Nota de editor:
Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.
E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.
Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.
Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a sexta -, seguindo a própria estrutura.
FT
12 min de leitura
Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (6/8)
A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa
Coimbra, 20 de fevereiro de 2025
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Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento. JMota |
ÍNDICE
1ª PARTE – Introdução
2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto
3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF
4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país
5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta
6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC
7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril
8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político
ANEXOS
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(continuação)
6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC
Estas são, ou foram, pois, algumas das minhas circunstâncias, de entre as que me foram impostas e de entre as que eu próprio criei até essa altura. Precisava de sair daquele inferno, que era a Comissão Administrativa (da Cantina da Faculdade de Ciências). A única informação de jeito dada ao meu contacto era a informação de que a cantina iria fazer parte dos Serviços Sociais, tal qual a que está perto da reitoria e onde aprendi a ser universitário com muita daquela gente que viria a ser líder das diversas crises académicas. Não me posso demitir porque não tenho nenhum documento de que era o diretor. Depois do telefonema em torno de Belas, a saída tornou-se inevitável e urgente, mas tinha de esperar que fosse nomeado diretor. Caso contrário, a minha demissão não tinha qualquer sentido político. Nunca seria nomeado, sabemo-lo depois.
Entretanto o Reitor convoca-me para uma reunião na Reitoria na qualidade de diretor da Cantina. Tinha o que pretendia, um documento que confirmava que eu tinha o cargo de diretor. Retomo a conversa com o meu contacto e redijo uma carta aberta à Universidade em que ainda me lembro mais ou menos da entrada da Carta Aberta à Universidade, editada em papel azul e em formato A5, com frente e verso, creio, onde dizia mais ou menos o seguinte: na qualidade de diretor da Cantina da Faculdade de Ciências e em nome da dignidade da Universidade de que Vossa Exª é Reitor, peço a demissão das minhas funções.
Escrever isto por volta de 1965-6 não era coisa fácil, era coisa de grande risco, sobretudo, se não tem a almofada de ser da grande burguesia e Sttau Monteiro, em Todos os anos pela Primavera, refere-se bem a isso: ser preso como um zé-ninguém politicamente ativo ou ser filho da burguesia não era na PIDE a mesma coisa. Somos todos iguais, mas uns são mais iguais que os outros, terá dito Orwell. Dessa carta aberta à Universidade foram distribuídos milhares de exemplares, tendo ficado a edição desse texto a cargo do meu contacto do Movimento Associativo. Pessoalmente, não tinha nenhuma possibilidade de a editar.
A seguir a esta carta aberta houve ofertas financeiras mirabolantes para quem tinha os bolsos completamente vazios, ofertas estas que me dariam receitas naquela época situáveis no intervalo entre 12000 e 15000 escudos mensais e creio que mais próximo até do valor extremo deste intervalo. Recusei tudo, naturalmente, e fiquei reduzido financeiramente à expressão mais simples: a ter dificuldade em me alimentar, uma vez que os Serviços Sociais da Universidade Clássica me cortaram o subsídio de estudante, depois da carta aberta. Para ir comer à cantina da Universidade Clássica tinha de ir a pé, não havia dinheiro para mais. Entretanto mudo para o ISEG e as coisas recompuseram-se, mas essa história está feita, está publicada. Não vale a pena voltar a ela. Sublinhe-se apenas que os Serviços Sociais, a funcionarem junto do Conde Redondo, eram outros e, pelos vistos, sem grande comunicação com os Serviços Sociais da Clássica a funcionarem perto da Casa da Moeda.
Com essa carta aberta, o risco corrido era muito elevado e se alguém pensava que eu era do PC poderia ficar ali com a certeza de que assim era. Naquele tempo, a esquerda assumida era a do PC e o resto seriam grupúsculos a compor a paisagem. Mesmo aqui, penso que esta certeza poderia ser completamente abusiva, pois o PC não tinha o hábito de sacrificar os seus militantes para ter heróis e ainda por cima, politicamente de palha como seria o meu caso se eu militasse no PC. Podíamos pôr a hipótese contrária, a de que seria um alto quadro da PIDE. Neste caso, sabia que não corria nenhum risco, e passaria por ser um herói da esquerda e ganharia assim a simpatia dos estudantes para me infiltrar nos seus movimentos de esquerda. Mas nesta hipótese era uma exposição a alto risco e ninguém imagina a PIDE a colocar em risco os seus altos-quadros! E mesmo aqui não haveria nada de comum entre mim e o Nuno Álvares Pereira que pôs na prisão grande parte do Comité Central do PC.
