CARTA DE BRAGA – “não andará tudo ligado?” por António Oliveira

Passou no dia 5 mais um ‘dia mundial do professor; assim sem letra maiúscula como mereceria, mas como não deu conta de alguma coisa importante sobre tal data noticiado, atrevo-me a uma reflexão que penso a propósito, ‘Mais de 200.000 alunos estavam, no passado 23 de Setembro, sem pelo menos um professor’, afirmou o ministro Fernando Alexandre, ao DN do dia seguinte. O ministro acrescentou ser um problema a tratar como uma emergência, no concurso a decorrer então.

Talvez o problema esteja ligado a este facto, entre muitos outros: quando um novel professor, com caminho aberto para a frustração pelo fraco ordenado que recebe, ainda tem de enfrentar uma colocação a duzentos quilómetros da sua terra, e com lugares em aberto na proximidade, o que o obriga a alugar uma nova residência (!um só quarto!) onde foi colocado; até conheço um, que há anos mudou a residência de Setúbal para esta cidade, arrastando a família toda, com os inconvenientes de tal mudança.

Li de um outro que do Algarve, teve de se mudar, por um ano, para Viseu, quando a sua província é das mais carentes nesta profissão. Não sei, nem nunca virei a saber, se se terá em conta classificações e origem, ou origem e classificações, ou como foi feito em Berlim em 1885, também se dividiu África em parcelas, talvez com régua e esquadro, sem ter em atenção, povos, culturas e sua implantação, só para satisfazer os interesses de uns quantos, por acaso os mandadores da conferência.

Não sei, nem nunca virei a saber, se quem ‘destina’ tem noção do mapa deste país, do preço dos quartos ou dos mini-apartamentos, que servirão para alojamentos turísticos, mas não para um profissional do ensino, se calhar já arrependido de ter escolhido tal modo de vida.

Mas também fiquei a saber que a falta de professores, fez rebaixar alguns requisitos para se poder dar aulas. Não sei, nem nunca virei a saber se tal medida, é um regresso aos anos sessenta e setenta, de que também beneficiei, ou apenas mais uma maneira para combater, de algum modo, o apelo do ensino privado, onde os professores têm outros atractivos.

Mas, afirma ainda António Carlos Cortez, professor, poeta e crítico literário, numa das suas crónicas no DN, ‘É certo que os professores como força de trabalho essencial aos regimes democráticos sofrem, há dezenas de anos, de ataques sistemáticos por parte da tutela que os deveria, precisamente, proteger e promover, com salários dignos (e europeus) e condições de facto, nesta nobre profissão’.

Uma questão toda revestida de enorme complexidade, resultante de problemas diversos, desde os dos concursos, os das organizações das escolas até às políticas mais ou menos municipalistas dos diferentes partidos, destinados a ‘Fomentar um ensino para arregimentar a baixo preço, a futura força de trabalho, mal paga e acrítica’ acrescenta António Carlos Cortez.

E vai mais longe, ‘Mas a cultura inculta, como discurso e prática, tem uma só explicação: os interesses económicos, venham eles donde vierem. E, já agora, a manutenção dos privilégios de classe, pois é óbvio que, se se destruir o ensino público, é o ensino privado que se enriquece, encontrando, desde as famílias ricas às da classe média, quem pague uma educação que se diz de rigor e de excelência’.

Talvez por isso, um escritor daqui ao lado, Francisco Faraldo de seu nome, escreveu no ‘Publico.es’ de 25 de Abril, ‘Hoje os alunos das escolas, jovens trabalhadores e universitários portugueses, nada sabem do 25 de Abril de 74. Os inquéritos de rua mostram que para a população mais jovem, Otelo era um futebolista brasileiro, Salgueiro Maia um ministro e Rosa Coutinho uma modelo brasileira’.

Ainda no DN, o diplomata e escritor Luís Castro Mendes, escreveu já em Fevereiro passado, embora por outros motivos, ‘É lamentável que a memória da refundação da democracia em Portugal seja hoje abafada pelo clamor das campanhas. Mas, afinal, não será a melhor homenagem ao 25 de Abril a realização de eleições como única saída para resolver todas as crises e nós górdios que estamos a enfrentar? Como Jorge de Sena disse (e mais uma vez passo a palavra aos poetas) na sua Ode ao Futuro”.

 Falareis de nós como de um sonho

(…)

E as tempestades, as desordens, gritos,

violência, escárnio, confusão odienta,

(…) as prisões,

as mortes, o amor vendido,

as lágrimas e as lutas,

o desespero da vida que nos roubam

– apenas uma angústia melancólica,

sobre a qual sonhareis a idade de ouro

 

Saberei algum dia se estas coisas não andarão todas ligadas?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply