Carta aberta ao meu aluno de outrora, Fernando Alexandre, o Ministro da Educação de agora – por Júlio Marques Mota

Carta aberta ao meu aluno de outrora, Fernando Alexandre, o Ministro da Educação de agora.

por Júlio Marques Mota

Setenta anos depois, é este o tema do presente texto, é este o marco de referência a justificar esta carta aberta uma vez que a linha de raciocínio seguida é a seguinte: quando tinha 11 e estava na quarta classe da primária fui impedido economicamente de fazer o exame de admissão ao liceu e neste contexto escrevi uma carta de protesto ao Ministro da Educação de outrora, Pires de Lima, e vejo-me agora, a escrever uma outra carta de protesto ao atual ministro da Educação, Professor Fernando Alexandre, um. antigo aluno meu, 70 anos depois. A história repete-se, de facto, mesmo que seja com outras roupagens. Na linha de Marx diremos que a história se repete, na primeira vez como tragédia, na segunda como farsa, mas talvez seja preferível ir à origem desta ideia, que está em Hegel para nos dar de forma menos panfletária, o que se entende por repetição na história.

Sobre a repetição na História em Hegel, diz-nos John Ganz[i]:

“A maioria dos leitores, sem dúvida, ouviu a velha visão de Marx sobre a história repetir-se “pela primeira vez como tragédia, pela segunda vez como farsa.” Mas talvez nem todos estejam familiarizados com a parte das palestras de Hegel sobre a filosofia da história que ele está a parafrasear. É uma secção que tem a ver com a queda da República Romana e a ascensão do Império:

A posição [de César] era realmente hostil à república, mas, propriamente falando, apenas à sua sombra; pois tudo o que restava daquela república era inteiramente impotente. Pompeu, e todos aqueles que estavam do lado do Senado, exaltaram as suas dignitas auctoritas – o seu governo individual-como o poder da república; e a mediocridade que precisava de proteção refugiou-se sob este título. César pôs fim ao formalismo vazio deste título, fez-se Senhor e manteve unido o mundo romano pela força, em oposição a fações isoladas. Apesar disso, vemos os homens mais nobres de Roma considerarem que o governo de César era uma coisa puramente fortuita e que toda a posição dos negócios dependa de sua própria individualidade. Assim pensava Cícero, assim Brutus e Cássio. Eles acreditavam que, se Cesar estivesse fora do caminho, a República seria restaurada ipso facto. Possuídos por esta notável alucinação, Brutus, um homem de caráter altamente nobre, e Cássio, dotado de maior energia prática do que Cícero, assassinaram o homem cujas virtudes tanto apreciavam. Mas tornou-se imediatamente manifesto que uma única e só vontade poderia guiar o Estado romano, e agora os romanos viam-se obrigados a adotar essa opinião; uma vez que em todos as épocas do mundo uma revolução política é sancionada nas opiniões dos homens, quando ela se repete. Assim, Napoleão foi derrotado duas vezes e os Bourbons duas vezes expulsos. Pela repetição, aquilo que a princípio parecia apenas uma questão de acaso e contingência torna-se uma existência real e ratificada.

Por outras palavras, assassinar Júlio César nunca poderia funcionar: o próprio mundo mudou; esse indivíduo em particular foi eliminado, mas o seu tipo de governo veio para ficar.” Fim de citação. Os sublinhados são meus.

Na linha de Hegel, esta minha segunda carta agora enviada ao atual ministro da Educação ratifica então a primeira carta, a que foi enviada a Pires de Lima, a que resulta da situação de 1954, ela mesma resultante da saída de um professor da minha escola primária para ocupar no Ministério da Educação o cargo de Inspetor do Ensino Primário. Que se passou então em 1954-55?

Em tempos escrevi um texto a um amigo meu de Fratel, a minha aldeia, precisando o que se passou em 1954 e 1955, de que passo a reproduzir alguns excertos:

“Falemos então de um evento que faz agora setenta anos e procuremos reconstituir imagens desse evento e do contexto em que este se verificou, a partir de uma lente já muito fosca, já estragada pelo tempo que passou, a minha memória.

Disseste ao meu amigo que o carteiro Abel fez seguir a carta que eu escrevi ao Ministro da Educação Nacional, isso é verdade, mas não é verdade que a mandou como carta normal, mandou-a carimbada ao lado do selo, o mesmo é dizer com dúvidas sobre a qualidade do selo e também não é verdade que houve uma só carta. As cartas foram três e não apenas uma. Curiosamente, lembro-me fisicamente apenas da primeira. Vejamos a história do seu envio.

Faço anos em fevereiro, o meu pai só me mandou para a escola com 7 anos feitos e o argumento era o seguinte: tinha muito tempo pela frente para ir trabalhar. Este argumento voltou a funcionar quando faço a primeira classe. A professora Bárbara Baptista Martins falou com o meu pai e disse-lhe que era uma pena eu passar para a segunda classe; ela estaria disposta a passar-me para a terceira, recuperando um ano. O meu pai disse-lhe que não, repetiu-lhe o mesmo argumento, que eu tinha tempo para ir trabalhar.

Quando passo para a quarta classe, o professor José Baptista Martins tinha sido promovido a inspetor do ensino primário e a sua tia assumiu a quarta classe nesse ano. Numa das primeiras aulas da quarta classe, senão mesmo na primeira aula, perguntou quem é que queria fazer a admissão ao liceu. Vários puseram a mão no ar, entre os quais eu. A professora depois informa: que este ano as coisas mudaram. As explicações vão ser pagas e cada aluno terá de pagar 1500 escudos. Quando o diz, uma parte dos alunos baixa o braço entre os quais eu. Para termos uma ideia do que significava este valor, lembro que um camponês ganhava no máximo 18 escudos por dia e isto quando tinha trabalho. Se imaginarmos seis dia de trabalho por semana, 24 dias por mês, este valor correspondia a cerca de 3 meses e meio de trabalho, supondo que diariamente havia trabalho, o que era raro, muitíssimo raro.

Não houve nenhum atrito com esta informação. Continuei a ser o “seu” aluno, o aluno que a substituía nas perguntas aos alunos no quadro enquanto ela ensinava a outra classe. Como te lembras, eram sempre lecionadas duas classes por turma e havia duas turmas no que diz respeito aos rapazes, uma turma com as 1ª e 3ª classes e a outra com as 2ª e 4ª classes. Quando ela ensinava os meninos da segunda classe era eu que interrogava os alunos da quarta e os mandava à professora levar as reguadas do costume quando não respondiam bem, até que um dia apanhei eu, e por todos os anos da vida! No que diz respeito às meninas havia as quatro classes a serem lecionadas na mesma sala e com uma só professora, a professora Maria Neves.

O caricato disto era que eu continuava a ser o seu auxiliar nas explicações para a admissão ao liceu, tal como o era nas aulas, explicações estas dadas na sua casa, ao lado da loja do “ti” João Vicente, hoje loja do JJ. Mas não ia ser levado a fazer a admissão ao liceu porque não podia pagar o que ela exigia!