Apenas numa leitura primária, simplista e errada da situação, a carta aberta, mostraria que qualquer uma das duas leituras seria possível quanto à razão que me moveria com a sua publicação. Seria então a leitura do meu amigo JG e a carta aberta viria assim dar-lhe algum conforto, dando argumentos para sustentar a sua tese, confirmando que tinha tomado a decisão correta. Mas isto é um tipo de raciocínio simplesmente simplista. Fora desse mundo simplista, nenhuma das duas hipóteses levantadas pelo J.G. é admissível. Resta então a questão do problema do Terceiro Excluído, eu não era nem uma coisa nem outra, eu era apenas alguém que vinha do outro lado do mundo, do mundo dos Zé ninguém, de um mundo que os universitários de então desconheciam por completo, de um mundo onde, na dureza da existência sofrida, se forjavam, se materializavam duas ideias centrais: a ideia da dignidade e a ideia de fraternidade. A carta aberta era apenas a expressão dessa outra realidade que era incompatível com a dualidade enunciada de ser um alto quadro do PC ou da PIDE.
Chegado ao ISCEF, em 1968, procuro manter as minhas ocupações e em recuperar culturalmente o tempo perdido, quer em termos de leituras, quer de cinema, ou mesmo de teatro, ou ainda em termos de política e de filosofia, entrando mesmo em círculos intelectuais da Brasileira ou da casa de Natália Correia, além de me dar também com os círculos da malta com quem convivi e com quem me dava desde os tempos difíceis do café Nova Iorque, embora de forma menos frequente. Adicionalmente estudava para alcançar uma média de 16 valores. O resultado foi ficar em situação de quase esgotamento. Clinicamente proibido de estudar durante alguns meses, fiz nesse período todos os exames na primeira época e dei diversas explicações, sempre gratuitas, a amigos meus para a segunda época em Economia e em Propedêutica Comercial. Foram três-quatro meses de contenção absoluta e, depois, tudo virou ao normal. As marcas, sem que eu me desse conta, ficaram.
Tive depois, no segundo e terceiro anos, professores de referência em Economia e por características bem diversas. Foram eles: Pereira de Moura, Alfredo de Sousa e Ramos Pereira. De Ramos Pereira fiquei amigo até à sua morte. Quanto a Alfredo de Sousa, sou por ele convidado duas vezes, uma delas para trabalhar diretamente com ele, uma segunda para aceitar uma bolsa garantida para ir para Cambridge trabalhar com o grupo Sraffa, ou para Varsóvia com o grupo Oskar Lange, ou ainda em Budapeste com o grupo Janos Kornai e Andras Brody. Recusei e com os seguintes argumentos: não sei suficientemente economia, não sei suficientemente matemática e, não sei suficientemente inglês e não estou disponível para deixar a minha mãe sozinha. Mais tarde tenho uma proposta equivalente, vinda de João Cravinho, com entrada no GEBEI e saída imediata para me especializar em Inglaterra: a mesma recusa e as mesmas razões.
Ainda em 1971 estou uma semana a discutir a Troca Desigual na casa de Arghiri Emmanuel em Paris. Sugeriu-me, face às dúvidas e esclarecimentos havidos, que escrevesse um artigo. Nem pensar, professor, os senhores estão no cimo da escada e eu estou abaixo do primeiro degrau, foi a minha resposta. Agradeci e ficámos por aqui. Nunca mais o vi. Foi-me mandando textos, alguns vieram parar à FEUC.
