A ordem ética inicia-se no núcleo familiar. Na educação familiar nasce o primeiro alento e reside o primeiro impulso ético para a conquista da vida. O juízo ético, baseado em emoções, sentimentos e raciocínios produzidos pelo cérebro, não pode ser considerado independente da história evolutiva deste órgão dentro da nossa espécie. Biliões de neurónios, centenas de milhões de conexões por milímetro cúbico de cérebro que se multiplicam constantemente e configuram as estruturas funcionais do cérebro, constituem a base fisiológica das formações psíquicas condicionantes das aprendizagens, nomeadamente da aprendizagem ética. Dado que o crescimento de sinapses neuronais é quase ilimitado na infância, e dado que em adultos vivemos as conexões formadas na infância, já podemos avaliar a importância da construção dos princípios éticos desde que nascemos.
Esta educação visa estabelecer os alicerces fundamentais para a edificação do carácter, da responsabilidade dos actos, da consciência e do desenvolvimento das faculdades críticas. É fundamental os pais serem capazes de ajudar os filhos a aprender a valorizar, a criticar e a pôr em prática as suas capacidades de discernimento, como espectadores, ouvintes ou leitores, tentando evitar o caminho fácil da passividade, da ausência de espírito crítico e da permeabilização à exploração mental. Os pais têm de ver nos filhos uma semente de educação para a liberdade. Tenho muita dificuldade em lidar com normas morais, pelo seu relativismo e por causa das suas, por vezes perversas, contingências. Dentro do multiculturalismo e mesmo dentro da nossa cultura, há comportamentos que parecem moralmente justificados, quando nada têm de ético ou moral se olhados de um ponto de vista racional. Todos nós estamos cheios de ver a enorme falsidade e hipocrisia de que se faz o tecido de tantas instituições tidas como sacrários da moral. Daí eu pensar que a virtude é a capacidade permanente de fazer bem feito o trabalho da liberdade, e o bem é aquilo que essa virtude elege livremente no seio deste trabalho. De qualquer forma é-me difícil não considerar, desde já, como virtudes, hábitos de diligência, seriedade, sinceridade, lealdade, competência, responsabilidade, coragem, perseverança, altruísmo, disponibilidade e solidariedade. Quero dizer-vos, no entanto, que há virtudes estabelecidas que podem não o ser. A tão propalada tolerância, que parece um termo eticamente atraente, pode ser uma palavra injusta, já que quem tolera se pode sobrepor, verticalmente, ao que é tolerado, em presunção de superioridade. A tolerância não é mais do que uma virtude passiva se não aceitar o outro e a diferença. Na democracia dialógica as relações são ordenadas pelo diálogo e não pela posição. À cultura da tolerância, onde muitas vezes a ética se confunde com egocentrismo disfarçado, penso que devemos contrapor a cultura da diferença e da diversidade, altruísta, policêntrica e horizontal, esta sim, uma virtude activa. A diferença sou eu próprio, a diferença é cada um de nós.
Também não sou a favor do consenso pelo consenso, especialmente quando este significa o acordo acima de tudo, a subalternização da diferença, o patamar acima das consciências, a posição acomodatícia, a hipocrisia, a cobardia, o marasmo, a desistência, a segurança dos inseguros, a roda desdentada que rola bem, mas nada produz. Exigir o consenso pode significar não deixar o outro falar, fechar o espaço para o diferente, acabar com o diálogo onde ele devia começar. Nas entranhas do consenso pode a liberdade exalar o seu último suspiro. Sou dos que pensam que a ética, podendo não ser incompatível com o consenso, está na luta, na discussão e no direito de ser minoria.