Não, não estou a brincar! Estou a escrever no domingo, mas ontem, 9 de Novembro, os jornais já noticiaram que o vencedor das eleições (trump), ‘Passou o telefone a Musk, durante uma chamada com Valodimir Zelenski, de acordo com o portal digital Axios, confirmado depois por outros meios de comunicação dos states’.
Aliás o ‘Le Monde’ noticiou também no dia 8, ‘3.247 é o número impressionante de mensagens postadas por Elon Musk em sua conta X entre 5 de outubro e 5 de Novembro, uma média de 101 mensagens por dia endereçadas aos seus 203,4 milhões de assinantes’; e o cronista Damien Leloup, acrescenta no mesmo jornal e no mesmo dia, ‘Em termos de desinformação, Musk supera os serviços russos em recolha de dados, publicidade enganosa, teorias da conspiração… O homem mais rico do mundo, lidera uma campanha na Internet a favor de Donald Trump, utilizando métodos particularmente questionáveis’.
O director do ‘La Vanguardia’, Jordi Juan, assinala tudo isto como sinais destes tempos, em que os cidadãos preferem informar-se nas redes socais, em vez de procurar os meios de comunicação de referência, vistos já como correias de transmissão do poder e, assim, estas eleições são um triunfo total de Musk ‘Por ter posto a sua rede ao serviço de Trump e, a partir de hoje, espera ser recompensado com um alto cargo na nova administração’.
Porque não a presidência? pergunto eu. Divulga muito mais mentiras, e é bem mais credível que o eleito, até por ter escrito na sua rede na noite do dia 6, ‘You are de the media now (vocês são agora os media)’ ainda de acordo com o ‘La Vanguardia’.
Aliás, o escritor George Orwell, autor de algumas estórias distópicas, foi o primeiro a avisar que estava a desaparecer o conceito da verdade objectiva, e chegou mesmo a escrever ‘As mentiras vão fazer parte da história’.
Mas as consequências do que aconteceu a 5 de Novembro, não se vão ficar apenas por aqui, como mostra um somatório de título recolhido por um outro jornal europeu –‘A vitória da antipolítica’, ‘Desta vez a experiência Donald Trump não vai acabar bem’, ‘Desforra agora e vingança depois’, ‘Bem-vindos à era da névoa mental’, e entre outros ‘À mercê de uma corrente selvagem’– a confirmar aliás, previsões bem antigas, vindas de vários lados.
A primeira é do editorialista do ‘Le Monde’ –‘Com Donald Trump na Casa Branca, a profecia do general De Gaule, vai concretizar-se – um dia os Estados Unidos deixarão o Velho Continente’– e ficaremos sem champanhe no Kremlin e sem munições nas trincheiras do Donbass.
O escritor Juan Antonio Molina, em artigo do dia 8, escreve ‘O milionário Warren Buffet, avisou que a guerra de classes estava a ser ganha pelos ricos e a cumprir-se o vaticínio do pai do neoliberalismo, Milton Friedman, quando afirmava que se havia de conseguir que o politicamente impossível, fosse politicamente inevitável’.
E, como não podia deixar de ser, também temos um português ilustre nesta estória, o escritor Eça de Queirós, devidamente lembrado pelo filósofo Viriato Soromenho Marques, no DN do dia 9 –‘Nós entrevemos a América como uma oficina sombria e resplandecente, perdida ao longe, nos mares (…). Entrevemo-la assim: movimentos imensos do capital; adoração exclusiva e única do deus Dólar; superabundância de vida; exageração de meios; violenta predominação do individualismo; grande senso prático (…); uma febre quase dolorosa do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças; extremo desprezo pelos territórios (…) e por fim um profundo tédio pelo vazio que deixa na alma as adorações do deus Dólar’.
Para a Cadena Ser, em 10 passado, ‘Em 2024 Trump regressa rodeado por uma guarda pretoriana composta maioritariamente por homens multimilionários, todos brancos, sobretudo relacionados com os sectores imobiliário e energético, que investiram muito, literalmente, para garantir que o novo mandato esteja de acordo com os seus interesses’.
Para terminar, vou retirar três apontamentos de mais um cronista, este lá de fora, salientando a enorme dimensão dos nossos equívocos na avaliação das coisas: erramos quando damos apoio a dirigentes que fazem da morte uma indústria, ou apoiamos dirigentes políticos que mentem, nos que acreditam que a liberdade é beber umas imperiais, e que as pessoas maiores e com poucos recursos não fazem falta; depois de citar mais uns poucos equívocos, acrescenta ‘Erramos quando damos apoio e maiorias a dirigentes irracionais e infantis, que só querem o seu próprio bem estar, por tropeçarmos duas vezes na mesma pedra e nos conformarmos com as migalhas que os de sempre nos querem dar, para continuar a manter os seus privilégios’.
A confirmar esta última afirmação, cito o cronista John Carlin, por ter escrito no ‘La Vanguardia’ dia 7, ‘Não há maneira de justificar a irresponsabilidade, o mau gosto, as péssimas opiniões de um cretino ignorante, infantil, narcisista e sem princípios, um homem de 78 anos, que no passado fim de semana simulava sexo oral com um microfone, frente às câmaras de televisão, possa ser digno da presidência dos Estados Unidos’. Lamento pelos muitos amigos que aqui tenho, que estão de luto.
E tudo isto por saber que mais um guedelhudo até vai dar assistência a um multimilionário com rede, carros e satélites, na chefia de um estado deste mundo ocidental, onde vivemos.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor