Nota de editor:
Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.
E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.
Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.
Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a sétima -, seguindo a própria estrutura.
FT
13 min de leitura
Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (7/8)
A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa
Coimbra, 20 de fevereiro de 2025
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Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura de Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento. JMota |
ÍNDICE
1ª PARTE – Introdução
2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto
3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF
4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país
5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta
6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC
7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril
8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político
ANEXOS
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(continuação)
7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril
Esta minha visão da desmonetização da vida foi igualmente bem captada por Soares da Fonseca e por um médico amigo, grande especialista em alergologia. O primeiro diz-me que um tipo com as minhas características só podia ser uma de duas coisas: ou muito rico ou pobre. Escolheste ser pobre e para nosso bem, foi a sua conclusão. O especialista em alergologia numa consulta à minha neta diz-lhe o seguinte: “olha, é pena que o teu avô seja de Esquerda. Se fosse de Direita, vocês estariam na vida muito melhor”. Depois, a minha neta perguntou-me o que é que ele queria dizer. Deixei-me rir e disse-lhe: o que ele quis dizer era que eu não tinha espírito de capitalista. Só isso. E não tenho, de facto.
Enfim, as minhas circunstâncias foram o que foram. Mas curiosamente há um momento crítico em que essas circunstâncias desapareceram, em que perdi o medo e em que podia mais facilmente entrar em situação de stress extremo do que a fazer o doutoramento. E aqui não hesitei, talvez por uma outra razão e bem simples: tratava-se de manter de pé um projeto que era coletivo e não individual meu, como seria o de doutoramento. Na minha carta de despedida da minha Faculdade escrevi:
“E a um outro nível, e sem querer com isso fazer quaisquer comparações ou exclusões, um diferente tipo de inquietações com outros partilhei e, nesse sentido, devo aqui recordar um dos anos mais violentos da minha vida profissional, o ano em que a Faculdade esteve em risco de ser fechada, devo aqui recordar a extraordinária camaradagem que envolveu todo um Diretivo que, sob a presidência serena, competente e muito eficaz do Professor José Veiga Torres, a um muito bom porto a Faculdade conseguiu acostar. Afinal, este porto éramos todos nós coletivamente, descobrimo-lo mais tarde. Arte do Professor José Veiga!
Também a um outro nível devo recordar um outro ano muito difícil em que fiquei como presidente do Conselho Pedagógico, ano em que a Faculdade se repartiu por vários sítios, ano também em que este Conselho como um todo se defrontou com sérios problemas de ordem pedagógica, dada a dispersão espacial em que as aulas da FEUC funcionaram; e, como se isto não chegasse, deparámo-nos ainda com o exemplo do que é não ser professor e que envolveu a disciplina de Contabilidade Geral. Essa mesma linha de disponibilidade para interrogar tudo o que estudava também a procurei sempre transmitir a todos aqueles estudantes que por todos nós passaram, de licenciaturas a mestrado. Disso se confirma também quando há dias a arrumar papéis do que haveria ou não de largar ao esquecimento, leio uma dedicatória de alguém que por esta casa passou e onde me agradecia, na sua tese de mestrado que eu não orientei, porque “siempre estuvo listo para resolver mis dudas y ayudarme a estudiar y a aprender, que me ensegno a romper a barreira del medo a no saber e me dio confianza em mi”. A querer vencer os cones de sombra da nossa ignorância foi assim que aprendi a ser estudante, foi assim que quis ser professor e foi assim que sempre ensinei, ou seja, a perder o medo de não se saber e só há uma forma séria de o perder, que é a de procurar saber.” Fim de citação [29]
Nesta última fase trabalhei bem mais e com muito mais tensão do que quando estava em Nice para doutoramento. Curiosamente desse trabalho, que foi coletivo, acrescente-se, e desse tempo, que eu saiba, não há nenhuma referência institucional ao trabalho em grupo realizado. Um exemplo extremamente caricato desta falta de referências é apresentado em anexo 4 a este texto.