Há depois um debate internacional com economistas de vários países sobre a Troca Desigual, o tema na berra naquela altura, e sou convidado, creio que por Michel Debatisse. Pedi subsídio à Gulbenkian para ir a Paris. Foi recusado por não ser conferencista. Em 1973 sou convidado por Monteiro Alves e depois por Elsa Ferreira para a docência, respetivamente, de Economia Internacional e Integração económica. A professora Elsa Ferreira chegou mesmo a perguntar-me para onde é que gostava de ir trabalhar. A resposta é aqui relevante. Para nenhum outro lado, gosto do que faço aqui e estou aqui não só para ensinar, mas também aqui para aprender. De resto é isso que tenho feito ao longo da vida, até hoje, quando escrevo este texto.
Foi um tempo riquíssimo em que estudava teoria marxista heterodoxa, neo-ricardianos, além das disciplinas tradicionais e não só. Recentemente reencontrei um amigo daqueles tempos que tinha deixado de ver desde 1975. A minha carta aberta ao atual ministro Fernando Alexandre e recentemente publicada tinha circulado pelo ISEG. Este meu amigo encontrou-se com um colega que lhe deu a carta a ler. O meu amigo leu a carta até ao fim e caiu de espanto. Tinha o meu email, por circular entre um amigo comum, Almeida Serra, e escreveu-me imediatamente, queixando-se de um email que muito antes me tinha enviado e que ficou sem resposta. Teria ido para Spam. Na troca de correspondência que tem havido entre nós e relativamente àquele período diz-me o seguinte:
“Júlio
Desconhecia esses pormenores do Ricardo, embora soubesse que foi um grande economista, um dos grandes pilares da Economia [para mim, Ricardo não sabia matemática, mas todo o seu raciocínio é de pura matemática. Dá gosto lê-lo assim]. Saber matemática é diferente de ter um raciocínio tipicamente matemático, penso eu.
Eu sou suspeito, pois sempre gostei de Matemática e lecionei disciplinas ligadas à matemática, como Estatística e Probabilidades (cheguei a ser assistente do Prof. Bento Murteira), Investigação Operacional, Teoria dos jogos, etc. A minha opinião, pelo que percebi do teu comentário, não é muito diferente da tua.
Excluindo o matematismo, designação de Miguel Cadilhe num artigo da Revista da Ordem dos Economistas, que consiste no exagero e em utilizar a Economia como pretexto para fazer Matemática, esta é muito útil em duas vertentes:
- Na interpretação e análise económica, servindo como linguagem alternativa, muitas vezes mais potente e rigorosa dos fenómenos económicos e na interpretação e descoberta de proposições teorema da economia. Existem proposições e teoremas em Economia difíceis, e quiçá impossíveis, de compreender sem algum domínio da matemática. Isto para já não falar na linguagem gráfica, uma área das matemáticas, que muitas vezes torna simples coisas aparentemente complexas.
- Na gestão económica e na racionalização das decisões económicas, nas empresas ou a nível macro, pelo instrumental que disponibilizam para quantificação e otimização das mesmas. Por exemplo, vivi como é difícil tomar decisões racionais numa empresa petrolífera que tem à sua disposição (no mercado) 30 ou 40 “crudes” diferentes, em preço e composição, e com mercados diferentes na procura dos vários derivados, sem algum tipo de otimização. No caso concreto a Programação Linear (PL). Uma das primeiras indústrias a utilizar a PL foi a petrolífera, e lembro um dos trabalhos pioneiros, que foi a tese de Doutoramento em Economia de A. S. Manne (daria origem a livro), “Sheduling of petroleum refinery operations, Harvard Press, 1956. Curiosamente, penso que o orientador era John Keneth Gailbraith.
Ainda a propósito de von Neumann, já falado a propósito da Teoria dos Jogos, em 1937 publica “A Model of General Economic Equilibrium”, onde formula o modelo de programação linear dinâmica, em que admite alternativos de produção simples ou conjunta. Isto para não falar de economistas do passado, como Walras, Cournot, Leontief, e muitos outros, que conseguiram muitos resultados graças ao domínio das matemáticas. Foi em tua casa (ali na Conde Redondo) que eu vi, e folheei, pela primeira vez, o livro de Samuelson, Solow e Dorfman sobre “Linear Programming and Economic Analysis” e também o Pierre Massé, “Le Choix des Investissement), livro que mais tarde adquiriria e me seria útil como professor. Tiveste alguma influência na minha viagem pelas matemáticas aplicadas à Economia e à Gestão.
