente com quem falei sobre isso, literalmente toda gente, mostrou o mesmo medo. Chamem-lhe o problema de Kamala Harris. Em teoria, ela deveria ser a favorita. Mas ela tem sondagens um pouco piores do que Biden. Os democratas não confiam que ela seria uma candidata mais forte. Mas eles temem que, se ela não fosse escolhida, isso destruiria o partido. Penso que isto é errado a dois níveis.
Primeiro, acho que Harris está subestimada agora. Eu pensei nisso por um tempo. Já disse isso antes, que acho que ela vai ter um bom 2024. Será ela um rolo compressor político, um talento político geracional? Provavelmente não. Mas ela é uma política capaz, o que é uma das razões pelas quais Biden a escolheu como sua companheira de equipa. Ela não fez grandes progressos como vice-presidente. A narrativa de Washington sobre ela tornou-se extremamente negativa. Mas quando Kamala Harris fez campanha como Kamala Harris, não era assim que era vista. E Harris, em ambientes privados – ela é extremamente magnética e atraente.
O seu grande desafio seria traduzir isso em uma persona pública, o que é – e sejamos francos sobre isso – uma coisa difícil de fazer quando se cresce num meio que sempre foi rápido em encontrar as suas falhas. Um mundo que tem medo de ver as mulheres ficarem zangadas, de as pessoas de cor ficarem zangadas. Um mundo onde, durante a maior parte da sua vida, lhe foi exigido que fosse cauteloso, cuidadoso e medido e nunca cometesse um erro. E então é-se personagem pública e as pessoas dizem, oh, está ser muito cauteloso e muito cuidadoso e muito comedido. É uma amarra de onde é muito, muito, muito difícil sair. Mas talvez ela possa fazê-lo.
Ainda assim, cabe ao partido organizar a vitória. Se Harris não consegue convencer os delegados de que tem a melhor chance de vitória, ela não deve e provavelmente não seria escolhida. E não acho que isso dividiria o partido. Há uma tonelada de talentos no Partido Democrata neste momento: Gretchen Whitmer, Wes Moore, Jared Polis, Gavin Newsom, Raphael Warnock, Josh Shapiro, Cory Booker, Ro Khanna, Pete Buttigieg, Gina Raimondo, Alexandria Ocasio-Cortez, Chris Murphy, Andy Beshear, J.B. Pritzker — a lista continua.
Alguns deles disputariam a nomeação. Eles faziam discursos na convenção, e as pessoas realmente prestavam atenção. O país inteiro estaria a assistir à convenção democrata, e provavelmente a interessar-se-ia por ela antes desta se realizar., e vendo o que a fileira de talentos políticos poderia realmente fazer. E então algum deles seria escolhido com base em como essas pessoas se comportaram.
Poderia correr mal? Com certeza. Mas isso não significa que vai correr mal. Isso poderia transformar os democratas no show político mais emocionante do mundo. E do outro lado estará Trump a ser nomeado e com toda a nata dos partidários de MAGA a fazer bloco em torno do seu líder, Trump. O melhor do Partido Democrata contra o pior do Partido Republicano. Um partido que realmente ouviu os eleitores contra um partido que nega o resultado das eleições. Um partido que fez algo diferente em relação a um partido que voltou a nomear uma ameaça à democracia e que nunca – nem uma única vez – ganhou o voto popular numa eleição geral.
Parece-me um bom contraste.
Sim, o Partido Democrata tem vindo a ganhar eleições recentemente. Mas está a ganhar essas eleições, em parte, porque leva a sério o recrutamento de candidatos. Isso foi verdade em 2020. Biden não era o candidato que fazia vibrar o coração da base, mas parecia ser o candidato com melhores hipóteses de ganhar. Então, os democratas fizeram a coisa estratégica e escolheram-no. E ganharam. Em 2022, os democratas escolheram cuidadosamente os candidatos que se enquadravam nos seus círculos eleitorais, que se enquadravam nos seus estados, enquanto os republicanos escolheram extremistas encharcados de MAGA. E foi por isso que os democratas ganharam.
A lição a tirar daqui não é que os democratas não precisam de pensar bem em quem candidatam nas eleições. É que eles precisam de pensar bem em quem é que apresentam nas eleições. E têm-no feito. Precisam de ser estratégicos, não sentimentais. E têm-no feito. Porque a alternativa é Donald Trump. E Donald Trump é perigoso. E, neste momento, Donald Trump está à frente.
Tenho um pesadelo em que Trump ganha em 2024. E depois, em 2025 e 2026, saem os livros de contas da campanha, e estão cheios de e-mails e mensagens de WhatsApp entre funcionários de Biden e líderes democratas, onde todos dizem uns aos outros, isto é um desastre, ele não vai ganhar isto, não aguento ver este discurso, vamos perder. Mas não disseram nada disso publicamente, não fizeram nada, porque era demasiado perigoso para as suas carreiras, ou demasiado desconfortável, dada a sua lealdade a Biden.
Já disse anteriormente no programa que vivemos numa era estranha com os partidos. Passámos da ideia de que os democratas caem na situação de enamorados e os republicanos na situação de estarem em linha com a realidade para a ideia de que os democratas se colocam em linha com a realidade e os republicanos se desmoronam. Na maior parte das vezes, quis dizer isto como uma crítica ao caos republicano, mas demasiada ordem pode ser o seu próprio tipo de patologia. Um partido que é demasiado rápido a entrar na linha, que não consegue romper a linha, é um partido que será demasiado lento, talvez incapaz, de resolver problemas difíceis.
Então, sim, acho que Biden, por mais doloroso que isso seja, deveria encontrar o seu caminho para renunciar como um herói. Que o partido o ajude a encontrar o caminho para isso, para ser o que ele disse que seria em 2020, a ponte para a próxima geração de democratas. E então acho que os democratas se deveriam reunir em agosto na convenção para fazer o que os partidos políticos já antes fizeram nela: organizar a vitória.
O autor: Erza Klein [1984- ] é um jornalista, comentarista político e cineasta norte-americano, membro da Vox Media. Ezra participou da criação da série Explained (2018), parceira da Vox com a Netflix. Participou como colunista e blogueiro no Washington Post e Newsweek. Anteriormente, ele atuou como editor associado e blogueiro político de tendência liberal no meio de divulgação política The American Prospect. Em 2014 deixou o The Washington Post para se juntar a um novo projeto da Vox Media.