Termino a quarta classe com onze anos feitos. Não vou estudar, vou imediatamente trabalhar para a padaria-moagem do “ti” Joaquim Fernandes, o pai do Manuel Fernandes, um homem que se tivesse estudado seria um grande, muito grande, engenheiro. Não sei se recebia alguma coisa, mas seria pouco e ficava para a casa. Não me lembro de ver um tostão. Acho que de vez em quando a minha mãe me dava 10 tostões para rebuçados. Na base desses 10 tostões comprei a carta, que custou 5 tostões. Faltava o dinheiro para o selo.

À porta da padaria, que era junto à igreja, a seguir à casa do João Vicente no Rossio, vi um envelope com um selo que me pareceu limpo. Creio que a casa pertencia ao “ti” João Pires. E é ao lado da casa do teu tio Padre Zé. Olhei para o selo e pensei: isto passa bem por não estar carimbado. Com muito cuidado consegui descolá-lo e parecia-me perfeito. Escrevi a carta, com algumas rasuras apagadas com um fósforo molhado em lixívia. Do que me lembro é que nela eu considerava que o sistema era justo e como tal não podia pactuar com injustiça. E relatava a injustiça que sentia na pele, o que se passava com a minha professora, Bárbara Baptista Martins.

Num sistema justo isso não poderia acontecer e era essa a razão da carta. No entanto hoje, 2024 e já com 81 anos contados, vejo que há nesta história algo que não entendo bem quanto a este meu comportamento: já não faria admissão ao liceu, estava colocado fora dessa carroça e, neste caso, estava então a lutar em nome de quê? De vingança contra a professora? Não, claramente não, como se testemunhará mais abaixo. Só tenho uma explicação: fazia-o em nome dos outros que se me seguiriam na quarta classe. Se for esta a explicação, pelo menos a mais plausível, poderei considerar que este foi o meu primeiro ato político.

Voltemos à carta. Para a enviar precisava da morada do Ministro. Não a tinha. Ora na moagem eu era ajudante de padeiro, ajudante de moleiro, onde também carregava com sacos de 50 Kg de trigo, e fazia a escrita da moagem. Ia, acho que uma vez por mês, a Castelo Branco entregar, ou para se verificar, a escrita que iria para Lisboa, ia ao funcionário distrital da Comissão Reguladora das Moagens de Ramas, organismo que, salvo erro, tinha sede na Avenida da Liberdade.

Escrevi ao Presidente da Comissão Reguladora a pedir que me informasse da morada do ministro da Educação Nacional. Ainda me lembro da resposta: Campo dos Mártires da Pátria, nº 2.

Na posse da morada, da carta escrita e do selo supostamente válido, envio a carta ao ministro e sem remetente à vista.

A carta vem devolvida. Ora, como eu mandava documentação dos registos na moagem para Lisboa, o carteiro Abel identificou a minha letra e diz-me mais ou menos isso: Júlio, veio devolvida uma carta, mas não tem remetente. Penso que é tua. Vai lá ver. E fui aos Correios, em frente da tua casa, e era a minha carta.

Aqui surge uma dor de cabeça, a carta vinha multada. Ora, eu queria estar no sigilo de toda a gente, mesmo dos meus pais e, portanto, a carta não podia ser aberta. Tinha de a levantar, mas para isso tinha de arranjar dois escudos!

Como é que o arranjei, e sem grande margem de erro, o dinheiro terá sido arranjado pela seguinte via: o meu pai era um caçador de excelência, tinha uma espingarda de excelência, uma Sauer e Son que lhe foi vendida a bom preço pelo Dr. Valério quando este deixou de poder caçar

 Como caçador de exceção, com uma espingarda de exceção obtida pela razão que acima se disse, e num tempo em que havia muita caça, eram muitas as peças que o meu pai caçava, era carne que se comia em casa, que se repartia com o “ti” Victor Alexandrino e com muita outra gente. Sublinho ainda que não havia frigoríficos. O meu pai nunca vendeu uma peça de caça fosse a quem fosse, havia quem o fazia, ele não, ele dava-as e era eu que as ia entregar e na volta havia quem me desse 25 tostões, fosse gente “rica” ou pobre. Destes,[ii]às vezes, com que custo!

Normalmente, dava o dinheiro à minha mãe que me dava depois os 10 tostões do costume para os rebuçados!

Pois bem, terão sido desses 25 tostões que saíram os dois escudos para resgatar a carta que o malandro do carteiro Abel não carimbou, ou melhor, que carimbou, mas ao lado do selo.

Não desisti, outros 25 tostões caíram no meu bolso. Comprei outra carta e outro selo. Escrevi, pois, uma segunda carta, esta já completamente regular. Não veio resposta ao fim de muito tempo, pelo que mandei uma terceira carta com outros 25 tostões que terão caído no meu bolso. Esta teimosia tem uma explicação que se pode deduzir da primeira carta. Eu acreditava no sistema, um sistema justo que teria de combater ao extremo as injustiças espontaneamente criadas, externas ao sistema. Só assim se entende, e para a época, a existência de uma terceira carta, a certeza de que, se recebida, a injustiça seria corrigida.

Nesta matéria o sistema foi justo à sua maneira, percebi-o eu no entretanto, no intervalo existente entre a segunda carta e o inquérito instalado à professora Baptista Martins. Com efeito, imaginemo-nos num mês de março friorento, desse mesmo ano, 1954. Estou à lareira com o meu pai, na casota que temos em frente à minha casa. Meto a mão ao bolso e tinha-me esquecido que estava lá a carta que me informava da morada do ministro. O meu pai viu o papel, não sabia ler, e perguntou que papel era aquele. Disse-lhe, contei-lhe a história. Uma história ali malvada, não sei que noite terá tido, como é que terá dormido, depois daquele relato sobre o que eu fiz e sobre a razão por que o fiz.

Situo este facto em março porque isso aconteceu numa noite em que havia frio, mas o dia seguinte, e desse dia eu lembro-me bem, era um dia de sol e de temperatura amena, um dia importante nesta história de uma criança que sonhava em ir estudar. Não sei como é que o poderia fazer, mas sonhava, sonhava que havia de ser médico e ajudar os pobres como nós éramos. Era o tempo da imaginação fácil, fértil, alimentada pelos folhetins do jornal O Século que religiosamente a “ti” Rosário Lajeta, mulher do Joaquim Coelho, compilava e me emprestava, e pelos livros do Emílio Salgari que o João Padeiro me dava a ler.