Manuel Ramalhete” – Fim de citação
Percebe-se, pois, que ao ir discutir o trabalho da disciplina de Planeamento, com o meu colega Gouveia Pinto, as duas professoras responsáveis pela disciplina nos tenham pedida emprestada a bibliografia. Eram tempos difíceis para todos, convenhamos.
O ISEG tinha entrado em derrapagem, como disse acima. Nesta minha fase de descontentamento pelo que se estava a passar no ISEG, veio a Lisboa convidar-me para ir para Coimbra, o professor Boaventura Sousa Santos, já na altura uma figura intelectualmente relevante desta cidade. Aceitei o seu convite para vir para Coimbra, e por cá fiquei. Comigo vieram Joaquim Feio, Adelaide Duarte, Antonina Lima, Arruda Teixeira, Sousa Andrade, Rafael Valverde. Outros mais e enquanto muito bons alunos do ISEG estavam para vir, e viriam, se não fosse a política assassina do PS de então contra as faculdades de Economia, uma política assumida por Sottomayor Cardia que refletia um anticomunismo primário e uma incapacidade de distinguir o trigo do joio numa sociedade em clara ebulição.
Deparámo-nos com uma enorme falta de meios, humanos e materiais, de falta de pessoal docente, de parque de máquinas, de falta de livros. A falta de meios era tal que ainda colocámos a hipótese de nos irmos todos embora no final do ano letivo de 75-76. Não o fizemos e por duas ordens de razões:
- Deparámos com uma enorme escassez de recursos, isso é certo, mas em contrapartida deparámo-nos também com um conjunto de gente culturalmente empenhada, disposta a todos os esforços para recriar uma Faculdade condigna. E refiro-me tanto a funcionários com funções de direção como a docentes e mais ainda, refiro-me também a alunos. Tanto assim, que alguns destes alunos, três anos mais tarde passaram a ser docentes da FEUC, como por exemplo, José Reis, Bernardo Campos, Pimpão e, depois, outros.
- Foi obtido garantia de que pelo menos se passaria a ter um parque de máquinas em condições para a edição de textos.
Dados os pontos 1) e 2), decidimos então ficar, e praticamente todos nós ficámos de forma definitiva. E dessa opção não estou nada arrependido. A primeira década na FEUC foi uma década extraordinária de trabalho e de dedicação de muita gente. É nessa década que a FEUC ganha notoriedade e estabilidade e muito desse desenvolvimento é devido à estreita colaboração de todos nós, e com realce muito especial para o trabalho de José Veiga Torres e de Boaventura Sousa Santos.
Em 1978 ou 1979, tive uma bolsa de estudo do Governo francês, com uma duração de 3 anos passível de ser estendida a 5 anos sob proposta do orientador, o Professor Claude Berthomieu, mas dado o muito que havia a fazer na FEUC só fui para Nice a meio do ano e estipulei comigo mesmo que levaria apenas mais dois anos para fazer a tese. Nesse meio ano, mais uma vez para recuperar tempo perdido, por um lado, e ganhar tempo futuro, por outro, estudava em média 14 horas por dia. Cheguei ao final do semestre a ter sinais claros de astenia psíquica, dito esgotamento nervoso. Era a linguagem da época. Parei de estudar e regressei a Coimbra. Diz-me o médico psiquiatra, um amigo meu já falecido, “o que te vale é que tens resistência de cavalo, senão ficas inaproveitável durante muito tempo”. Foram seis meses de atestado e terei sido, por imposição minha, o primeiro docente da Universidade a descontar no ordenado por estar doente. Tinha estado no Diretivo e não queria que se saísse do quadro estritamente legal.
