Espuma dos dias… ainda a eleição presidencial nos EUA — “Em primeiro lugar o País, depois o Partido: Dissecando o Mal-estar Democrata”. Por John Ganz

 

Nota prévia

Trump chegou ao poder e a ideia que se tem é que quem o lá colocou foram os Democratas. Trump terá aumentado o número de eleitores em 700.000 e os Democratas perderam 10 milhões. Com os diabos, isto diz alguma coisa.

O exemplo esclarecedor é dado por Sherrod Brown. Este é um dos senadores mais emblemáticos à esquerda e que perdeu contra um vendedor de automóveis, o candidato de Trump. Foi o exemplo que tomei na véspera das eleições, é também o exemplo que John Ganz escolhe como exemplo de que a perda está na marca Partido democrata.

De John Ganz deixo-vos aqui dois textos – “Em primeiro lugar o País, depois o Partido: Dissecando o Mal-estar Democrata” e “A Conspiração contra a Cidadania”. Em comentário no final do primeiro texto, diz-nos Katrina vanden Heuvel, diretora editorial do The Nation:

“Não há um momento a perder. Devemos canalizar os nossos medos, a nossa dor e sim, a nossa raiva para resistir às políticas perigosas que Donald Trump desencadeará no nosso país. Voltemos a dedicar-nos ao nosso papel de jornalistas e escritores de princípios e consciência. Hoje, nós também nos preparamos para a luta que está para vir. Ela exigirá um espírito destemido, uma mente informada, análise consciente e resistência humana. Enfrentemos a promulgação do Projeto 2025, um supremo tribunal de extrema-direita, autoritarismo político, o aumento da desigualdade e o número crescente dos sem-abrigo, uma iminente crise climática e conflitos no exterior. “

 (…)

O dia está escuro, as forças em presença são tenazes, mas como escreveu o falecido membro do conselho editorial do The Nation, Toni Morrison: “Não! Este é precisamente o momento em que os artistas vão trabalhar. Não há tempo para o desespero, nenhum espaço para a auto-piedade, nenhuma necessidade de silêncio, não há espaço para o medo. Nós falamos, escrevemos, fazemos linguagem. É assim que as civilizações se curam” Fim de citação

JM

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 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Em primeiro lugar o País, depois o Partido: Dissecando o Mal-estar Democrata

O partido continua a viver num sonho febril de sobre qualificações face a uma América cada vez mais vermelha de dentes e garras [1]

 Por John Ganz

Publicado por  em 15 de Novembro de 2024 (original aqui)

 

O DJ Cassidy atua num cenário rural durante a Convenção Nacional Democrata de 2024 em Chicago(Andrew Harnik / Getty Images)

 

Desde o momento em que Donald Trump foi declarado vencedor da eleição de 2024, os líderes Democratas e seus aliados na elite de peritos ou comentadores políticos fizeram todos os esforços para dar a aparência de introspeção, de exame de consciência. No entanto, grande parte desta introspeção não acertou no objetivo. Tal como no rescaldo da eleição de Trump em 2016, os autoproclamados profetas sociais do partido estão a aparecer para denunciar a política de identidade desenfreada e o wokismo [n.t. práticas ou políticas identitárias, causas socialmente liberais, feminismo, ativismo LGBT e questões culturais]; agora, como então, um coro de responsáveis eleitos e estrategas diz que os Democratas devem recuperar as suas raízes de populistas económicos e ir ao encontro dos eleitores comuns onde eles estão, em vez de se entregarem à sua conhecida propensão para lhes dar lições e repreendê-los.

No entanto, esta bateria de conselhos permanece tipicamente atolada na mitologia do afinamento da mensagem: Se os Democratas acrescentarem meramente uma frase aqui, ou recuarem nalgum calão florido de justiça social ali, então o navio será endireitado. Não é necessário repensar radicalmente a identidade do partido ou a sua razão de ser; o mesmo estrato dominante de líderes terá assim poderes para continuar agarrado ao poder e a mesma classe de consultores e gestores de campanha poderá continuar a viver bem.