Há ainda duas outras razões sobre as quais as pessoas se poderão rir, mas eu não, que me condicionaram na ida para o doutoramento: temia a Sala dos Capelos e porquê? Temia-a pelo valor simbólico do que ela representava como expressão do saber acumulado de gerações, temia-a também por uma outra razão que pode parecer estranha. Tinha (não tenho agora) uma dicção complicada e só mais tarde corrigida por 4 pequenas intervenções cirúrgicas. Temia complicações a esse nível, que me desnorteasse com críticas que a esse respeito me fossem feitas. Considero-me um homem tímido, muito tímido mesmo, sobretudo quando falo em público, o que evito tanto quanto o Diabo evita a cruz, mas não o sou em círculos restritos e isso deriva exatamente de durante décadas me debater com problemas de dicção. As marcas ficam: não há pior disco duro que o nosso cérebro, disse-me uma vez um amigo meu da maxilo-facial dos HUC, Carlos Alberto, hoje reformado. E o meu disco duro não se apagou.
Temia ainda o uso das fardas académicas, e só bem mais tarde com um discurso do José Veiga no doutoramento Honoris Causa de Aristides Pereira é que percebi a sua importância, desmontando-se a partir daí a minha alergia aos cerimoniais académicos.
Marx terá dito em Grundrisse (cito de memória): diz-me não o que comes, diz-me como comes e eu dir-te-ei de onde vens. Dou um exemplo sobre esta afirmação de Marx: imagina que vou almoçar ao melhor restaurante de Coimbra. As entradas são do melhor que há e estão na mesa as diversas variedades de enchidos de porco de pata negra, paio do lombo, paio do cachaço, paia, paiola, presunto fino, admite que há também uma muito boa tábua de queijos, com queijo da serra São Gião, de Serpa, de Azeitão, queijo de dois anos dos Açores, e ainda há queijos estrangeiros como o Manchego ou Old Amsterdam Classic ou Vintage. Admite ainda que está na mesa uma tigela com azeitonas de boa qualidade. Qual é a primeira entrada que eu começo a comer? Simplesmente começo pelas azeitonas com pão e nem imaginas com que alegria. Porquê? Porque no meu imaginário está o pão e as azeitonas que as crianças do meu tempo comiam para encher o estômago. É simples, é o disco duro a trabalhar e a que velocidade!
Podemos pegar na mesma frase de Marx e colocar vestes em vez de comes e temos: diz-me como vestes e dir-te-ei de onde vens [30]. E, desde a adolescência, nunca fui capaz de vestir um fato! Dois exemplos:
- Do tempo de marçano o casal que me levava para casa para falarmos do livro lido decidiram oferecer-me um fato, novo em folha. Eu andava vestido como os outros, nem bem nem mal. Gostavam de me ver mais bem vestido. Falharam o alvo. Disse-lhes que o fato ficava melhor ao meu pai e foi este fato que levou para a campa.
- No final dos anos 90 comprei dois fatos na Carlo Visconti. O boss da fábrica engraçou comigo e fez-me o preço como se fosse para ele. Cerca de 30.000 escudos por fato. Eram de tecido Cerruti. Custavam nas boas lojas de Lisboa, do tipo Lourenço e Santos ou Pestana e Brito, 120.000 escudos. Experimentei-os em casa, senti-me mal dentro deles e dei-os. Ironicamente eu resumia a situação da seguinte forma: deem um fato velho ao Joaquim Feio que ele fica imediatamente novo, deem-me um fato novo que eu fico imediatamente velho. As marcas da origem de classe ganhas na adolescência eram aqui bem nítidas.
De novo, as circunstâncias de Marx e de Ortega y Gasset. Não nos podemos, pois, esquecer que eu venho de muito longe até chegar aqui. Pode ser patético, mas é a realidade e esta realidade sentida, quando posta noutros termos, significa que, tomando como base o meu ponto de partida, socialmente no ponto mais baixo da escala do sucesso e o meu ponto de chegada, ter sido uma das figuras relevantes na construção daquilo que na década de 80-90 se considerou uma das melhores Faculdades de Economia do país (a FEUC de então), percorri muitos mais quilómetros de vida, de estudo e de reflexão, do que a maioria dos doutorados que por aí circulam.