O inspetor Baptista Martins, sobrinho da professora Bárbara Martins, meu professor na segunda classe, era nessa altura inspetor do ensino primário e depois foi um dos fundadores de uma obra brilhante para a época, a Telescola. Este veio à moagem-padaria, deixemos a serração de lado, falar com o meu pai e com o “ti” Joaquim Fernandes, o patrão. Estava preocupado, sabia que havia uma queixa contra a tia, mas não conseguia saber a origem da queixa! Pelo que ele conhecia da sua e nossa terra, só considerava duas pessoas como autoras possíveis da queixa, o meu pai que não sabia ler e o “ti” Joaquim Fernandes e vinha pedir àquele que a tivesse feito que retirasse a queixa. O meu pai disse-lhe: não fui eu nem foi o meu patrão, foi o meu filho, e ter-lhe-á contado a história da véspera e acrescentado: soube ontem que foi ele, e contou o caso da carta com a morada do ministro, soube assim que foi o meu filho; mas eu nunca lhe pedirei seja o que for a esse respeito, se quiser, senhor inspetor, peça-lhe o senhor, eu não. E o professor Baptista Martins nunca me veio pedir nada, verdade seja dita. Depois, ficou meu amigo até à sua morte.

A seguir, terminado o ano escolar, veio o inquérito à professora levantado pelo ministro Pires de Lima que se realizou na sede escolar do concelho, em Vila Velha de Ródão. O ministro fez o que achou que devia fazer: deixar acabar o ano letivo. Ora, eu era menor, teria de ser acompanhado pela autoridade, e a autoridade, meu caro Zé Eduardo, era o teu pai, o regedor da época, António Eduardo. Lembro-me que fomos de burro até à estação, o miúdo ia a cavalo no burro e os dois adultos, o teu pai e o meu, iam a pé. Isto parece saído de uma lenda religiosa, mas foi assim mesmo. O inquérito foi feito a pente fino. Apenas uma mãe  terá negado que a professora exigiu 1500 escudos.

No regresso, fomos recebidos no Rossio, ao pé da casa do marceneiro Júlio Dias, mais tarde transformada na loja da Cooperativa do Fratel, situada quase em frente do que era a loja da padaria, fomos recebidos em festa e com a expressão de alegria no ar proferida por várias pessoas: nós ganhámos. Era uma expressão de revolta, hoje insignificante, mas na altura era vista como reação a um problema de classes, entre pobres e supostos ricos, mas na terra não havia ricos, havia muitos pobres e apenas alguns remediados…

Entretanto a professora foi proibida de dar explicações a dinheiro aos seus alunos. Deixou de o fazer. Só admitia alunos para a admissão ao liceu que já tivessem feito a quarta classe, continuando aí a poder levar os seus 1500 escudos. Creio que foste uma vítima, meu caro Zé Eduardo, perdendo um ano escolar, para fazeres a admissão um ano mais tarde, e o sistema, diremos nós, provou assim que eu estava enganado, provou que era um sistema injusto, mas capaz de saber passar por ser o seu contrário. Mas disto eu não tive clara consciência, só mais tarde a tive enquanto marçano e depois operário.

Segundo constou, na altura terá sido metida uma cunha ao Engenheiro Araújo Correia, amigo de Salazar, e terá sido essa cunha que a salvou de maior penalização. E seria uma pena que deixasse de lecionar pois era uma professora extraordinária, apesar das reguadas, mas isso era o sinal dos tempos de então, em que ir à escola primária em vez de estar a brincar não era ainda tomado como um acquis cultural, mas sim como um enorme constrangimento. No entanto, também era uma pena, e ainda maior, que muitos de nós não pudéssemos fazer a admissão ao liceu no tempo devido e, se queríamos fazê-la, teríamos de perder um ano e fazê-la depois de ter já feito a quarta-classe. Neste caso, para o sistema já não havia conflito de interesses, o sistema permitia que o baixo salário que era pago fosse compensado por uns extras como as compensações obtidas com as receitas da admissão ao liceu e reforçava-se,  assim, o filtro social na ascensão escolar.

A história da carta ao ministro é, em síntese, esta” Fim de citação.

Para dar uma ideia de como viveu a geração seguinte à minha, a da década dos anos sessenta, aqui vos deixo um testemunho de um amigo meu, um pouco mais novo, nascido num dos povoados que fazem parte da freguesia de Fratel e que fez a quarta classe na mesma escola que eu.

A vida escolar (1955) começou aos 7 anos, com entrada no posto escolar, onde uma professora, (Nazaré, regente escolar) cuja escola era em sua casa, acolhia os alunos, (mais 30) da primeira à terceira classe das aldeias vizinhas. Nessas condições difíceis, os alunos faziam a primeira classe em dois anos, a “primeira atrasada e a “primeira adiantada”, correspondendo às duas partes do livro de leitura. Felizmente creio que fui talvez o primeiro aluno a quebrar esta regra, fazendo a primeira classe em apenas um ano, possivelmente por o meu pai ter feito a quarta classe e poder ajudar, se necessário.

Após o exame da terceira classe, os alunos que podiam continuar a estudar para a quarta classe, eram obrigados a frequentar a escola oficial da freguesia (Fratel) que distanciava cerca de 4 Km, percorridos a pé pelos caminhos que levavam à escola. Lembro que  no inverno, nos dias de chuva, ficávamos molhados até à hora do almoço, que levávamos de casa e éramos recebidos em casa dos alunos da aldeia, onde comíamos e nos aquecíamos. Fui amavelmente recebido em casa do Augusto Inácio.

Na escola oficial, apesar de bom aluno, fui obrigado a atrasar um ano (que passei a ensinar os outros) porque a professora (Bárbara Martins) recebia, creio que 1500 escudos, pela suposta preparação para o exame de admissão ao Liceu ou à escola Comercial e Industrial. Não esqueci este ano perdido, que muitos também sofreram na pele e a todos atrasou a vida.

Após o exame de admissão começava a parte mais difícil a que muito poucos tinham acesso devido às precárias condições económicas das gentes da freguesia. O mais usual era a ida para Castelo Branco, onde ficávamos hospedados em casas de recebiam estudantes em troca de algum dinheiro e de um cabaz alimentar que os familiares semanalmente levavam à cidade. A viagem dos familiares para a cidade não era fácil, obrigando a 7- 10 km, até ao comboio que levava à cidade, geralmente usando animais de carga.

As visitas às aldeias e família eram apenas nas férias.

Este foi um exemplo, entre alguns mais fáceis, outros mais difíceis, mas os sacrifícios foram de inestimável valor para o futuro de quem deles pode beneficiar.

Este é o mundo de onde eu parti e pelo que sei hoje, não será muito diferente do mundo em que tu cresceste embora o teu mundo tenha sido muito menos duro que aquele que acaba de ser acima descrito. Naturalmente assim, os tempos eram já outros. Há, portanto, um sentimento de classe que se ganha nesses e desses tempos e que nunca mais se perde, a menos que … se perca o quadro de valores, e de sentimentos, que constituem a nossa matriz de infância e da adolescência. No mundo atual, assiste-se cada vez mais à perda deste quadro de valores[iii] ( emocionais e culturais) que é substituído pelo quadro de valores de uma carreira a alcançar. Pela parte que me diz respeito eu não perdi essa matriz, colou-se-me à alma e ainda hoje dá cor à minha pele.