Todo este tumulto superficial e estagnação estrutural mais profunda recordam-nos uma ideia-chave de Hegel, nas suas Lectures on the Philosophy of History. “Pela repetição, aquilo que no início parecia ser apenas uma questão de acaso e contingência torna-se uma existência real e ratificada”, escreveu. Antes da sua reeleição, podia-se facilmente descartar Donald Trump como uma espécie de acaso, uma aberração tornada possível por uma constituição arcaica, mas agora, depois de ele ter ganho o voto popular, estamos a debater-nos com algo novo: a possível ratificação nacional do Trumpismo. Assim, os dilemas centrais que a oposição Democrata enfrenta são muito mais profundos do que uma promessa ritualizada de ajustar as mensagens e fazer melhor da próxima vez. Estas são as questões que precisam urgentemente de ser resolvidas agora: Será este o triunfo da “América de Donald Trump”? Será que Trump encarna o verdadeiro espírito da América? Ou será apenas mais uma “questão de acaso e contingência”, uma eleição que os Democratas perderam devido a uma série de erros? Trata-se de um realinhamento e de uma nova ordem ou apenas de mais uma derrota? Foi uma questão de estratégia ou de tática?

O grande volume de erros cometidos pelos Democratas pode levar a mais um ataque às atitudes que confundem o desejo pela realidade: Talvez o encontro desta eleição com o trumpismo não seja uma expressão de um destino inelutável, mas antes o resultado de uma série de simples asneiras. O maior erro, claro, chama-se Joseph Robinet Biden. A sua decisão de se recandidatar foi antipatriótica: traiu o seu país, assim como os seus conselheiros. A decisão dos seus assessores mais próximos de esconder o seu estado de saúde e a sua evidente vulnerabilidade política face às bases do partido e ao povo foi Trumpiana na sua imprudência e ilusão.  Revelou uma total falta de seriedade sobre a gravidade da situação – uma inversão horrível de uma das frases de aplauso preferidas de Biden: “Nós somos os Estados Unidos da América. Nada é impossível para nós”.

Analisando essa visão à luz fria das eleições de 2024, é evidente que Biden nunca levou o sentimento a sério – na verdade, tentou cinicamente invocar um tipo de patriotismo institucional de retaguarda para reduzir o leque de escolhas significativas para o eleitorado até um ponto de fuga.

Vistas à luz das mudanças históricas, as eleições de novembro foram, quando muito, um mandato para um debate e uma deliberação o mais alargados possível. Uma grande democracia estava a preparar-se para escolher o seu líder, o homem mais poderoso do mundo. O mundo enfrentava catástrofes que se desenrolavam, os nossos aliados estavam a desvanecer-se e os nossos inimigos estavam mais encorajados. Um aspirante a ditador estava a bater às portas.

Foi-nos dito repetidamente por Biden e pelo establishment Democrata que o destino da República estava em jogo – no entanto, os líderes do partido e os estrategas de campanha nunca agiram como se esse fosse de facto o caso. O homem no comando não estava à altura da tarefa, e a população  estava descontente com ele. No entanto, o partido despreocupadamente manteve o rumo, depois de anos a dizer que o Partido Republicano era um culto de personalidade construído para proteger um líder manifestamente incapaz.

Assim que a inadaptação de Biden ficou exposta, de forma dura e humilhante, no seu debate de junho com Trump, seguiu-se um trabalho de limpeza – após um mês angustiante de lutas internas nos bastidores e de descontentamento crescente entre os financiadores do partido, os responsáveis pela campanha e os líderes do Congresso. De uma forma ainda mais apressada e isolada, a vice-presidente Kamala Harris foi ungida como sucessora do candidato enfraquecido – provavelmente a única opção viável, dada a data tardia. O partido com o nome “Democrata”, que passou a maior parte da última década a posicionar-se como a última esperança para defender a ordem política democrática do país, falhou, num momento de crise extrema, ao comportar-se de modo nada parecido com uma forma democrática. A arbitragem da crise foi deixada inteiramente nas mãos da mesma elite partidária que tanto contribuiu para a precipitar; a opinião pública em geral, nominalmente encarregada de salvar a república, foi relegada para o papel de espetador perplexo, adivinhando os cálculos dos intermediários do poder que estavam próximos da ação real. No último minuto, as elites partidárias tomaram a única decisão disponível, mas demasiado tarde para fazer uma diferença significativa num ciclo eleitoral que já estava a afastar-se do seu legado governativo. Para o bem ou para o mal, não há volta a dar aos dias das salas cheias de fumo ou da convenção mediada: o povo espera ter uma palavra a dizer e é perigoso ignorar a sua vontade.

