Quando a impunidade é longa, não se deve esperar ou exigir a exímia civilidade dos que reclamam o seu fim.
Diz-nos o mural, citando Malcom X: “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”. Quem não consegue distinguir as duas coisas tem má-fé, está toldado pelo ódio ou tem défice de capacidade analítica (eufemismo pouco subtil para dever à inteligência).
Viva a muito justa indignação contra uma polícia e um Estado que, uma e outra vez, mostraram não merecer a confiança dos seus cidadãos. Que cem lutas floresçam até que algo mude.
Os danos colaterais das lutas justas, mesmo que muito lamentáveis, nunca eliminam a justiça das causas que as impulsionaram. E se esses danos colaterais, fruto da raiva contida de décadas, têm responsáveis, eles são, antes de mais, aqueles que pretenderam ignorar, instrumentalizar e silenciar o problema da integração urbana, do racismo e da desadequação da ação policial em Portugal.
Quando a panela de pressão social explode, não se pode controlar os estilhaços da panela. Os movimentos de massas não são reguláveis, como quem sobe ou desce o volume de uma televisão por controlo remoto. O mais provável é passarem do mais profundo silêncio para o mais insuportável ruído. Querem apontar culpas, olhem para aqueles que deixaram durante décadas a panela ao lume ignorando o cozinhar lento das contradições sociais, urbanas e de de desadequada intervenção estatal que, há muito, muito tempo, há quem previna que terminariam aqui.
Em face do que se sabe, da mentira comprovada do Estado para a defesa corporativa de quem matou alguém, surpreendente é que ardam apenas caixotes e autocarros na periferia de Lisboa e não na Avenida da Liberdade.