Terá dito René Maheu nos anos 70, (cito de memória), na altura diretor geral da Unesco, que os sonhos são a almofada em que assenta a vida. Pela parte que me toca e desde a resposta que dei à Dra. Elsa Ferreira em 1974, que tive como lema, como aspiração, ser enquanto professor, fazer o melhor que me era possível fazer. Nisso, acredite-se ou não, sinto-me completamente realizado.
A terminar este já longo texto, veio a Coimbra o meu amigo de longa data, Carlos Gouveia Pinto. Este falou-me da entrevista dada por Daniel Traça no canal 3 a esse grande jornalista que é Vítor Gonçalves, um jornalista de referência, acrescente-se, dizendo-me que a deveria ver. Deu-me a síntese dessa entrevista e disse-me que muito do que Daniel Traça disse traduzia a prática do nosso grupo de trabalho no ISCEF enquanto estudantes, do 3º ao 5º ano que assenta num espécie de esquema de aprendizagem em T defendida por Daniel Traça, a formação de polímata, caracterizada por áreas de estudos centrais e por áreas de estudo transversais. Fui visionar a referida entrevista.
Gostei, da forma como defendeu o ensino em T, gostei que tenha referido que esse tipo de ensino exige muito tempo, muita dedicação e, acrescentaria eu, muito dinheiro também. Evidentemente, o meu T, igual na forma ao de Daniel Traça, na sua estrutura, os conteúdos, de polímata a ensinar nada terá a ver com o dele, nem nas faixas etárias em que se podem aplicar, nem nos conteúdos a aprender. Falar de Columbia, é falar de uma ultra-elite e ultra-seleccionada e não podemos confundir esta árvore com a imensidão de uma floresta, o ensino nacional de qualquer país. Nem podemos escamotear que não estamos genericamente a formar gente de qualidade: as exceções são exceções, não a regra. Além de que uma formação em T de qualidade exige tempo de formação longa, o que Bolonha simplesmente impede. Deixemo-nos de demagogia quanto à qualidade fornecida hoje aos nossos licenciados. Quanto ao método em abstrato, o T, se o meu amigo Gouveia Pinto tinha razão, na sua explicação sobre o que disse Daniel Traça, acho que o que Traça refere com o seu T terá ainda mais a ver com aquilo que fizemos ao longo de mais de duas décadas de ensino na FEUC em conjunto com dois colegas, Margarida Antunes e Luís Peres Lopes, do que com o que eu, o Gouveia Pinto e os restantes elementos do nosso grupo de trabalho (9 pessoas) fizemos no ISCEF entre 1971 e final de 1973.
Ainda como docentes, publicámos na revista Aba Larga um artigo sobre a nossa prática académica dos últimos anos, tomando como referência uma Iniciativa intitulada o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, para cuja realização tivemos o apoio financeiro da Fundação de Ciência e Tecnologia, Caixa Geral dos Depósitos, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Luso-Americana.
Nesse artigo dizia-se, e passo a citar:
“Hoje, pode dizer-se que o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC é uma organização que tem como objetivo principal o envolvimento da comunidade estudantil, da comunidade universitária e da cidade de Coimbra em reflexões sobre temas essencialmente de ordem económica que têm marcado o ritmo, a intensidade e os acontecimentos da economia global. Em cada Ciclo, escolhe-se um tema genérico e a sua discussão é feita ao longo de várias sessões, cada uma com um subtema específico e que envolvem colóquios ou conferências dirigidas ao público universitário em geral e projeção de filmes/documentários temáticos, seguida de debate, abertos também ao público da cidade.
Esta configuração é o resultado de um caminho já iniciado há mais de quinze anos e que tem como ponto de partida a disciplina de Economia Internacional, lecionada no curso de Economia da FEUC. É uma disciplina que exige um certo formalismo quer do ponto de vista analítico quer gráfico, exigente assim no plano lógico. Julgamos relevante por isto motivar o estudante para a compreensão e a aquisição dos conteúdos teóricos e suscitar o seu interesse pelas matérias a partir do conhecimento da realidade económica associada a esta disciplina. Simultaneamente, este tipo de exercício permite refletir de modo crítico o conjunto dos teoremas que dão corpo teórico à disciplina, tornando estes em termos de raciocínio abstrato e em termos emocionais, menos distantes dos estudantes.
Para isto, começámos a introduzir no regime de avaliação contínua componentes que exigem a leitura e a análise de livros-ensaios sobre temas da realidade económica de hoje que está quase sempre para além de qualquer manual, e que julgamos necessários para a formação de base de um economista; exige-se ainda a transposição para a forma escrita do trabalho resultante. Com isto, procura-se também reforçar ou estimular no estudante o interesse pela leitura, pela análise do que se leu em confronto com a teoria e igualmente motivar para a escrita.
Por esta via, procura-se enfim aprofundar o que julgamos essencial na função da Universidade, que é fazer de cada estudante um cidadão capaz de refletir, pensar criticamente, as questões do seu tempo, a sua sociedade, a sua economia. Aliás, função esta que a Universidade de Coimbra (UC) espelha claramente nos seus Estatutos, quando no artigo 2, intitulado “Missão”, no n.º 1, se pode ler: “A [UC] é uma instituição de criação, análise crítica, transmissão e difusão de cultura, de ciência e de tecnologia…”
Este tipo de método de avaliação contínua, mas simultaneamente uma metodologia de ensino, mantendo-se no tempo, exige que os livros selecionados variem de ano para ano, o que nem sempre é fácil no quadro do mercado livreiro nacional. Por essa razão, e para preencher estas necessidades, muitos dos livros já utilizados foram publicados em Portugal e tornados acessíveis ao leitor em português sobre proposta nossa, sendo de destacar obras como O Debate Tabu, de Jean-Paul Fitoussi, O Futuro do Sucesso, de Robert Reich, A Armadilha da Globalização, de Hans Martin e Harald Schumann, Globalização: A Grande Desilusão, Os Loucos Anos 90 e Tornar Eficaz a Globalização, os três de Joseph Stiglitz ou A Ilusão Neoliberal de René Passet e outros mais.
Este objetivo enquadra-se nitidamente na “Missão” que a UC assumiu nos seus Estatutos, quando no artigo 2.º se escreve, no n.º 1 (na sequência do texto anteriormente citado), “A [UC] é uma instituição… que, através da investigação, do ensino e da prestação de serviços à comunidade, contribui para o desenvolvimento económico e social,… para a promoção… da cidadania esclarecida e responsável e para a consolidação da soberania assente no conhecimento” e, no n.º 2, “A Universidade tem o dever de contribuir para: a) A compreensão pública das humanidades, das artes, da ciência e da tecnologia, promovendo e organizando ações de apoio à difusão da cultura humanística, artística, científica e tecnológica, disponibilizando os recursos necessários a esses fins…” Fim de citação
Por aqui é-se claro, quanto a exigências de leituras a que nos obrigávamos para levar em frente um projeto pedagógico de profunda dimensão, diria mesmo que era único a nível nacional .Essa era uma ideia do trabalho de leituras a serem feitas que alguns alunos mais atentos teriam do meu comportamento enquanto professor .
Um acontecimento banal exemplifica isso mesmo. Recentemente fui ao Café Santa Cruz comprar uma caixa de bolos Crúzios. Olhei para o empregado, a cara era-me relativamente familiar. Era a cara do pai, o dono do café. Perguntei se eram frescos. Diz-me que sim, que tinham acabado de chegar. Paguei. E quando pego na caixa para me ir embora, diz-me o vendedor: espere aí, tenho aqui uma coisa para lhe dar. O que é que terá para me dar, interroguei-me. Vira-se um pouco e tira uma coisa que estava numa espécie de prateleira e com um sorriso diz-me; Tome, sei que lhe vai ser útil. Sei que lê muito.
Espantei-me e questionei: como é que sabe que leio muito? O mesmo sorriso enigmático e diz-me: foi meu professor, já lá vão mais de 30 anos. Como é que não hei-de saber isso? E não creio que tenha mudado. E a oferta foi este marcador de leitura de livros:
Fiquei contente pela simplicidade do inesperado reconhecimento.
Considero-me explicado quanto às minhas circunstâncias e ao peso que elas tiveram na minha decisão de não doutoramento, quanto ao tempo e à dedicação de que fala Traça, nada disso me faltou, foi nisso que consumi grande parte da minha vida ativa, portanto, a expressar o que chamo o espírito de missão. Confortado com uma boa almofada de apoio, como diz Maheu, dir-vos-ei que não me arrependo em nada das opções profissionais que fiz. De resto, escrevi-o há já muito tempo e mantenho-o. Já agora posso dizer com uma forte sensação de orgulho, que se trata de missão cumprida e sem equivalente na Faculdade que a viu realizada. Custou tempo, muito, custou dedicação, muita, mas garanto-vos que o prémio foi para mim compensador.
Ora, ver essa metodologia defendida agora por um neoliberal da Universidade Nova enche-me de satisfação, mas não esqueçamos que a substância no T não é a mesma, nem os tempos em que o T deve ser aplicado; só há projetos estudantis válidos se houver uma boa formação aprendida e apreendida, endogeneizada, só há projetos estudantis válidos se realizados na extensão da formação e como parte integrante dela. Defender e fazer o contrário é uma pura fraude intelectual e é esta fraude que tem sido praticada pelos nossos neoliberais [31], sejam eles de esquerda ou de direita, se bem que a expressão neoliberais de esquerda seja uma contradição nos termos: os ditos neoliberais que a assumam.
A tese de Daniel Traça de projetos, projetos, projetos, só é válida na base do que acabo de enumerar, de conhecimentos teóricos sérios e de tempo de maturação intelectual adequada. Sem isso, é, do meu ponto de vista, uma pura fraude. Veja-se o exemplo da Nova FEUC, numa reforma criada e tutelada por Álvaro Garrido, Tiago Sequeira, Pedro Godinho e com apoio dos restantes doutorados onde, por exemplo, uma disciplina obrigatória dita Projeto Integrador, integrador dos conhecimentos que não se lecionam, substitui e significa que duas outras disciplinas de matérias obrigatórias deixam de ser ensinadas, ou ainda tão grave quanto isto, onde o ensino de Matemática é reduzido a metade do que antes se fazia. Assim, deve-se falar em geração mais qualificada de sempre ou antes, em geração apenas mais diplomada?.
Responsabilidades desta dinâmica de degradação das capacidades cognitivas da nossa juventude, quem as assume? Não é Daniel Traça certamente, para quem os nossos licenciados são de qualidade, embora com um ensino afunilado. Desafunilando-o, então tudo bem! Os pontos de interesse da tese de Daniel Traça, e tem-nos, acabam assim por se transformar em poeira para os olhos [32] como se tem estado a ver, mas não brinquemos com o ensino, não brinquemos com o futuro das novas gerações. Estas não nos perdoarão por termos feito delas um conjunto de cretinos digitais e de termos feito das universidades parques de estacionamento para estes jovens acederem à precariedade que o mercado tem para lhes oferecer.