Admito que a passagem, de um quadro de valores a outro possa levar tempo, muito tempo, o tempo em que nos transformamos noutra pessoa e com o mesmo nome. Desse ponto de vista e no campo das ideias, Perry Anderson assinala-nos três nomes, em termos de exemplos de referência mundial: Rawls, Habermas e Bobbio, aos quais adiciono ainda Roger Garaudy e Lucio Colletti bem mais antigos, mas a lista poderia ser muito longa.

No teu caso assinalo duas intervenções tuas que considero típicas do que acabo de dizer. A primeira delas foi uma tua intervenção na televisão ocorrida no mês de agosto. Simplesmente gostei, e gostei mesmo muito. Falaste do problema dos jovens adultos à saída do liceu e à entrada na Universidade, falavas da transposição dos estudantes das pequenas cidades para as grandes cidades, para as grandes Universidades, falavas dos múltiplos apoios que estes jovens poderiam precisar e a todos os níveis, entre os quais os apoios psicológicos ou de saúde mental[iv]. Sinceramente haja a coragem de criar Serviços Sociais em cada uma das Universidades dedicados aos apoios de diversos tipos aos nossos estudantes. A maioria deles são jovens adultos muito imaturos, gente deslocada fora da família, não o esqueçamos.

Nesse teu discurso, sinceramente não era o Ministro da Educação que falava, daí o meu tratamento na segunda pessoa do singular, era o pai cuidadoso, era o pai atento ao crescimento dos seus filhos, era o cidadão atento à sociedade do seu tempo e dos seus problemas. Nunca vi um ministro da Educação falar assim, tão humanamente assim. Era como se este papel de ministro estivesse ausente totalmente, como se este fosse reduzido a zero. Gostei, gostei mesmo muito.

Depois, já em setembro, uma outra intervenção sobre os estudantes de medicina, sobre a internacionalização do ensino. Aí a imagem que me deste foi mais curiosa: davas a sensação de que estavas a fazer um discurso de obrigação, a vestir um fato que não estava à tua medida, um discurso cujas palavras não eram por ti sentidas e os termos modernidade, competitividade, atratividade, concorrência estavam lá todos. Parecias o Álvaro Garrido a defender a FEUC nestes mesmos termos no Diário das Beiras, mas incomodando-te esse facto, o de vestires um fato que sentias que não era o teu. Em resumo, esta segunda intervenção diz-me que a tua transformação de cidadão humanamente atento para o papel de ministro humanamente desatento está a funcionar, mas não em pleno. Dito de outra forma, o mundo dos sem nada de onde vieste ainda tem na tua interioridade muitas raízes a oferecer resistência ao trabalho de transformação da tua pessoa-cidadão-pai em cidadão-ministro que queres continuar a ser. Penso, porém, que muito rapidamente te irás colocar no papel de ministro apenas e ignorar o papel de cidadão. Como é evidente, preferiria o percurso inverso.

Abandonando o aspeto panfletário de Marx e o rigorismo formal de Hegel quanto à repetição da História, preferimos a visão mais suave de Mark Twain, para quem a História não se repete, mas que rima, rima que talvez se encaixe melhor nesta minha narrativa. Agora, 2024, aqui estou eu, não a escrever ao Fernando Alexandre, mas ao Ministro da Educação e o tratamento terá, portanto, de ser outro, o da terceira pessoa do singular.

Senhor Ministro, a  rima vem de onde, uma vez que até aqui falei apenas de tempos idos? A rima vem de que esta carta é um protesto contra o que se faz hoje no ensino, seja ele primário, secundário ou universitário e, enquanto tal, rima, rima mesmo com o protesto que fiz em 1954, com 11 anos. Setenta anos, estou a fazer o mesmo, eis pois a rima.

O fascismo estrangulava o ensino de múltiplas maneiras e uma delas era o exame de admissão feito a partir de um ensino que era de qualidade. Falamos do tempo de Salazar, e o único sentido que vejo para a existência deste exame era o de ser rigorosamente mais um filtro social de bloqueio aos menos favorecidos pela sorte de nascença. Hoje não temos admissão ao liceu e os alunos que entram no 5º ano sabem muito menos do que os estudantes da primária de então e com força de razão, ninguém pede um exame de admissão. Este existia, então, porquê? Do ponto de vista do ensino não teria nenhuma lógica, a não ser um elemento de filtragem social, um elemento na seleção de classes, daí o meu protesto, um protesto que volto a fazer 70 anos depois.

Curiosamente, o filtro continua a ser o mesmo: o dinheiro. No tempo de Salazar quem tinha podia, quem tinha dinheiro tinha acesso aos diferentes níveis de ensino, quem não tinha não podia. No mundo rural, a maioria do país, apenas se garantia o primário, mas gratuito e de qualidade, porque aí não existia mais nada. Para muitas crianças, caminhar para lá da primária, só nos centros urbanos e aqui era preciso dinheiro e este não havia. No tempo de hoje, massificou-se o ensino e a seleção é de novo estabelecida pelo dinheiro: degrada-se o ensino público, expande-se o ensino privado para quem tem dinheiro e, a seguir, tem-se pela frente toda uma série de diferenciações até aos mestrados e doutoramentos pagos a peso de ouro.

Há setenta anos eu, uma criança de 11 anos, protestava junto do Ministro da Educação não por mim, estava já fora da carroça, mas pelos colegas que se seguiriam a mim a acabar a escola primária. Hoje, um velho de 81 anos que eu sou, protesto, Senhor Ministro, pela minha neta e por todos aqueles que, como ela, serão levados ao grau zero do ensino pelo ensino digital que lhes será imposto e pelas condições materiais e humanas em que o mesmo será aplicado. Trata-se de alunos que fizeram a primária em Covid. Terá o senhor Ministro consciência do que isso significa? Penso que o cidadão Fernando Alexandre, a terá, penso que o ministro Fernando Alexandre a ignorará., mas é a este que estou a escrever. Se o ministro tivesse consciência disso não teria permitido que estes jovens, a iniciar um novo ciclo de estudos, entrassem no Ciclo pela porta do digital.

Ao ministro a quem agora escrevo sugiro que visite, por exemplo,  a escola Martim de Freitas em Coimbra, assista ao servir de uma refeição de arroz com atum ou de peixe cozido com massa, visite uma sala de aulas com alunos que não sabem português, entre no recreio dos alunos onde já nem há toque de campainha, e, sobretudo, tenha uma reunião com o pessoal auxiliar e indague das suas condições de trabalho. Os inspetores da Autoridade para as Condições do de Trabalho (ACT) devem ter entrado em burnout para não se preocuparem com isto. Indague ainda da qualidade dos computadores. O que aí se passa é comum a muitas das escolas deste país onde a descentralização de funções do governo Costa foi um empurrar com a barriga para a frente. Mas nada se tem feito para mudar a situação. Visite depois mais algumas escolas da região e questione o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra pelo que terá visto. Tem de haver responsáveis pela transformação do sistema de ensino nacional, da escola primária à universidade, de crianças a adolescentes, de adolescentes a jovens adultos, numa enorme “fábrica de cretinos digitais”. Os filhos e netos das gentes do meu país merecem mais respeito e o mesmo respeito se exige para com as crianças dos migrantes e estes também bem precisam de outras soluções para o seu desenvolvimento mental, bem diferentes da que tem sido aplicada.