Neste quadro, passei a ter medo de retomar o doutoramento não só porque já não teria o prazo de cinco anos como anteriormente, como sabia que uma derrapagem na resistência ao nível psíquico era agora mais provável do que anteriormente. E tinha mulher e filha, e tinha ainda a minha mãe para sustentar. Sentia que não podia correr riscos. Era uma contradição brutal. Tal como em 1975, com a Dra. Elsa Ferreira, continuava a gostar do que fazia, mas sabia que assim punha em perigo a possibilidade de fazer o que fazia. E vivi constantemente nessa indecisão. Sob proposta de José Veiga Torres e de Boaventura Sousa Santos, apoiados num parecer de dois considerados economistas de relevo, fui promovido a professor auxiliar convidado, e os seus proponentes terão tido alguma dificuldade em conseguir a aprovação da proposta, dada a resistência apresentada pelos docentes doutorados da casa e com dificuldades de passagem que se repetiram mais tarde quando no tempo de Jaime Ferreira foi rejeitado a proposta da minha passagem a professor associado convidado. Nenhuma recriminação contra ninguém quanto a isso.
Não me doutorei, diria, pelas minhas circunstâncias [26], mais uma vez Marx, e estas circunstâncias nada terão a ver nem com a falta de capacidades intelectuais nem com a alienação no trabalho, a história acima mostra-o, têm tanto a ver com a minha origem de classe, marcado por uma vida extremamente difícil e uma chegada tardia à Universidade, como têm a ver com a minha situação de classe, a falta de meios financeiros disponíveis caso eu clinicamente claudicasse. E pela minha origem de classe eu não podia claudicar.
Na década de 90, num jantar em que estava o José Reis e mais gente, o João Cravinho insistia, tal como o Boaventura, que eu me devia doutorar e mais ainda: insistia que os meus trabalhos feitos, desde que ligados, davam uma tese muito boa. Ele estava disposto a trabalhar comigo para se efetuarem essas ligações. Agradeci e recusei. O problema não era esse, não era um problema de ligações de textos. Isso faria eu facilmente, mas uma tese assim corresponderia sobretudo à necessidade de subir na carreira e poderia facilmente reduzir-se a uma questão monetária; na época as questões monetárias eram-me relativamente irrelevantes. Curiosamente foi isso que o Boaventura de Sousa Santos percebeu quando se referiu uma dada comunidade religiosa que, embora a viver muito desligada da materialidade do mundo (e da sua desmonetização) vivia, no entanto, bem menos desligada dela que eu! Mas o certo é que me habituei a viver sempre com o que tinha. Doutorar-me assim, não, não seria assim. A doutorar-me seria o desenvolvimento do projeto de tese em que eu pretendia ligar Ricardo, Marx, Sraffa e desembocava na teoria neo-ricardiana do comércio internacional e essa tese [27], essa estava fora de questão, exatamente pelas minhas circunstâncias. E lembrei-me do que disse um dia Jean Cartelier quando lhe pedi a tese dele: “não perca tempo, foi só para subir na carreira”.
Ao despedir-me da FEUC, em 2012, dos seus professores, dos seus funcionários, dos seus estudantes, escrevi:
“Está longe, muito longe, o tempo em que aqui cheguei. Com efeito, larguei em 1975 o ISEG cansado de um destino que aí se desfazia entre a exigência de notas dadas ou exigidas de mão no ar e a existência de um clima universitário que, por fruto da época, não era compatível com a minha pretensão de aproveitar os primeiros anos de docência para uma preparação de ordem científica, por um lado, para meu próprio interesse e estrita valorização pessoal e, por outro, tendo em conta a investigação de carreira, pois considerava que a formação adquirida até aí estava muito longe da que pretendia, para além de querer procurar sempre interrogar os textos que estudava, forma de estar que aprendi enquanto estudante. Estava ali para ensinar, é certo, mas também estava ali para estudar, para aprender. Não tinha tempo para mais. Assim, também recusei diferentes propostas de segundo emprego, por princípio, por um lado, e por não ter tempo disponível, por outro. Tempo de uma geração que aprendeu a interrogar, e a contestar também.
Foi neste contexto da degradação do ensino que vim para Coimbra e durante meses o ISEG continuou a pagar-me o ordenado, porque pensava que eu havia de voltar. Não voltei, fiquei. A preparação científica a que fundamentalmente ansiava, a formação face aos meus objetivos de perceção e de ação no mundo, essa, o tempo e a vontade sempre permitiram que fosse sendo feita. Para trás e para sempre ficou a investigação dita investigação de carreira ou, mais simplesmente, o doutoramento, que por efeitos de trade-offs não foi feito. Mas os sinais dessa inquietação quanto à perceção do mundo e a tensão ou a insatisfação intelectual que lhes esteve sempre subjacente permaneceram uma constante que tentei sempre transmitir a quem comigo estudava, a quem comigo partilhava as mesmas dúvidas, as mesmas interrogações, a quem comigo interrogava os mesmos conhecimentos.”[28]
Em relação a este meu texto escreve-me o Coordenador do Núcleo de Estudantes o seguinte:
“Li o seu texto com toda a atenção. 2 anos e meio passados desde que entrei no ensino superior e também a minha visão sobre a Universidade Pública e o Processo de Bolonha se alterou. Se antes os julgava Castelos, hoje reconheço que de areia são feitos e à beira de um mar de interesses. (…)
Nunca ninguém me tinha feito pensar tanto em tão pouco tempo e de forma tão diferente daquela como pensava. Mudei a minha forma de ver o mundo e as minhas preocupações e tenho pena que outros colegas não tenham a sorte de aprender consigo. (…)
Posto este pequeno comentário, deixo-lhe em meu nome pessoal e em nome do Núcleo de Estudantes de Economia os Parabéns, e desejos de um bom ano. Mesmo não estando ao serviço da UC, estou certo de que dedicará parte do seu tempo livre ao despertar de consciências por esse país fora, ainda que virtuais possam ser. Como já tive oportunidade de lho dizer (quando li a carta aos líderes parlamentares) é um grande orgulho ser seu aluno e aprender consigo muito do que vem nos livros, mas mais ainda do que vem da vida.” Assinado pelo Coordenador da Cultura-Núcleo de Estudantes de Economia
(continua)
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Notas
[26] Quanto a esta minha explicação diz-me Boaventura Sousa Santos: “És um primoroso diarista e os teus textos trazem sempre o sabor do tempo. A tua história do doutoramento não diz tudo nem se esperaria que o fizesse.”
[27] Ainda hoje defendo que para ler o tomo VI do livro III de O Capital se deve ler primeiro o tomo 1 do livro I desta obra, depois Sraffa e só depois é que se deve ler o tomo VI do livro III de O Capital.
[28] Um exemplo mais recente desta minha teimosia face ao que considerei como objetivo, uma teimosia em tudo semelhante à que estava subjacente no relato sobre a Fonte Luminosa, verificou-se por volta de 2010. Terei lido algures de que a Goldman Sachs (grande banco de investimento americano) terá beneficiado de favores do CBOT (Chicago Board of Trade), a mais importante bolsa do mundo em produtos de base. Ninguém de entre os meus conhecidos acreditava que isso fosse possível. Não encontrando resposta em Portugal, escrevi ao diretor da University of Massachusetts Amherst com quem me correspondia. Respondeu-me que não estava à altura de responder às minhas questões e sugeria-me que contactasse Chris Dodd, na altura diretor do Center for Financial Stability. Ele próprio lhe iria enviar a minha carta e sugeria que quando lhe escrevesse lhe dissesse que ia da sua parte, Gerard Epstein. Assim fiz. A resposta foi imediata: são questões demasiado sérias para serem tratadas por escrito. Indique-me o seu número de telefone para falarmos sobre o assunto. Problema pessoal: eu não sabia falar inglês para aguentar uma conversa com um dos mais importantes especialistas americanos sobre alta finança. Agradeço e disse que, entretanto, já tinha resolvido as minhas dúvidas, o que parcialmente era verdade. Consegui tirar as duas principais dúvidas com um trader meu amigo pessoal a trabalhar na Ásia. E confirmou-se à posteriori a razão de ser das minhas dúvidas: o impensável era afinal bem real. Havia mesmo favores especiais da CBOT para com a Goldman Sachs, que poderia ultrapassar os limites de especulação a descoberto, porque era uma Instituição demasiado grande para poder falir.