Também é perigoso ignorar sinais claros vindos de baixo, como quando o povo americano estava claramente zangado com a inflação. Em vez disso, os estrategas Democratas fixaram-se na defesa do status quo, dizendo aos eleitores que lutavam para sobreviver que estes não compreendiam a economia e que esta estava a ir bem. Se a opinião pública está preocupada e um partido no poder responde apenas “Não, está tudo bem, vocês não percebem”, esse partido está a caminho da derrota; esta é uma lição que os democratas deviam ter sublinhado quando a resposta presunçosa de Hillary Clinton ao movimento de Trump – “A América já é grande” – caiu tão completamente por terra.

Mas por causa dos seus próprios pontos cegos influenciados pelo seu ponto de vista de classe, essa continua a ser a mensagem básica que os liberais enviam ao povo americano: “Vocês não percebem.” E a mensagem em troca foi: “Não, vocês é que não percebem”. Um partido político destina-se, entre outras coisas, a ser um sistema de efeitos de reação entre a população e as classes dirigentes. Entre os líderes do Partido Democrata neste ciclo, este mecanismo de reação quebrou – ou pior, foi deliberadamente ignorado. Nestas condições, os conservadores políticos republicanos, que suavam com a renomeação de um empedernido mentiroso, abusador sexual, golpista e (sim) criminoso condenado, aperceberam-se de que Trump já não era uma ameaça, mas sim um potencial trunfo: aqui estava um tipo com uma relação genuína com a população e que tinha um verdadeiro apoio popular – dons políticos fundamentais que estavam desesperadamente em falta na candidatura Democrata. À sua maneira perversa, ele é um orador talentoso. Mesmo na era da tecnologia da informação, o cerne de qualquer campanha política é a capacidade de fazer discurso após discurso de uma forma cativante. Harris nunca dominou essa capacidade.

Medida em termos de contagem de votos, a reeleição de Trump provavelmente não se qualifica como um realinhamento. No entanto, em termos estruturais mais profundos, em perspectiva pode estar a ocorrer um realinhamento – um mau presságio para as perspetivas eleitorais dos Democratas. Os termos básicos da rivalidade política que prevaleceram, pelo menos desde o New Deal, foram virados do avesso: Os Democratas tornaram-se Republicanos e os Republicanos tornaram-se Democratas. Os Democratas, em retrocesso de qualquer mandato significativo de responsabilização popular, transformaram-se no partido do establishment: sabichões, estatísticos, profissionais, autoritários defensores sem fins lucrativos, celebridades, reformadores, conferencistas (em todos os sentidos da palavra), professores assistentes e contabilistas  de empresas. Eles veneram os tipos do governo, os espiões e os generais como divindades menores. Num artigo pós-eleitoral para The New Yorker, Rachel Maddow lamentou que o povo americano não tenha dado ouvidos aos “especialistas”. Esta frase por si só diz-nos tudo o que precisamos de saber.

Entretanto, do outro lado, os Republicanos viram a sua oportunidade populista e aproveitaram-na. Uma grande parte da campanha foi um esforço improvisado de bluff e de fanfarronice para passarem de um grupo de fanfarrões para uma maioria, uma “coligação multirracial da classe trabalhadora” – aquilo que os Democratas há muito afirmam ser. Esta era a lógica mais geral por detrás do que parecia ser uma longa regressão de acrobacias televisivas para Trump na campanha. Ao fazer-se passar por um trabalhador da McDonald’s na Pensilvânia e depois por um condutor de camiões do lixo na pista de um aeroporto do Wisconsin, Trump estava a adotar a estratégia básica que o conselheiro da campanha, Chris LaCivita, tinha aperfeiçoado para o ataque desonesto “Swift Boat” da campanha de Bush em 2004 contra John Kerry: visar diretamente o tema de campanha que a oposição vê como um ponto forte e desmantelá-lo implacavelmente. Os Republicanos sabiam muito bem que os Democratas há muito que estavam a perder o controlo sobre a sua base tradicional de eleitores da classe trabalhadora; esta é, sem dúvida, a dinâmica central na política dos EUA desde a ascensão de Ronald Reagan. Ao dramatizar cinicamente a ligação da sua candidatura  às queixas e lutas dos trabalhadores americanos comuns, os Republicanos realçaram simbolicamente a economia política desigual a que Biden tinha presidido – e, entretanto, a campanha de Harris adotou a mesma estratégia de celebridade de Versalhes que Hillary Clinton usou durante a desastrosa reta final da campanha de 2016, gastando enormes quantias de dinheiro em eventos com celebridades que só fizeram o partido parecer muito mais desligado do eleitorado.

