CARTA DE BRAGA – “o rio dos meninos espanta-pássaros” por António Oliveira

Li, há já alguns dias, um comentário de um articulista num jornal lá de fora, que poderá ser mais ou menos resumido numa frase simples, mas dura, a magoar muitos dos actuais donos dos recursos deste mundo, sejam eles quais forem, ‘As guerras da propaganda são as grandes armas de destruição massiva do imperialismo capitalista’.

Referia o articulista, que as sociedades hierarquizadas são controladas pela ordem e pelo consentimento social, político, ideológico e cultural determinado pelos media (publicidade e orientação mental das populações), devido às sugestões abertas ou mesmo ocultas, mas massacrantes mensagens, repetidas até à saturação.

Escapar a este sistema, sedimentado em todos os sistemas políticos ou ideológicos, é uma tarefa praticamente impossível, até por ‘A bandeira ir atrás do dinheiro e os militares atrás da bandeira’, acrescenta o articulista, mas salientando que fora deste ‘modus operandi’ estarão os métodos correctivos ou dissuasórios, com o sistema judicial, a prisão, o manicómio, a antiga tradição e o medo religioso.

Lembro-me de há muitos anos ter lido ‘Eros e a civilização’ de Marcuse, onde ele referia a repressão numa sociedade capitalista avançada, onde o homem age como elemento de trabalho numa sociedade organizada contra a sua liberdade, tanto intelectual como espontânea, aliás o fundamento de tal obra, defendendo as mudanças necessárias para tal desiderato.

Já lá vão umas dezenas de anos desde que Marcuse desapareceu do mundo estudantil –tanto mais que não joga futebol nem entra em qualquer série da Netflix– mas atrevo-me a citar o padre e professor de Filosofia Anselmo Borges numa das crónicas no DN, ‘A liberdade radica na experiência originária do ser humano como dom para si mesmo. Quando se pensa em profundidade e verdade, ser Homem é ser livre e, consequentemente responsável: responder por si e pelos outros. O que quero fazer de mim? Para onde queremos ir verdadeiramente?

De alguma maneira, diz também no DN o professor Bernardo Ivo Cruz, ‘Na melhor tradição da promoção da igualdade de cidadania, necessitamos de mecanismos instituídos nos direitos colectivos, nomeadamente a igualdade de resultados – e não apenas de oportunidades, no acesso à Educação, à Saúde e à segurança social’.

Mas não devemos nem podemos esquecer que hoje estamos a viver, nós os cidadãos alinhados atrás da propaganda da publicidade e dos media, de pandemias e manipulações, numa fase de resiliência e de adaptação, não tentar antever o futuro, mas a fortalecer a capacidade de adaptação às circunstâncias desfavoráveis que nos marcam os dias.

Foto-Laura Aragó, ‘La Vanguardia

A propósito, vou resumir aqui, a pequena estória de Alpha Issa, uma criança de 14 anos, entre as muitas outras que vivem nas margens do rio entre o Senegal e a Mauritânia, que todos os dias passa 12 horas, no meio do arrozal, vestido como um espantalho, para evitar que as aves comam a colheita da família, atirando-lhe pedras, ou batendo palmas e ululando, até elas irem embora. Sabe, sabem todos, que elas voltarão, mas ali vai continuar até chegarem as chuvas outra vez!

Resiliência ou resistência sim, mas que futuro?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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