Sobre o ensino digital, publiquei neste verão um texto intitulado Considerações sobre o Ensino em Portugal de que aqui reproduzo alguns excertos:

“Quanto ao ensino, diz-nos o Público:

“Governo quer avaliar impacto dos manuais digitais e suspende alargamento a mais turmas do 1.º ciclo e secundário

Ministério da Educação põe algum travão no alargamento do projeto piloto dos manuais digitais, que vai entrar no quinto ano “sem que tenha sido avaliado o seu impacto na aprendizagem dos alunos”.

No próximo ano letivo, o Ministério da Educação não vai alargar o projeto-piloto dos manuais digitais a mais turmas do 1.º ciclo e do ensino secundário, já que quer avaliar o seu impacto na aprendizagem dos alunos. Assim, este projeto-piloto, que vem sendo implementado desde há quatro anos, vai manter-se “nos mesmos moldes para turmas do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico” (do 5.º ao 9.º ano) e será suspensa a integração de novas turmas nos restantes níveis de ensino, avançou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) em resposta a questões do PÚBLICO”. Esqueceram-se de dizer que não há turmas novas, há alunos novos para turmas ”velhas”. Mesmo no sentido de parar para analisar, então seria o resultado dos estudantes já entrados que deveria ser analisado ao longo do seu ciclo de estudos, não colocando até mais alunos nesse mesmo sistema. Tenhamos vergonha, é o mínimo que se pede.

Por detrás de tudo isto, tem-se uma certeza: os estudantes deixarão de ter livros em papel, terão livros num miniecrã para poderem cansar a vista à vontade e poderem deixar de saber escrever manualmente. Será que depois se irão seguir as provas de exame também elas em formato digital, aquilo que os autores da contrarreforma já estão a fazer nas Universidades? É lógico supor este cenário tanto mais que, quanto menos escreverem manualmente, mais difícil será para os professores lerem as respostas nas provas de exame. Naturalmente assim. Ao que parece, neste contexto do digital, toda a gente poderá pensar que se fica a ganhar com a digitalização do ensino, mas uma coisa é certa, o país ficará profundamente a perder e se dúvidas há, leia-se, por exemplo, Jonathan Haidt e a sua obra Geração Ansiosa.

Bom, a digitalização do ensino está em marcha e, desde há quatro anos, sem que isso tenha sido posto em questão. Nem agora o é, simplesmente o ministro Fernando Alexandre entende que deve ser medido o impacto da digitalização do ensino. Nisso, o meu antigo aluno, o atual ministro Fernando Alexandre, parece ser bem mais sério que os tecnocratas neoliberais do PS, e estes a serem supostamente de esquerda. Estes neoliberais ditos de esquerda ignoraram, inclusive, que estavam a aplicar a digitalização do ensino à geração mais vitimizada de todas as que frequentam o ensino: apanharam o ensino à distância e com os mesmos programas como se nada se passasse na primeira e segunda classe. Uma vergonha.

Curiosamente, veja-se, eu vi o caso de Coimbra, onde é que a burguesia coloca os seus filhos: nos ensinos integrados, públicos e, sobretudo, no ensino privado, não na escola pública de ensino geral do tipo Martim de Freitas e/ou equivalentes. Não é por acaso. O filtro de classe a funcionar em pleno e é um filtro criado pelos neoliberais socialistas, a fazer-me lembrar um amigo meu, um homem da Iniciativa Liberal que me dizia: eu fiz a escola pública, as minhas filhas fizeram a escola pública, os meus netos fazem hoje a escola privada. Entenda isto como quiser. E, pessoalmente, entendi!

Este projeto da digitalização do ensino do PS pode ser visto em paralelo com o que a mesma Administração PS pensava sobre o Ensino Superior e em que todas as Universidades esconderam a fraude que foi a avaliação dessa altura, o período do Covid. Os professores terão mais tempo para investigar dizia, ufano, um dos responsáveis de ensino superior no tempo de António Costa. Com efeito noticiava O Observador:

“Secretário de Estado do Ensino Superior defende menos carga letiva no ensino superior

O secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apontou como um dos impactos da pandemia da Covid-19 no ensino superior a perceção de que é possível ensinar com menos carga letiva.

Os alunos do ensino superior devem passar a ter menos tempo letivo, defendeu esta quarta-feira o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, lembrando que “Portugal tem uma das maiores cargas horárias semanais”.

Em entrevista à Fórum Estudante, o secretário de Estado João Sobrinho Teixeira apontou como um dos impactos da pandemia da Covid-19 no ensino superior a perceção de que é possível ensinar com menos carga letiva, que classificou de “excessiva”.

Desde 16 de março que todos os estabelecimentos de ensino em Portugal estão de portas encerradas, para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, e na maior parte dos casos as aulas presenciais foram substituídas por aulas à distância.

Esta quarta-feira, o governante lembrou que “Portugal tem uma das maiores cargas horárias por semana” e que a imposição de isolamento social veio trazer um “abanão às aulas presenciais”.

Para Sobrinho Teixeira deve passar a haver “menor carga letiva” e as escolas devem começar a “trabalhar com os estudantes recorrendo a outras ferramentas“, num ensino também baseado em projetos.

O desafio é conseguir ensinar “de uma forma mais eficaz para que os nossos estudantes possam aprender”.

Com menos aulas, também os professores do ensino superior podem ficar com mais tempo para a investigação.” Fim de citação. Os sublinhados são do jornal.

Um exemplo desta lógica podemos vê-la na reforma do ensino feita na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde o terceiro e último ano da licenciatura em Economia ficou apenas com uma disciplina obrigatória de Economia. O resto das disciplinas ditas de economia é pura poeira para os olhos e só não vê quem quer passar por ser completamente cego. Veja-se o exemplo de Economia Internacional, disciplina que ensinei durante quase trinta anos. Trata-se de uma disciplina que exige bom suporte económico teoricamente apreendido nos anos anteriores e mais, pressupõe também, o domínio das matemáticas, entendidas estas não como um fim em si-mesmas, mas apenas como um meio para uma boa aprendizagem das matérias aí lecionadas. Ora, na mesma linha de pensamento que a autoridade do PS acima referida, reduziu-se as matemáticas gerais de 4 semestres para dois semestres. E o ramo das matemáticas completa-se com um semestre de Estatística e um semestre de Econometria.

