CARTA DE BRAGA – “gente de bem e baratas” por António Oliveira

Um antigo e já retirado correspondente internacional, Enric Gonzalez, agora cronista em alguns órgãos de comunicação, decidiu escrever, na última crónica que li, usando uma ironia algo macabra, ‘Pensava que as deportações massivas, as que os EUA usaram para exterminar as tribos nativas, as de Hitler no seu genocídio, muito parecidas com as de Stalin e não muito distintas das que sofreram os palestinos entre 1946 e 1948, quando os israelitas descobriram que Deus lhes tinha regalado uma quinta que já tinha inquilinos, pensava, dizia, que eram horrores do passado, que nunca mais se repetiriam’.

Mas não, adianta González, a ‘gente de bem’ continua a gostar de o fazer, deportar, expulsar, desalojar e prender pessoal; e também encanta à ‘gente de bem’ passar a moto-serra pelas pensões dos reformados, substituir a diplomacia pela chantagem e deixar que os emigrantes se afoguem no mar. A ‘gente de bem’ ainda quer acabar com a União Europeia, por ser um ‘artefacto insatisfatório’, por também não se recordar do que era antes do processo de unificação. Termina, ‘cereja em cima do bolo’, ao escrever ‘Por isso mesmo vou tirar um ‘carnet de mau’, mesmo que fique rouco toda a vida’.

E veja-se com atenção ‘a gente de bem’ porque multimilionária, que rodeia o rei das deportações, Elon Musk (Starlink, Tesla, X, SpaceX), Jeff Bezzos (Amazon, Washington Post e património de milhões), Zuckerberg (Meta, e património de milhões), Tim Cook da Apple e Sam Altman da OpenAI, que projectam todos os negócios do novo governo. Um outro cronista afirma que as Big Tech se constituem, como nunca antes, como razão de Estado, mas, por sua vez, o próprio Estado age como razão de ser das Big Tech.

O consultor financeiro Jorge Costa Oliveira escreve no DN de 25 de Fevereiro, ‘Neste segundo mandato de Trump presidente, volta a optar-se por uma postura transaccional em detrimento dos valores da democracia e da liberdade, rejeita-se o multilateralismo, a transição climática (…) mas também a velocidade com que a actual liderança estado-unidense vai fazendo crescer o sentimento antiamericano (e antiocidental) em todas as latitudes’.

Na verdade, com esta gente e com a maneira como assumem um poder para o qual não foram eleitos, os states já deixaram de ser vistos como democracia por se terem transformado numa plutocracia, mas, uma economia assim, não poderá nunca manter tal império, sem ‘sacrificar’ também a tal ‘gente de bem’ que nasceu apenas para receber, não para pagar.

Veja-se, aliás, uma outra decisão desta ‘gente de bem’, o encerramento ou a suspensão de todos os fundos de ajuda ao desenvolvimento que põe em risco de enorme dimensão, todo o sistema de cooperação internacional, os alimentos que eram distribuídos nas piores crises humanitárias deste paraíso para as ‘gentes de bem’, bem como deixou sem recursos diferentes agências das Nações Unidas –a Organização Mundial da Saúde, a Agência para os Refugiados Palestinos, a UNICEF e o programa de assistência materno-infantil do Afeganistão, que levou ao despedimento imediato de 1.700 mulheres profissionais afegãs.

Note-se que apenas 0,24% do PIB era destinado à assistência ao desenvolvimento, mas essa pequena percentagem da sua riqueza, representava 43% da ajuda humanitária global, e agora iremos ver, com toda a certeza, o que os grupos extremistas assim encorajados e possivelmente financiados, em qualquer parte deste paraíso das ‘gentes de bem’, mais ou menos encabeleiradas, mais ou menos louras, vão inventar para reforçarem a ideia de que, para eles, ‘não passamos de baratas devorando-nos umas às outras nas redes sociais, que também converteram num coliseu contemporâneo’.

Esta teoria, e prática, de estatuir o medo como forma de estar e governar, poderá ter, de acordo com muitos comentadores em todo o mundo, um efeito de ‘volta atrás’, como também mostra este Cartoon de

Marcelo Rubens Paiva, ‘How tariffs work’

Retirado da pg no Instagram de Carlos Minc, dep estadual Rio de Janeiro, 25.02.10

O catedrático em Filologia alemã e cronista Carlos Fortea, escreveu no ‘Nueva Tribuna’ do passado dia 9, um artigo com o título ‘Não mais?’ onde mostrava também não ter medo da importância das palavras, ‘O mundo está diante de um velho fanático que tem pressa em mudar a história, e quanto mais cedo se lhe opuserem, menos danos haverá para lamentar’.

E Sainz de Medrano, doutor em Ética da Comunicação, escreve no ‘Diario 16’ também daqui ao lado, ‘Tenho a sensação de que serão os americanos os que mais sofrerão com a gestão do louco Trump, e que sua ostentação contra países amigos, dos quais ele precisa para manter sua economia, não dará em nada. Muito barulho por nada. O tempo dirá’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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