EVA CRUZ – “POR AMOR À ARTE”

 

Hélène não é a “Belle Hélène” de Offenbach, mas é uma bela e brilhante pianista que vive nos arredores de Paris. Por pouca sorte, é vítima de uma doença que a tem vindo a incapacitar e lhe atinge particularmente as mãos, quase a impedindo de fazer aquilo de que mais gosta: libertar das teclas do seu piano as melodias que sempre foram a essência da sua vida.

No Sul de França, o seu grande mestre, já em fins de carreira, vai dar o último concerto numa “master class” internacional. Hélène, presa à sua cadeira de rodas, tudo daria para o ouvir pela última vez, mas não tem os recursos económicos que a viagem exige, dadas as suas condições físicas.

Depois de muito pensar, decidiu finalmente dar a si própria essa magnífica prenda: assistir ao último concerto do seu grande mestre. Vendeu o seu piano, um Bösendorfer, de ascendência austríaca, e que ela possuía desde criança. Num só, dois actos de amor, em que o segundo estaria no facto de saber que outras mãos, a que a sorte não roubou a liberdade, iriam ter o prazer de afagar as teclas do seu saudoso piano.

Ouvi com ternura esta história verdadeira. E como é de mim saborear a poesia das pequenas coisas da vida, senti que ela reflecte a pureza e a candura da essência, da essência dessa tão banalizada expressão “POR AMOR À ARTE”.

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