O jornal A República abriu um inquérito entre os intelectuais no sentido de indagar qual será o mais belo livro português dos últimos trinta anos. Pela minha parte, lamento que a consulta seja feita apenas aos que fazem profissão de serem inteligentes. Desde que me constou que o inquérito estava em marcha, andava ansioso por saber qual a opinião do meu amigo Praxedes. Interessa-me bem mais do que a dos intelectuais, isto sem desprimor para nenhum, pois a todos respeito em geral e ao Sr. João Bonança em particular.
Praxedes amigo estava jungido à canga da repartição quando o fui entrevistar.
– O melhor livro dos últimos trinta anos? Oh, meu amigo!… Para mim, não há como Os Milhões da Viscondessa. Não leu? Veio em folhetins no Século. Sim senhor. Bela obra! A minha mulher gostou mais da Virgem parricida, que veio no Notícias; mas, aqui para nós, aquilo é uma estúpida que não entende nada de literatura. Tenho lido muitos folhetins. Aqui na repartição, leio quase todos, mas como aquele nenhum. Imagine você… Começa numa taberna de apaches, em Paris. Há uma rapariga que vende flores, e se apaixona por um conde, que é casado com uma filha de um duque, que, nos seus tempos de criança, teve um bastardo de um oficial, filho de um guarda-caça …
– O duque é que teve a criança?
– Não, a filha. A pequena cresce. Toca realejo e pede esmola. Um dos apaches apaixona-se por ela. Um belo dia aparece morto o usurário …
– Qual usurário?
– O “Lagarto”.
– Qual “Lagarto”?
– É alcunha do homem.
– Ah!
– Surge um jornalista, que é polícia e tem um cão…
– Que morde no gato, que papa o rato, que rói o cebo, que unta a corda… Conheço essa história.
– Com você não se pode falar a sério. Ria-se à vontade, meu amigo; mas bem pode a Genoveva puxar para a Virgem parricida, a mim ninguém me arranca dos Milhões da Viscondessa.
– Mas, meu caro Praxedes, isso é literatura francesa de fancaria, de décima terceira classe, ad usum das porteiras da capital do mundo. Eu perguntava-lhe qual é o livro português de que você mais gosta.
– Ah! Livros portugueses… Nunca li nenhum…
4 de Abril de 1914
In PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA, 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.