‘Está a chegar a hora dos ‘seniors’ no mercado de trabalho’. A frase não é minha, roubei-a a um cronista de um respeitado jornal lá de fora. A crónica informava até do aumento da idade da reforma na China, a primeira vez em setenta anos, aumento motivado pela situação económica do país, pela falta de mão de obra e pela pressão demográfica, devido também à falta de gente jovem.
Cá pelo Ocidente, fala-se da ‘nova longevidade’, ou mais finamente em ‘economia prateada’, para não citar um energúmeno que, não há muitos anos, a referiu politicamente como ‘a peste grisalha’. Tudo isto pelas tendências sociais e económicas nos próximos anos, com o envelhecimento da população, mais a adaptação das empresas ao consumo de um grupo cada vez maior. Há uma espécie de chapa de matrícula onde está tudo, 50-50-50. Com efeito, dizem os entendidos, em 2050, mais de 50% da população terá mais de 50 anos, uma mudança demográfica cheia de desafios e oportunidades que, como sempre, as empresas pretendem ter na mão.
Por outro lado, e como lhe compete, a Organização Mundial da Saúde, prevê que a população mundial com mais de 60 anos duplicará lá para 2050, e na Europa já muitos países decidiram aumentar progressivamente a idade da reforma, para fazer frente ao mesmo problema; mas a OMS salienta ser prioritário um plano comum para as organizações, prevendo a sua sustentabilidade, mantendo ao mesmo tempo, os compromissos com os trabalhadores.
Os especialistas neste campo, salientam que o talento (?) tem sido gerido pelos custos e não pela capacidade, pois os ‘seniors’ tinham altos salários, e foram substituídos por talento jovem e um mercado laboral precário, esquecendo a visão estratégica que eles detinham, bem como a memória histórica, tanto do trabalho como das suas organizações.
O escritor Luís Castro Mendes numa das suas crónicas do DN, salienta ‘A velhice é um país estrangeiro, onde chegamos de noite, para nos desencontrarmos do tempo. Trazemos connosco o desejo e a memória, seguem-nos os sonhos todos por cumprir, mas somos já pouca coisa para a vida’, pois os ‘os tempos que vivemos são sem memória e não buscam reter o instante, porque aprenderam que nada dura’.
Mas ainda poderemos chegar mais longe: no Evangelho de S. João, Jesus de Nazaré diz ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’, uma frase que ostentam numerosos frontispícios das igrejas da cristandade, mas acrescenta o escritor e cronista Armando Ginés, ‘O capitalismo e a sua dependente neoliberal, adaptaram-na aos seus interesses, “eu sou a verdade”, e tudo o que ficar de fora desse slogan é heresia pura, chame-se a isso o que se quiser chamar, em termos políticos .
Na verdade, as democracias de hoje parecem mais dispostas a valorizar os discursos da autoridade sobre os da igualdade ou da liberdade, mesmo na escolha, dando origem a sociedades divididas, seguindo padrões de pensamento diferentes, por vezes dogmáticos, por ter cada uma a sua própria verdade, fechando-se a quaisquer alternativas, desde a alteração climática, mais a chegada de mão de obra emigrante, envolvendo, qualquer delas em intransigência, xenofobia, demagogia e populismo, socavando a sua própria fragilidade.
Conversava com um amigo sobre estas coisas, quando ele me faz um discurso que vou tentar resumir aqui, ressalvando o seu nome por muitas e variadas razões, ‘Também eu, que já passei dos setenta, estou mais lento, tenho óculos para o perto e para o longe, começo a odiar os telemóveis, canso-me dos bués e parecidos na boca dos seus principais utilizadores, e acabo por me sentir, de algum modo, marginalizado e afastado desta sociedade. Mas o pior é que mijo muito e muito mais devagar, não perco o apetite, mas como menos e só me apetecem coisas que há anos, até tomava como pecados!
Para ser simpático, reconheci que nalgumas coisas estava como ele, mas respondeu com uma frase lida (afirmou), numa rede social ‘Nós, os antigos, temos uma vantagem vinda com a idade; ficamos mais hábeis, pois conseguimos rir, tossir, espirrar e mijar, tudo ao mesmo tempo!’
Demorei bastante a recompor-me da enorme gargalhada
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Como explicar isso nos nossos dias, quando a maioria tem dificuldade em interpretar, como mostram os indicadores internacionais sobre a avaliação do nosso ensino, se tem vindo a deteriorar progressivamente? E quando se “discutirá” tudo isto alargada e publicamente?
A.O.
Bom dia.
Hã sustentabilidade de ser ou estar velho, é o pretérito de uma juventude analógica da ciência , da política e das artes.
Como explicar isso nos nossos dias, quando a maioria tem dificuldade em interpretar, como mostram os indicadores internacionais sobre a avaliação do nosso ensino, se tem vindo a deteriorar progressivamente? E quando se “discutirá” tudo isto alargada e publicamente?
A.O.