PALCO 244 – TEATRO E CINEMA – por Roberto Merino

 

Consultando a net e a minha memória, verifico que no ano de 1959, sete anos depois de eu ter nascido, a população na minha cidade, Concepción (Sul do Chile) (*) era de 240.000 habitantes. Em 1974, ano em que abandonei o país, era de 360.000. A cidade situada nas margens de um extenso rio, o Bio-Bio, um dos maiores do Chile, foi o meu berço de nascimento e formação na escolaridade e nos estudos universitários.

Numa cidade de província as ofertas culturais não eram muitas, mesmo assim, tive a sorte de desfrutar de acontecimentos artísticos que me marcaram e que me ajudaram a definir o meu percurso artístico logo no início da minha formação.

Na cidade existia uma companhia profissional de teatro, o Teatro da Universidad de Concepción/TUC. Faço notar que esta era uma companhia profissional subsidiada pela universidade, como as que já existiam em Santiago na Universidad de Chile (DETUCH) e na Universidad Católica (Teatro de Ensayo de la UC), não confundir com os teatros universitários constituídos apenas por estudantes amadores. (**)

Nessa universidade havia um anfiteatro no campus universitário que me fazia lembrar os teatros gregos nas suas origens no século V A.C., e as representações eram de tarde cavalgando até a noite, o que as tornava mais poéticas e fantásticas…foi aí que assisti pela primeira vez a uma representação integral de uma peça de Shakespeare, O Sonho de uma Noite de Verão.

Esta companhia profissional realizava uma temporada anual de, no mínimo, três espectáculos diferentes, e na primavera/verão o repertório total era reposto naquilo a que nós chamávamos o “Forum Universitário/auditório ao ar livre”.

Junto à atividade teatral existiam os cinemas, que foram também para mim uma grande escola de aprendizagem.  Cinemas que tinham nomes de estrelas, Astor, Esplanade, ou Lux – sala que homenageava a luz iniciática dos irmãos Lumière que deu origem e consagrou e o cinema -, nomes de castelos ou dinastias, Alcazar, Windsor, Regina, Romano, Gran Palace, Ducal, Rex., ou salas com nomes de personalidade como Cervantes ou Prat (o nosso herói da Guerra do Pacífico).

Os cinemas foram um lugar de conhecimento e curiosidade para a minha geração; dificilmente voltávamos para casa, depois de uma sessão, sem alguma pergunta, alguma dúvida para esclarecer.

As sessões cinematográficas eram, nos cinemas de bairro, rotativas, isto é, contínuas, sem paragem, e podíamos entrar e sair quando nos apetecesse. Podíamos ver uma fita mais de uma vez e deixar-nos estar no cinema o tempo que quiséssemos.

Também havia sessões duplas, dois filmes e triplas, três filmes seguidos…foi assim que devo ter visto centenas e centenas de filmes, dos quais ainda tenho memória.

Devo ao cinema e ao teatro a minha formação sobre o espectáculo, e entre os dois é difícil dizer do qual gosto mais, confesso nunca ter saído de uma projeção cinematográfica…, mas já saí, uma única vez, de uma representação teatral, que me estava a ser insuportável…não direi qual o grupo, qual a peça, qual a companhia, qual o responsável pelo espectáculo, por pudor!

Cinema e Teatro. ...”entre les deux mon coeur balance…” como poderia estar numa peça de José Régio…e já agora porque não (?), recordar esse magnífico filme de Manoel de Oliveira, O Meu Caso, a partir de José Régio, de 1987; filme que tão bem conjugou o teatro(filmado) e o cinema: que sob o signo de “Repétitions”, a acção/exposição – com integral rodagem interior, em sala de espectáculos – reconstitui-se por quatro vezes sobre o palco, antes de estrear a peça; como num filme mudo, em projecção acelerada; num mais rasgado e cromático registo visual, sendo distorcida a sonoridade do diálogo, num quadro crepuscular da civilização actual, em que modelos bíblicos.

Do Livro de Job a José Régio. A condição humana vista através de várias histórias que se cruzam num mesmo palco, e em cenas que parecem repetir-se. Começando em tom de comédia “O Meu Caso” surge como uma reflexão metafísica sobre o destino do homem e a sua dimensão religiosa (Texto: Cinemateca Portuguesa)

E recordar esse actor magnífico que é Luís Miguel Cintra, afastado hoje dos palcos e da sua companhia extinta, A Cornucópia!

Em anos idos encenei para o grupo Gérmen, de Vila do Conde, grupo que nasceu sob a minha orientação, duas peças de Régio, O Meu Caso e as Três Máscaras.

Estas encenações deram-me uma grande alegria e satisfação, coroada naquele tempo com a amizade que se estabeleceu com o irmão do autor, Apolinário José (1917-2000), também poeta e pintor.

Finalmente, as notícias chegaram até Avignon, onde Tiago Rodrigues é Diretor Artístico do prestigiado Festival de Teatro dessa cidade desde julho de 2021. E estão relacionadas com a demissão de toda a equipa de Évora Capital Europeia da Cultura, e em Lisboa, com a exoneração de Francisca Carneiro Fernandes da Presidência do Centro Cultural de Belém. São recados para a Ministra da Cultura do atual governo, em artigo publicado no jornal Público, com o título, Um ministério que não é deste País, 3/12/24.

Há mais de uma década atrás e pela minha intervenção como Diretor do Curso de Teatro/CST da Escola Superior Artística do Porto/ESAP), em colaboração com a Direção Académica da ESAP, no Mosteiro de São Bento da Vitória, depois de uma representação dos alunos finalistas, foram homenageadas quatro personalidades do Teatro Nacional São João, em reconhecimento pela ajuda dada ao CST, na divulgação e produção dos seus espectáculos. Nessa oportunidade lembramos ao seu Diretor Artístico, o encenador Nuno Carinhas, Salvador Santos, Diretor de Produção, Luísa Corte Real das Relações Públicas e Francisca Carneiro Fernandes, na altura Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional São João. Nos agrada verificar que a exoneração desta última, além de ser denunciada por personalidades da cultura em Portugal, é contestada pelos trabalhadores e colaboradores de Francisca Carneiro Fernandes do CCB.

Roberto Merino

 Notas:

(*) Concepción é uma cidade no centro-sul do Chile, localizada aproximadamente 450 km ao sul da capital, Santiago, e cerca de 30 km ao norte do Centro Geográfico do Chile continental, localizado na comuna de Coronel. Concepción é também o centro geográfico e demográfico da Área Metropolitana de Concepción, bem como a capital da província homónima e da Região de Bio-Bío.

(**). Em 1941 foi fundado o Teatro Experimental da Universidade do Chile. A crítica especializada considera esta fundação como o ponto de partida da atividade teatral universitária, que mais tarde se tornaria um movimento que atingiu todo o território nacional e que trouxe novas perspetivas e energias para a cena teatral chilena.

Dois anos depois, nascia o Teatro de Ensayo de la Universidad Católica, que tinha entre suas iniciativas a publicação da revista Apuntes. Os teatros universitários contribuíram para o desenvolvimento de novos temas nacionais, que incluíram dramas sociais, teatro psicológico, comédia crioula e resgate do folclore; experiências que exerceram forte influência na produção dos dramaturgos da Geração Literária de 1950.

Pouco mais tarde nasceram os grupos de Teatro da Universidade Técnica do Estado (Teknos), em 1958; Teatro da Universidade de Antofagasta, em 1962; e o Teatro da Universidade de Concepción (TUC), em 1945. (in Memória chilena)

 

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