Isto significará apenas menos carga letiva em Matemática, dir-se-á! Não, dizer isto, é dizer uma mentira. Reduziu-se, isso sim, e drasticamente tudo o que tem a ver direta ou indiretamente com a matemática. Alunos menos preparados em matemática farão uma cadeira de Estatística de menor qualidade e alunos com menos matemáticas gerais e com menos estatística farão obrigatoriamente uma disciplina de Econometria de menor qualidade. Estes mesmos alunos farão consequentemente uma disciplina de Economia Internacional de menor qualidade. Em suma o curso resumir-se-á a um conjunto de trivialidades. Mas, mais grave ainda; se os alunos saem com uma licenciatura de menor qualidade, farão então um mestrado de menor qualidade, impossível ser de outra maneira, e, na sua sequência, farão um doutoramento também ele de nível mais baixo. Tudo cai a pique, tudo se torna mais fácil para o nosso estudante rei, encartado como ignorante, mas com direito a ser tratado como rei. Imagine-se esta sequência, ano após ano, na geração alfa que apanhou com o Covid na primária e o digital no Ciclo seguinte, até chegar à Universidade!

Este é o panorama geral das Universidades em Portugal e os responsáveis são os ministros da tutela, os reitores com r minúsculo, os diretores das Faculdades, as agências de creditação, os ditos analistas independentes que com uma folha Excel certificam estes cursos, todos eles, em conjunto, são os responsáveis pela pauperização intelectual absoluta que se vive no Ensino Superior em Portugal.

É assim que me atrevo a interpretar o seguinte poster da Reitoria, publicado no âmbito da sua campanha de atratividade de estudantes para a Universidade de Coimbra.

[iii]No teu caso, penso que a mudança “de base” de valores se passa a fazer a partir do momento em que passaste a fazer parte da Administração Passos Coelho que governou o país a mando da Troika e poderá ser concluída quando deixares de ser Ministro da Educação e passares ao nível seguinte da vida política. Chegados aqui, a mudança de base estará feita e o homem- cidadão terá sido engolido pelo homem-político e pelas circunstâncias do sistema em que este se sustenta. De novo, Marx e as circunstâncias

Quando à política seguida pelo governo a que pertencias relembro aqui o que escreveu muito recentemente Adam Tooze a propósito do relatório Draghi:

 “. O relatório Draghi sublinha que a UE, apesar de toda a sofisticação da sua governação, já não oferece ao capital europeu a plataforma para enfrentar a concorrência global à escala dos EUA ou da China. A resposta não está nas estratégias de deflação interna à custa dos trabalhadores europeus, nem na contenção da despesa pública. O que é necessário são mercados maiores, mais investimento e mais inovação. O que é necessário é uma reorientação fundamental da política no sentido de um crescimento orientado para a procura e a inovação. Defender o status quo, como defendem os conservadores europeus tanto na política industrial como na política orçamental, não oferece segurança, mas apenas uma receita para um maior declínio relativo e dependência da inovação tecnológica proveniente dos EUA e da China.” (original aqui) Em suma, sugere-se que deveria ter sido feito o contrário do que foi feito.

Senhor Ministro, a sua posição relativamente ao ensino digital mostra claramente que na sua pessoa é cada vez mais relevante a figura de ministro enquanto, simetricamente, é cada vez menos relevante a figura do cidadão. Como cidadão não creio que discorde do que acima escrevo, enquanto como ministro o senhor se limita a não expandir o número de turmas do ensino digital até nova análise da experiência, ou seja, continua a consentir que haja mais alunos neste tipo de ensino. Uma falta enorme de coragem política em termos de cidadania é o que neste momento devo admitir quanto ao seu comportamento como ministro sobre esta matéria.

Esta questão é para mim demasiado séria. A primeira atitude que tomei foi a de comprar em papel todos os livros indicados. Em casa estudará pelos livros. Não entendo um estudante sem livros e creio que o cidadão Fernando Alexandre[v] também não, mas o ministro, esse sim, esse entende e, porque entende, consente. A segunda atitude levou-me a equacionar a hipótese de colocar a minha neta no ensino privado ou ver como vai andar a carroça e salvaguardar as duas disciplinas de base para este ano, português e matemática, com explicadores se necessário[vi] e depois, no próximo ano, se verá[vii].

A hipótese de ir diretamente para o privado é a última opção porque se o fizer este ano sentir-me-ei obrigado depois a fazê-lo todos os anos para não se perder a malha de amizades que, entretanto, terá criado no quadro desta hipótese. Mas esta hipótese é para mim a negação de muita coisa inclusive a negação da posição da criança que eu fui: na altura eu considerava que vivia num sistema justo com alguma gente injusta; a obrigação de ir para o privado dir-me-á que vivo agora num sistema injusto com alguma gente justa. Mas estamos em Democracia! Estarei eu a pensar que a Democracia é um sistema injusto? De modo nenhum, estou apenas a dizer que cada vez mais se tem o sentimento de que se vive num sistema que não é mais do que um simulacro do que se pode entender por Democracia. O que se passa, por exemplo, com a Justiça, com a Saúde, com a Política Migratória, com a Política Habitacional, assim como o que se tem passado no Ensino nestes últimos anos,  são claras ilustrações disso mesmo. Ironia dos Diabos. No caso do ensino, digamo-lo de forma mais crua: os supostos democratas no poder estão a criar um ensino de muito menor qualidade que no tempo do fascismo. Onde está o erro?

Adicionemos a este ensino digital ainda uma outra situação adicional: como é que se faz um ensino de qualidade com muitos alunos estrangeiros que nem sabem português. No Algarve, os capitalistas sabem como: compram escolas privadas e sobem as propinas: disseram-me que há propinas a 1000 euros mês. Se isto é verdade, não é isto fascismo? Se o é, como é que se aceita isso e silenciosamente?

Nestas férias da Páscoa conheci uma professora em Faro e um aluno do 12º ano do Liceu Nacional de Faro e com eles falei muito tempo sobre ensino. Escrevi um longo texto sobre o tema educação. Aqui deixo um excerto desse texto:

“Falou-se do ensino técnico-profissional, quer de Paço de Arcos, quer de Faro, quer da escola onde andou o filho desta nossa visitante, que concluiu o seu curso com “especialização” em equitação. Sobre Paço de Arcos ficámos a saber que muitos dos profissionais de profissões fisicamente difíceis vêm destes ambientes socialmente complicados. Quanto a Faro, falou-se de gente que suportou, com muita dificuldade, o choque da crise Covid, arrastando-se num estado de depressão. Curiosamente esse efeito depressivo, no caso de Faro, será mais evidente nos jovens que frequentam o ensino técnico-profissional do que nos jovens que frequentam o ensino liceal clássico. A diferença, compreende-se, é o resultado da diferença social dos meios em que vivem uns e outros.

