CARTA DE BRAGA – “do ódio ao riso” por António Oliveira

 

cansado por ter de escrever sobre aquele auto-imune presidente dos states, o trumpolineiro –nova grafia para um dos termos quase não usados no português actual, já bem torpedeado pelo Acordo, o que se dizia de um fulano espertalhão, trapaceiro ou velhaco, dependendo apenas do caso e da ocasião– mas que agora me apetece chamar-lhe, sempre que leio ou ouço uma das barbaridades que lhe saem daquilo a que ele chama boca, apesar de saber que não me ouve, nem me dá qualquer importância.

Como por vezes me tem apetecido –para aliviar a tensão que paira agora em todos os ambientes– transformar estas Cartas em crónicas diferentes, acautelando o interesse que eventualmente mereçam, para contar testemunhos ou pequenas estórias que vou lendo nas buscas diárias em jornais e outros escritos que há já muitos anos me habituei a consultar, por interesse informativo, ou tão só para saber novas do mundo da cultura cada vez mais restringido nos órgãos de comunicação, ou só referidas nas conversas com os amigos que ainda o são, e vou mantendo.

E desta vez, começo por um desabafo que não transcrevo na íntegra, feito há meses no Instagram, por uma cantora até premiada no seu país, a atacar sábia e duramente, as mensagens de ódio que, por qualquer razão, ali saíam contra ela. Não posso resumir muito esse desabafo, vou apenas traduzir as frases mais duras por terem feito das redes, que nem frequento, mas sei, pelos tais escritos que vou lendo, estarem transformadas uma esterqueira de ódio a tudo o que seja cultura, aquele saber ‘ser’ e ‘estar’ fora da normalização comandada pelos ‘senhores’ dos média, dos TikTokX e quejandos. E aqui vão algumas das frases que traduzi:

Quem és tu para não me importar com o que escreves? E quem seria eu se deixasse de me importar com isso? Talvez seja a tua resposta à tua falta de vida própria, essa vida escura onde não entra nenhum raio de luz, da luz que poderia mudar essa forma de ser.

Tens uma alma podre, que se alimenta dos outros para se crer forte, e só mostras a tua debilidade. Coloco-me na tua pele, e tem de ser difícil, esgotante, viver a vida dos outros e não viver a tua própria, sempre à procura de quem criticar, em vez da simplicidade de viver a tua, à procura de um sonho; mas não, estás condenado!

E para vocês, os que sabem tudo, que nunca se equivocam, que acordam sem uma única ruga, que se dedicam apenas a ser tutores das vidas alheias, a vós todos quero oferecer o meu coração, por saber quanto desejam um! E por isso, vos dou um conselho: se querem descarregar as vossas misérias, vão à casa de banho, acendam a luz e olhem-se ao espelho. Descarregai na imagem o que não gostam da vossa vida; repitam isso sempre que tiverem vontade, e assim sereis felizes e farão felizes os outros”.

Um outro e diferente desabafo que resolvi também transcrever, é o de um humorista de 73 anos, Leo Bassi, nascido em Itália, mas residente aqui ao lado, bem conhecido em todo o mundo, por vestir sempre a pele do ‘palhaço rico’, e também fundador da que chamou ‘Igreja Patólica’. E numa entrevista, contou ao repórter, a que teria sido a sua maior provocação.

A mais estranha foi há 30 anos, quando fui convidado para um festival de palhaços no Uzbequistão, e me apresentei como sendo o ministro europeu do riso. Acontece que toda a gente o levou a sério e, quando aterrámos, tinha à espera o vice-presidente do Governo.

– E que fez depois?

Fui ministro durante três dias, e cheguei a entrevistar-me com o ministro da Defesa. Pensei que iria acabar na prisão o resto da vida. No dia da minha apresentação estava o Governo todo.

– E actuou?

Sim e no final, veio ao meu camarim, o ministro da Defesa com oito soldados. Pensei então já está”, mas o ministro disse, O senhor é um verdadeiro palhaço e um ministro. Felicite a União Europeia por ter um ministro do Riso”.

Limito-me a transcrever o que li, mas estas duas estórias, mostram bem como o modo como por aqui andamos e vivemos, não obedece nunca a uma racionalidade rígida. Depende grandemente da vontade e das emoções do humano, da maneira como, reparando bem nos outros, se vê a si mesmo, e da consequente vontade de se integrar, de se partilhar e, respeitando-se, assumir esta enorme comunidade humana, nossa também.

E convém não esquecer nunca, uma das mais simples alegorias de Walter Benjamim, ‘Cada amanhecer é uma ressurreição’, mas, acrescento eu, se lá não estiver nem aparecer um trumpolineiro!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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