Os Democratas também se tornaram republicanos com “r” minúsculo: acreditavam que o poder pertencia corretamente a uma classe oficial aristocrática e não à grande massa popular. Apresentaram um procurador [uma procuradora] contra um capanga, esquecendo, de alguma forma, a predileção da maioria dos americanos por um fora da lei livre em vez de procedimentos e processos intelectualmente com nexo. A sua “política industrial” soa bem no papel, mas é exatamente esse o problema. O seu eleitorado era constituído, na sua maioria, por jovens tecnocratas pós-keynesianos entusiastas, mas não por aqueles que não soubessem quem era Keynes ou por que razão se deveriam preocupar com ele. Mais uma vez, isto deixou o terreno livre para os Republicanos se declararem o partido de toda a gente: de todos os que se sentiam excluídos e deixados para trás, ou sentiam serem tratados com condescendência e intimidação. E assim os republicanos tornaram-se democratas com “d” minúsculo, gritando sobre os direitos soberanos das massas. As massas gostaram do som disso – ou então, com cada vez mais desagrado sobre o jogo de disfarces sobre política económica dos dois partidos, abstiveram-se e não foram votar.

Nas análises pós eleições feitas pelos Democratas, tem-se falado muito sobre o ecossistema dos media – mas, tipicamente, pouco se interessam pelos conteúdos que circulam na esfera dos media de direita. O conselho de invocar uma versão de esquerda de podcasts de tendência de direita, como o de Joe Rogan, supõe mais uma vez que os Democratas não precisam de reformular o seu pensamento ou a sua visão fundamental do mundo – precisam apenas de lançar novas plataformas para a sua desajeitada mensagem.

Um olhar mais atento à dinâmica dos media revela a futilidade desta estratégia: os Democratas não precisam de programar de forma diferente – precisam de pensar de forma diferente. A principal caraterística que une os programas que os jovens de direita vêem e ouvem atualmente é a curiosidade: incluem discussões e debates; os seus apresentadores podem não ser particularmente conhecedores e são abertos quanto a isso, pelo que fazem perguntas que podem parecer parvas sem se envergonharam com isso. Mesmo quando a discussão se desvia para a pura propaganda, vem envolta numa aparência de investigação aberta. Se os liberais querem mais intelectuais orgânicos, como o Partido Republicano parece ter, precisam de estar dispostos a ser mais orgânicos – a realmente conviverem e falarem, e não apenas a darem conselhos vindos de cima. Precisam de rejeitar a sua alergia aos “debate bros” [n.t. os que se envolvem frequentemente em debates, amplamente caracterizados pelos seu ego e machismo] e aprender a argumentar e a debater novamente; de facto, precisam de recuperar o desafio central da política – persuadir as pessoas.

Os Democratas também foram prejudicados pelo sucesso do seu projeto a longo prazo, que começou com os esforços do Democratic Leadership Council nos anos 80, para se apresentarem como um partido favorável aos negócios. Ao deixarem a sua base da classe trabalhadora à mercê de acordos comerciais globais como a NAFTA e o GATT, os Democratas perderam a credibilidade para falar de forma convincente em nome dos trabalhadores em dificuldades. Este dano está agora tão avançado que o inimigo mais consistente do partido contra os acordos comerciais que prejudicam o emprego, o senador do Ohio Sherrod Brown, perdeu o seu lugar no Senado para o negociante de automóveis Bernie Moreno – outro republicano rico que se faz passar livremente por um heroico defensor dos trabalhadores americanos em dificuldade.

Esta eleição, de facto, destilou perfeitamente a inversão do papel socioeconómico dos principais partidos. Os comerciantes de automóveis substituíram os New Dealers. No seu contínuo apego a um interesse excessivo nos detalhes da política credenciada, os Democratas representam a regularidade e a racionalidade do capitalismo empresarial e burocratizado. Os Republicanos são o partido dos empreendedores, dos homens de negócios familiares, dos oligarcas gordos e, claro, dos mercenários, dos traficantes de marcas e dos artistas peritos no saque aberto, à vista de todos. Também é verdade que os Democratas têm a sua quota-parte de homens (e mulheres) de confiança, como toda a classe de consultores do partido deixa dolorosamente claro. Mas os praticantes da vigarice Democrata vão devagarinho ganhando a confiança dos vigarizados, traficando diplomas e falsos conhecimentos especializados à classe de doadores do partido, enquanto os Republicanos oferecem esquemas de enriquecimento nos moldes dos muitos que Trump traficou, agarram no dinheiro e fogem. Uma forma de dar sentido a esta eleição é que um número suficiente de pessoas decidiu que o saque feito pelos Republicanos parecia ser o esquema mais honesto, uma visão mais atingível e atrativa do sucesso.

É no domínio da política externa que as derivas dos democratas foram mais desastrosas – uma esfera em que Biden, o presidente de longa data da Comissão de Relações Exteriores do Senado, acreditava possuir uma experiência inatacável. Na realidade, o que se verificou foi o contrário: Biden permaneceu atolado numa visão obsoleta do poder global da Guerra Fria, sobretudo no Médio Oriente, e por isso foi um facilitador inflexível da guerra genocida de Benjamin Netayahu em Gaza. Independentemente do lado em que se possa estar, toda a linguagem cuidadosamente redigida pelo Departamento de Estado sobre Gaza soava a mentiras, e eram mesmo. Toda a “racionalidade” e “bom senso” dos Democratas, e todas as invocações rotineiras da sua dedicação a uma “ordem internacional baseada em regras” pareciam uma grande treta, e eram.

Os liberais tornaram-se os “defensores da normalidade”, inspirando-se na respeitabilidade da classe média, mesmo quando as oportunidades da classe média perderam muita da sua importância. Os conservadores costumavam ser o partido do conformismo social, mas agora são eles que passaram a ser os liberais; são os outros tipos que são “estranhos”, no ataque popularizado pelo candidato companheiro de Harris, Tim Walz. Não quero dizer isto necessariamente de uma forma depreciativa: os liberais acreditam no tipo de conformismo sábio necessário para existir numa sociedade complexa e diversificada, para cooperar num local de trabalho com outros, e para viver pacífica e civilmente numa aglomeração em massa. Eles são pró-sociais. Tal como os seus antepassados nos movimentos de reforma protestante do século XIX, eles dizem: “Se você se comportar de maneira respeitável como nós o fazemos, você encontrará a medida do seu sucesso”. E, tal como aqueles defensores do sufrágio feminino, da abolição e da temperança, o seu discurso central ao eleitorado de massas é uma versão moral da explicação da mobilidade social pela força das coisas, tal como é praticada pela direita; seja virtuoso e magnânimo, tal como nós.

Em última análise, estas são diretivas sancionadas pelos gabinetes de recursos humanos e a conformidade com as normas dos gabinetes não oferece grande segurança ou autodeterminação àqueles que não querem ou não podem aspirar a trabalhar num deles. Além disso, o próprio escritório – a esfera em que os liberais mais confiantemente reivindicam a sua influência e esclarecimento – está a desaparecer como espaço público no mundo pós-Covid. Mas a pró-sociabilidade numa sociedade esvaziada parece, para muitos, apenas um assédio cruel. É claro que a direita não responde ao conformismo dos liberais com uma alternativa criativa própria. Em vez disso, adora a conformidade negativa de ultrajar os pretensos censores “woke” e “dominar os liberais”. Este modelo de pertença política está enraizado no facto de ir ao encontro das massas solitárias onde elas estão: pura agressão petulante como substituto das complexidades da personalidade, e a possibilidade  para os sujeitos atomizados e isolados expressarem abertamente os seus ressentimentos dolorosos.

Os Republicanos e os especialistas “realinhados” tentarão fazer-nos esquecer como Trump chegou aqui e fazer parecer que ofereceu uma mensagem simples e positiva de prosperidade partilhada. Mas não é possível que com isso tantos eleitores tenham optado por ele, apesar de todo o rancor e ressentimento. A verdade é que muitas pessoas gostam desta petulância e procuram um vasto leque de fóruns para a divulgar de forma mais plena. Trump foi sempre um grande falador de merda de classe mundial e sabe que uma força central que una as pessoas está a arrastar outras pessoas. Também aqui o contraste com os Democratas é revelador: repetidamente, Harris e Walz insistiram que o país estava a ultrapassar a falsa e exaustiva divisão da era Trump; a América não só já era grande; já estava unida no grande espetáculo do acordo social tolerante. Esta visão afirmada mas não demonstrada de uma unidade superior foi também o tema do discurso da Convenção Democrata de 2004 que lançou Barack Obama na cena nacional; a sua mensagem central era que de facto não existia uma “América vermelha” ou uma “América azul”, apenas “os Estados Unidos da América”. É bastante apropriado que, ao confiar tanto nesta invocação de unidade sem conteúdo, a campanha de Harris tenha também adotado um slogan adotado por John McCain, o primeiro adversário republicano de Obama à presidência: “o país acima do partido”.

Contra tais argumentos banais, a vigorosa demonização dos outros por parte de Trump parece ser a verdade; dir-se-ia que ele a está manter real com qualquer pessoa. E em parte é assim. A visão de Trump da América é o capitalismo, mas sublimado e obsceno, completamente sem calão liberal cosmopolita, uma vasta selva de competição brutal e dominação. Racismo, xenofobia, misoginia: tudo isto tem em comum uma visão de um mundo vermelho em dentes afiados e garras, cheio de lutas intermináveis e divisões inultrapassáveis. E alguém está a obstruir no seu caminho para o sucesso e felicidade: imigrantes sujos, os negros, vadias arrogantes, judeus chorões, as horrorosas pessoas trans, “os esquerdistas” irritantes – basta escolher de quem é a culpa.

Muitas pessoas podem não pensar em si mesmas como sendo movidas por animus racial, mas ainda assim continuam a ver as expressões de racismo como uma forma de autenticidade, uma maneira mais “realista” de ver o mundo. Ele diz isso para que eles não tenham que se sujar. Quando você está cansado de hipocrisia e mentiras, você só quer alguém para lho dizer. Além disso, esta marca de transgressão é divertida: é agradável ouvir sentimentos proibidos ditos  em voz alta. Alivia a pressão de tentar ser tão decente durante todo o tempo. Trump faz-te saber que os momentos virtuosos na TV são tão baixos e maus quanto ele é – ou como você pode ser nos seus momentos mais difíceis. Na verdade, Trump diz: “O mundo é um lugar desagradável cheio de pessoas desagradáveis e você só precisa agarrar o que é seu. Eu vou-te dizer como se faz isso. Eu vou-te ajudar a consegui-lo. E eles que se fodam”. Em resposta, a multidão uiva, um grito antigo que mistura dor e alegria, esperança e desespero.

Há aqui um paradoxo fundamental. O movimento de Trump é inclusivo e aberto: a intolerância não o diminui. Uma campanha em grande parte baseada na demonização dos imigrantes latino-americanos arrecadou uma parcela histórica do voto latino para o Partido Republicano. O movimento de Trump oferece um convite. Assim como ele convida você para o mundo das celebridades, compartilhando suculentos segredos e rumores, o homem educado na arte da política por Roy Cohn e o pesado Meade Esposito de Brooklyn convida você para o esconderijo do chefe, a casa-clube onde os negócios são feitos. A visão social do movimento Trump é de uma América que opera como a máfia. A Máfia é uma sociedade secreta. Os esquemas funcionam  para um grupo interno estreitamente ligado que explora um grupo externo. Mas o que Trump oferece é a clubismo da máfia para as massas. Ele é um espertalhão para a América média. Oferece-nos um grande abraço e um beijo. Faz-nos entrar na sua “família”. Ele pode ameaçar e ameaçar o outro, mas para você ele é gregário e divertido: ele pisca-lhe o olho e dá-lhe palmadas nas costas. Isto é o que Trump oferece em última análise num mundo frio, alienado e solitário: não apenas a fantasia de dinheiro e sucesso, mas aconchego. Os nazis falavam de uma comunidade popular, Volksgemeinschaft – Trump oferece-nos a comunidade gangster.

Daqui para a frente, eis como vai funcionar a coligação multirracial da direita da classe trabalhadora: Qualquer pessoa pode aderir, mas nem toda a gente pode ser um homem feito. E talvez tenhas de aguentar uma pequena humilhação aqui e ali pelo caminho. Mas é assim que as coisas são, certo? Não te importas com uma pequena piada, pois não? Vamos encontrar outra pessoa mais abaixo para tu lhe dares um pontapé. O chefe pode cuidar de ti, mas não antes dele e da sua gente. Não é bonito, mas os Democratas não estão a oferecer nada mais atraente. “Nós não somos assim!”, gritam os liberais simpáticos. Mas para muita gente, sempre foi assim.

Se os Democratas assumirem voluntariamente o papel que Trump e os Republicanos querem para eles – serem os calcanhares snobes para a raiva justa do Trumpenproletariado – eles e nós estaremos condenados. O Trumpismo será assim ratificado. O que resta da política americana tornar-se-á apenas um combate de pro-wrestling. Neste espetáculo perverso, os Democratas serão uma oposição gerida para serem esmagados e torcidos vezes sem conta de várias formas.

Para que os Democratas respondam de forma criativa ao estado de espírito do país, precisam de voltar a ser democráticos. Isso não significa ser uma cópia a papel químico do trumpismo ou escolher um eleitorado leal para servir de bode expiatório ou para lixar ou para deixar de ser leal às pessoas e aos princípios que tradicionalmente apoiaram. Essas são respostas manifestamente pouco criativas. Parem de reificar o eleitorado. Deixem de andar às voltas com as mesmas velhas categorias já mais que gastas. Tentem pensar de novo.

 


Nota de  Katrina vanden Heuvel, Diretora Editorial de The Nation

Não podemos voltar atrás

Agora enfrentamos uma segunda presidência de Trump.

Não há um momento a perder. Devemos canalizar os nossos medos, a nossa dor e sim, a nossa raiva para resistir às políticas perigosas que Donald Trump desencadeará no nosso país. Voltemos a dedicar-nos ao nosso papel de jornalistas e escritores de princípios e consciência.

Hoje, nós também nos preparamos para a luta que está para vir. Ela exigirá um espírito destemido, uma mente informada, análise consciente e resistência humana. Enfrentamos a promulgação do Projeto 2025, um supremo tribunal de extrema-direita, autoritarismo político, o aumento da desigualdade e o número crescente dos sem-abrigo, uma iminente crise climática e conflitos no exterior.

O jornal Nation irá expor e propor, incentivar reportagens de investigação, e permanecermos unidos como uma comunidade para manter viva a esperança e a possibilidade. O trabalho do The Nation continuará, como tem feito em tempos bons e maus, para desenvolver ideias e visões alternativas, aprofundar a nossa missão de relatar a verdade e informar profundamente, assim como promover a solidariedade numa nação dividida.

Com uns notáveis 160 anos de jornalismo ousado e independente, o nosso mandato permanece hoje o mesmo que quando os abolicionistas fundaram o The Nation – defender os princípios da democracia e liberdade, servir como um farol através dos dias mais sombrios da resistência, e para imaginar e lutar por um futuro melhor.

O dia está escuro, as forças em presença são tenazes, mas como escreveu o falecido membro do conselho editorial de Nation, Toni Morrison: “Não! Este é precisamente o momento em que os artistas vão trabalhar. Não há tempo para o desespero, nenhum espaço para a auto-piedade, nenhuma necessidade de silêncio, não há espaço para o medo. Nós falamos, escrevemos, fazemos linguagem. É assim que as civilizações se curam”.

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[1] Vermelho é a cor do partido Republicano

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O autor: John Ganz é editor e escritor independente. Licenciado em História pela Universidade de Michigan e mestre em Belas-Artes pela Universidade de Columbia. É autor best-seller de When the Clock Broke: Con Men, Conspiracists, and How America Cracked Up in the Early 1990s do New York Times. Dirige o sítio Unpopular Front.

 

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