Que Viva la Vida, Companheiros de uma Figa! – por Carlos Pereira Martins

Que Viva la Vida, Companheiros de uma Figa!

por Carlos Pereira Martins (ao romper da aurora, de hoje!)  

Vivinho da Silva e Morte Lenta eram amigos inseparáveis. Uma amizade forjada antes mesmo dos bancos da escola, cimentada na juventude e solidificada ao longo das suas vidas, até agora, que já pertencem ao grupo grisalho.

Unia-os muito mais do que o tempo passado juntos. Partilhavam uma forma semelhante de encarar a vida, uma maneira peculiar de interagir entre si e com os outros, um espírito solidário genuíno. E, claro, não faltavam discordâncias, pequenos amuos e até certas malandrices que não são para aqui chamadas, mas que, no fundo, eram o tempero e a argamassa daquela fraternidade inquebrantável. Como dizia um velho amigo comunista que ambos tinham: havia desentendimentos, sim, mas “nunca no essencial, na questão central”. E a questão central era esta: os dois tinham, um pelo outro, uma amizade inabalável.

Numa fase em que Morte Lenta andava mais em baixo, adoentado e macambúzio, Vivinho da Silva arrancou-lhe uma promessa solene: se alguma vez sentisse que o fim se aproximava, teria de avisá-lo. Não queria correr o risco de faltar ao velório e ao funeral do amigo. Mas os dias foram passando. Semanas, meses, anos… E Vivinho, sempre atento, começou a desconfiar. O amigo nunca mais lhe anunciava o fatídico dia! Algo de estranho se passava. Até que, um dia, não se conteve e perguntou-lhe, olhos nos olhos:

— Então, mas tu morres ou não morres? Ou andas a esconder-me quando morres? Sempre fomos amigos, não me digas que vai ser mesmo no último momento que nos vamos desentender!

Mas Morte Lenta nada dizia, apenas sorria com aquele ar de quem sabe mais do que conta.

O tempo continuou a correr, e a paciência de Vivinho começou a escassear. Foi então que tiveram uma ideia luminosa — ou completamente louca, dependendo do ponto de vista. Foram ao Registo Civil e pediram para trocar os nomes. Morte Lenta passou a chamar-se Vivinho da Silva e Vivinho da Silva passou a chamar-se Morte Lenta.

E foi aí que tudo mudou. O tempo, esse maroto, ganhou pressa. Pouco depois, Morte Lenta — agora oficialmente Vivinho da Silva — anunciou que ia partir para o seu Oriente Eterno, como ele sempre dizia.

No dia do velório, o agora Morte Lenta chegou de passos lentos, cabisbaixo, o peito apertado pela dor da perda. Aproximou-se do esquife, pousou uma mão sobre as do amigo, já entrelaçadas e rodeadas de flores.

Mas, de repente, o impossível aconteceu. O amigo que todos davam por morto correspondeu-lhe com um aperto de mão forte e caloroso, tal como sempre fazia.

Vivinho, ou melhor, o novo Morte Lenta, saltou para trás, lívido:

— Mas tu não morreste?!

E, com um sorriso maroto, o defunto respondeu:

— Não, estou bem vivo! Eu agora sou o Vivinho da Silva!

No mesmo instante, o outrora Vivinho, que agora era Morte Lenta, caiu para o lado. Esse sim, sem pestanejar, sem mais retorno.

Moral da história? Que viva a vida, companheiros de uma figa!

 

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