‘Quantas vezes invejei os mujiques pelo seu analfabetismo e ignorância. Aquelas teses de fé, que para mim continham evidentes absurdos, não continham, para eles, qualquer falsidade; (…) vi que, em relação a todos os que não professam a sua fé, com os mesmos símbolos exteriores e as mesmas palavras, eles têm, embora o tentem ocultar, uma atitude hostil, o que é natural’.
Estas palavras pertencem a Lev Tolstoi, e pertencem ao cap. XII da ‘Confissão’, editada em Genebra em 1884, depois de ser banida na Rússia e consta da obra ‘Os últimos escritos’, aqui editada em 2018, pela ‘Relógio D’Água’.
Uma introdução em que pretendo salientar como li, de um cronista, o espanto do número de mortes –mais de 42.000, e uma de cada dez, de uma criança ou um jovem, para vingar as de 1.195 jovens inocentes que estavam numa festa– e que o Hamas assassinou. Acrescenta ainda o cronista a macabra proporção de 35 vidas palestinas por uma israelita.
Se regressarmos para aí uns quarenta séculos, até conseguiremos chegar a Talião, ‘o pai’ de uma lei que, em princípio, se destinaria a moderar a raiva das vinganças, (nada de matar dois inimigos se te mataram um só amigo, só poderás matar um), aqui resumida a uma linguagem vulgar que este assunto não mereceria.
Mas, quantos mortos, feridos, fugidos e deserdados, serão necessários para que deixem de ser só um número ou uma estatística, para se constituírem numa condenação universal, e nos obriguem a sair da ‘missa’ do telejornal, o lugar preferido para assistir a estes cerimoniais.
Convém ter em atenção que os mortos também são, como sempre foram, ferramentas políticas que, neste mundo das imagens que nos cercam em permanência, podem levar –como levam sempre– a uma guerra cuja dimensão estávamos longe de prever há um ano. Talvez porque, salienta o escritor Antonio Muñoz Molina, Israel está a mostrar uma sofisticada tecnologia de guerra (e não só), que surpreendeu toda a gente, interna e externamente, de tal maneira que o primeiro ministro Netanyahu se permite atacar instalações das Nações Unidas, proibir a entrada do seu Secretário Geral e pedir a saída do contingente militar, acusando-o de ser escudo humano do Hezbollah.
Aliás, a imprensa internacional salienta, ‘Intensifica-se o pesadelo de Gaza, com bombardeamentos de uma intensidade inusitada, com cenas horríveis’, segundo o enviado das Nações Unidas para a paz no Médio Oriente. O último bombardeamento teve como resultado mais 87 mortos e desaparecidos, adianta o ‘El País’ há três dias.
Bo Bojesen (Danemark)