Se isto é verdade, e não tenho razões para duvidar disso, esta realidade mostra o que eu já senti em muitos estudantes da Universidade de Coimbra: há uma terrível falta de apoio à juventude e era necessário que se olhasse para a saúde mental, para a saúde física e até para a saúde intelectual[viii] dos nossos jovens como prevenção contra males maiores que poderão aparecer no futuro com os ignorantes que estamos agora a criar.

Uma política de apoio à juventude custa dinheiro, talvez muito dinheiro, mas é necessário escolher, entre o retorno ao passado que a atual conjuntura política permite antever, e os caminhos de esperança no futuro que é necessário abrir e que será possível com essa mesma juventude construir. Esta última via sairia mais barata ao País do que os pesados custos que a primeira via irá logicamente acarretar a médio e longo prazo. Penso que é urgente pensar-se nisto, porque pensar no futuro dos nossos filhos e netos é bem mais importante do que as contas certas de Centeno e de Medina, e também das contas certas que a União Europeia irá obrigar a atual coligação, uma coligação que vai da direita (PSD) à extrema-direita (CDS) com este partido a querer situar-se ainda mais a direita que o próprio Chega.

No meio da conversa, incomodado, coloco uma pergunta: “no ensino privado e numa boa escola de quanto é o valor das propinas agora.”

“Cerca de 1000 euros mês em regime de externato no primeiro ciclo ”, foi a resposta

Mas continuemos a expor a nossa conversa sobre educação. O ensino privado atinge assim preços impossíveis para a quase totalidade dos algarvios. É certo que há muitos estrangeiros a residir no Algarve e alguma gente muito endinheirada. É igualmente certo de que muitos outros estudantes poderão vir do estrangeiro e com eles, até porque são jovens, podem vir também os pais. Há aqui uma aposta de qualidade no ensino, uma aposta sobre gente altamente selecionada. E gente fina é outra coisa. É sempre assim, há os que têm e os que não têm. Estes últimos são para esquecer, aqueles são para receber e de braços abertos e para eles haverá sempre casas disponíveis. A gentrificação encarrega-se de as disponibilizar.

E em paralelo, “como está o ensino público?”, perguntei eu a esta professora. Com a voz embargada pela emoção diz-me: “Há turmas em que cerca de 50 por cento dos alunos são estrangeiros. Muitos deles mal sabem inglês ou até nem o sabem. Como é que se ensina nestas condições? Mas mais ainda: como é que nestas salas se pode ensinar em condições aos portugueses?” Fim de citação do meu próprio texto.

À falta de coragem política assinalada a propósito do ensino digital encontramos uma outra situação do mesmo tipo, com a utilização dos telemóveis. O governo PS, na sua visão reformista do ensino nunca foi capaz de proibir o uso dos telemóveis nas escolas. Isso poderia tirar votos! O senhor ministro Fernando Alexandre tem outra consciência da questão, claramente mais consciente do que a das gentes do PS, e recomenda a proibição de utilização de telemóveis nas escolas. Um pequeno avanço face ao PS, mas não passa disso, recomenda apenas, não tem a coragem política de simplesmente proibir a utilização dos telemóveis durante os tempos de permanência na escola. Ter consciência, não chega, é preciso ação que a materialize.

Veja -se o que nos diz um especialista sobre. o uso e abuso dos telemóveis em crianças:

“O principal efeito destas tecnologias é, portanto, a atomização, precisamente aquilo que a ligação às redes globais deveria ultrapassar. O que se conseguiu com a ubiquidade dos smartphones foi o isolamento em massa. Por outras palavras, os produtos da Big Tech distorcem e diminuem a parte da natureza humana a que hoje chamamos “social”, mas que há séculos Aristóteles chamava “política”. Compreender isto justifica a posição de Haidt de que uma “existência baseada no telefone” – ou seja, a nossa existência – é simplesmente “desumana“.

Para sempre noutro lugar, nada em comum

A imagem de Haidt de uma sociedade inteira que está “para sempre noutro lugar” é, fundamentalmente, uma sociedade que não vê nada em comum. O “público” é o mundo que todos os homens podem ver. O “privado” é o que um homem – com alguns entes queridos ao seu lado – vê sozinho. Como as redes sociais não têm corpo, nunca poderão ser um verdadeiro público. Nas redes sociais, que são altamente personalizadas e individualizadas, não existe uma visão partilhada, apenas milhões de visões privadas mercantilizadas que são agrupadas por algoritmos.

Uma vida pública genuína não pode assentar numa tal efemeridade. A base de um verdadeiro público é um mundo fabricado pelo homem que está concreta e comummente disponível para as perceções sensoriais de todos. Hannah Arendt afirmou em vários lugares que o poder coletivo dos sentidos, treinados sobre os mesmos conjuntos de objetos, constitui a pedra angular da comunidade. Pense-se na praça pública tradicional, que se apresenta aos olhos de todos e, assim, fundamenta os jogos coletivos, o comércio, a festa, o debate, a política e muitas outras coisas. Arendt explica:

a experiência do mundo material e sensorialmente dado depende do meu contacto com outros homens, do nosso sentido comum que regula e controla todos os outros sentidos e sem o qual cada um de nós estaria fechado na sua própria particularidade de dados sensoriais que, em si mesmos, não são fiáveis e são traiçoeiros. Só porque temos senso comum, isto é, só porque não é um homem, mas homens no plural a habitarem a terra, é que podemos confiar na nossa experiência sensual imediata.

Já não temos esse senso comum. Com os ecrãs a eclipsarem perpetuamente as nossas visões do mundo criado pelo homem e com os algoritmos a conduzirem-nos a tocas de coelho individualizadas, o público – tanto como lugar como como povo – já não existe. Não pode haver público e, por conseguinte, não pode haver política, não pode haver ação de grupo em prol de bens comuns, sem uma “realidade consensual”, como lhe chamou Jon Askonas, que é vista e ouvida coletivamente. Arendt coloca a questão da seguinte forma em A Condição Humana: “ser privado da realidade que advém do facto de ser visto e ouvido pelos outros” é ser lançado na “falta de mundo”.

Estar sem mundo é estar no estado objetivo de isolamento que Arendt descreveu de forma célebre como uma impotência que pré-condiciona a manipulação ideológica. Arendt diz o seguinte nas páginas finais de As Origens do Totalitarismo, o seu estudo monumental sobre a ascensão do estalinismo e do nacional-socialismo:

O isolamento pode ser o início do terror; é certamente o seu terreno mais fértil; é sempre o seu resultado. Este isolamento é, por assim dizer, pré-totalitário; a sua marca é a impotência, na medida em que o poder provém sempre de homens que atuam em conjunto… os homens isolados são impotentes por definição. (…)

Este é um contexto útil porque-embora a famosa demonstração de Jean Twenge da ligação entre o aumento da utilização omnipresente de smartphones e o aumento chocante da crise de saúde mental da Geração Z seja completamente convincente[ix].” Fim de citação

Poder-me-á argumentar que há um outro problema, a ansiedade dos pais. Isso é certo, mas será sempre mais fácil lidar com a ansiedade dos pais do que criar níveis perigosos de ansiedade nas crianças. Aqui haveria um trabalho a fazer nas escolas e  nestas poder-se-ia começar pela distribuição de um outro texto explicativo do problema. Eu relembro o que se confirmou nos Estados Unidos[x]: mesmo um telemóvel desligado no bolso de uma criança baixa o seu nível de concentração. Quanto a textos distribuídos aos pais poder-se-ia começar pelo texto divulgado pela Direção-Geral do Ensino intitulado Uso dos telemóveis no Espaço Escolar: Revisão da Literatura e Orientações Práticas (original aqui) onde se diz, por exemplo, o seguinte:

“A estimulação sensorial crónica (associada à dependência do telemóvel e à exposição excessiva a um ecrã) pode afetar o desenvolvimento cerebral de forma negativa, uma vez que se comprova que está associada ao aumento do risco de alterações cognitivas, comportamentais e emocionais, com risco aumentado de demência na adulticia. Numa revisão de 44 estudos, em 16 países, comprovou-se que o tempo de ecrã está associado ao aumento de problemas de saúde mental (já reportados em cima) e, ainda, à lentificação dos processos de aprendizagem, à dificuldade na aquisição de conhecimento (memória) e ao aumento de risco prematuro de declínio cognitivo (Neophytou, Manwell, & Eikelboom, 2019);(…)

No isolamento social, com impacto direto na saúde mental e no bem-estar geral. As crianças e adolescentes que têm acesso cada vez mais precoce a um telemóvel estão em risco mais elevado, uma vez que não amadureceram as suas competências emocionais e sociais, ligadas à autorregulação das suas emoções e comportamentos. Apesar dos estudos apontarem a idade (mais novos) e o sexo feminino como fatores de risco associados à dependência do telemóvel e das redes socais e subsequentes dificuldades na comunicação, importa referir que o sexo masculino usa o telemóvel preferencialmente para jogar, que em si tem também uma componente de socialização online – e, assim, poderá acontecer o mesmo fenómeno, de isolamento social, em ambos os sexos.” Fim de citação

Filme-se uma qualquer escola à hora do recreio e confirmar-se-á esta tristeza: não há recreio, há maioritariamente muitas crianças cada uma delas agarrada ao seu telemóvel. Uma multidão de gente sozinha!

Mas há alguma razão em pensar que o maior obstáculo serão os pais. Não podemos esquecer que a maioria dos pais com jovens de menos de 20 anos terão pertencido ao que Vicente Jorge Silva apelidou de geração rasca. Escreveu ele:

“Geração rasca?

O drama que estas manifestações vieram agora pôr a nu com toda a clareza é que a escola e a sociedade — com ou sem provas globais — estão a formar uma geração malcriada e mal-educada. E é preciso acrescentar que os meios de comunicação social têm nisto uma responsabilidade indiscutível, na forma frequentemente acrítica e benevolente com que vêm registando manifestações onde os sinais de festividade rasca eram já perfeitamente visíveis e intoleráveis. São responsabilidades que também partilhamos neste jornal, mas que deveriam ser sobretudo assumidas pelas televisões que começaram por filmar os protestos estudantis como actos quase heroicos e antifascistas.” Fim de citação. Original aqui

Mas o papel dos políticos quando sérios não é ir atrás da irracionalidade das massas; quando tal irracionalidade se verifica isso significa que haveria aí um papel político importante a realizar e com seriedade como contraponto dessa irracionalidade, em vez de se enfiar a cabeça na areia como se tem feito até aqui e desde há décadas.

Caro Fernando Alexandre, Exmo Senhor Ministro, o texto vai longo, muito mais havia a dizer sobre o ensino; para ser uma carta aberta, fiquemo-nos, pois, por aqui. Como protesto, cumpro o meu dever, lutar por um país melhor no seu presente e por uma juventude com melhor futuro. Como cidadão espero que este texto seja lido pelo seu destinatário principal, o meu antigo aluno Fernando Alexandre, mas dele enquanto ministro nada tenho a esperar.

Coimbra, 21 de setembro de 2024

Júlio Marques Mota

NOTAS

[i] Falando do aluno Fernando Alexandre, lembro-me de ti como estudante da licenciatura, como aluno de mestrado, como meu orientando em mestrado, lembro-me da alta qualidade da tua tese de mestrado que não precisou de ser revista pelo Joaquim Feio, dada a sua qualidade, lembro-me da tua participação em atividades circum-escolares comigo, lembro-me de ti como estudante culturalmente bem diferenciado. Portanto, não podes imaginar que haja cultura e conhecimento sem livros.
[ii]Estou a falar de uma menina que vem do quadro de honra da escola primária. O que levou anos a fazer pode rapidamente ser desfeito nestas condições de ensino pelo que a defesa deste acquis de capacidade de aprendizagem aparece-me no horizonte como uma necessidade.
[iii]Mesmo esta hipótese não é simples. A minha neta anda em aulas de música e de pintura, como atividades circum-escolares. Adicionar tempo de explicações significa “roubar tempo” à criança que ela é e que também precisa de brincar. Precisa de ser criança, simplesmente isso. Neste contexto, levantar-se-á a velha questão que vem da Revolução Francesa: a de ter de optar por tempo de instrução ( a escola) ou por tempo de educação- as atividades circum-escolares referidas e o tempo de brincadeira.
[iv]Falo deste tema, saúde intelectual, desde há muito tempo, e já lá vão décadas, sobretudo deste a altura em que li a biografia de uns mais representativos intelectuais ingleses do século XIX: John Stuart Mill. É encantador ver como é que ele de adolescente se transformou em jovem adulto e depois em adulto inteiro, de corpo e alma.
[v]Michael Toscano ( original aqui)
[vi]Veja-se o artigo de Mattew Yglesias Smartphones in schools are bad (disponível aqui)
[vii] Mesmo esta hipótese não é simples. A minha neta anda em aulas de música e de pintura, como atividades circum-escolares. Adicionar tempo de explicações significa “roubar tempo” à criança que ela é e que também precisa de brincar. Precisa de ser criança, simplesmente isso. Neste contexto, levantar-se-á a velha questão que vem da Revolução Francesa: a de ter de optar por tempo de instrução ( a escola) ou por tempo de educação- as atividades circum-escolares referidas e o tempo de brincadeira.
[viii] Falo deste tema, saúde intelectual, desde há muito tempo, e já lá vão décadas, sobretudo deste a altura em que li a biografia de uns mais representativos intelectuais ingleses do século XIX: John Stuart Mill. É encantador ver como é que ele de adolescente se transformou em jovem adulto e depois em adulto inteiro, de corpo e alma.
[ix] Michael Toscano ( original aqui)
[x] Veja-se o artigo de Mattew Yglesias Smartphones in schools are bad (disponível aqui)

 

 

 

 

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