(continua)
Anexo 4 – . Sobre os ditos ou não ditos
Há uma pequena história curiosa quanto ao silêncio sobre coisas que são feitas. No início da vaga de computadores havia apenas 1 computador Philips na FEUC. Entretanto vingava a vaga dos Apple. Entrei nessa vaga e queria comprar um PC. Um administrador da Bull arranjava-me um Goupil, um computador francês de referência situado na gama média alta, a um preço especial, o preço de importador. Não percebia nada de computadores e fiquei hesitante entre Goupil e IBM. Haveria de encontrar quem me esclarecesse sobre qual seria a melhor opção para comprar. Um dia, estava eu na Avenida de Roma, no cruzamento com a Avenida da Igreja, em Lisboa, ao ver à minha frente o edifício da IBM interroguei-me se não valeria a pena deslocar-me ao edifício e informar-me. Se o pensei, melhor o fiz. Dirigi-me ao edifício da IBM, devo ter dito que era professor universitário, o que sei é que fui levado ao gabinete de um dos diretores de Departamento, de nome José de Sousa, se não estou em erro. Foi conversa de uma tarde, entre um nabo em informática, que sou eu, e um dos especialistas da mais importante empresa mundial em informática. Falámos de muita coisa e, estou a puxar pela memória, falámos da necessidade de desenvolver a utilização da informática, dos perigos da sua utilização intensiva pela parte dos estudantes, do ensino universitário em Portugal. O resultado foi o seguinte: ficámos a dar-nos bem e mais ainda:
– Foi-me disponibilizado um computador por empréstimo enquanto não adquiria o meu. Creio que foi um IBM 386 ou talvez um 486. Mais tarde adquiri um tower PS2, um computador espantoso para a época. Ambos os computadores foram comprados na Consiste e vendidos pelo António Maranha. A urgência da compra foi para mim muito importante para impedir que se entrasse em insinuações. E o computador emprestado foi entregue ao seu proprietário, a IBM.
– Foi conseguido que a IBM equipasse gratuitamente a FEUC com uma sala de computadores, um assunto que foi depois tratado com o Pedro Ferreira e com a Rosário Pericão. Assim foi equipada uma sala do piso zero com computadores IBM 386SX.
Estava na direção da FEUC o professor Romero de Magalhães. Foi assinado o protocolo na sala dos computadores, na presença do Pedro Ferreira, do Eng. José de Sousa da IBM e do Romero de Magalhães. Necessariamente estive presente, fora da sala, o que é normal, mas o que não foi nada normal foi o Diretor da FEUC, ao entrar na sala, dizer-me com ar carrancudo que tinha a impressão de que eu me andava a meter onde não era chamado. Sorri-lhe na cara, talvez até com um ar de alegria e pensei: este é dos dias em que o estimado Professor Romero passa todas as marcas de boa educação. Sorri-lhe na cara, tão caricata era a afirmação, e creio que isso ainda o enfureceu mais. Esperei fora da sala que a sessão terminasse para cumprimentar o representante da IBM e fui-me embora depois.
O assunto morreu ali e continuámos a respeitarmo-nos. Quando foi a votação da minha passagem a professor auxiliar votou não e disse-mo, por isso o sei. Porquê? Porque achava que eu deveria ser penalizado por um período de mais dois anos, porque era imperativo para a Faculdade que eu me doutorasse, foi a explicação dada e por mim aceite. E para lá daquele incidente de extrema má-educação, respeitámo-nos sempre. Não é por acaso que, quando Paul Samuelson veio à Nova Paul Samuelson, fui eu o seu representante junto de Alfredo de Sousa. [Como nota à margem, os estudantes da Nova estavam em greve de protesto contra os elevados níveis de reprovação dizendo mais ou menos isto: que não queriam ser a melhor Faculdade do país pela elevada taxa de chumbos]. Dada a forma habitual de me apresentar, casual, de calça de ganga e polo, com pasta a tiracolo, fui considerado jornalista e rodeado pelos estudantes até que consegui dizer que era professor na FEUC e estava em representação do diretor da minha Faculdade. Ouvi-os e depois da conferência tornei-me porta-voz deles e fui falar com o Manuel Sebastião, meu antigo colega do ISCEF!
Houve alguma nota de reconhecimento do meu papel neste processo na FEUC? Que eu saiba nem uma linha. Poderia aparecer uma ou outra linha no livro luxuoso que a Nova FEUC publicou nos seus 50 anos de vida. Poderia? Bom, o que apareceu foi o seguinte na página 43:
“No âmbito do programa de desenvolvimento do Centro Informático que foi desenhado, a FEUC comprou material Apple e a IBM ofereceu material para partilha de impressoras com a possibilidade de uma das máquinas mais potentes funcionar como servidor de forma a não sobrecarregar os outros computadores” Fim de citação.
Tudo dito ou nada dito?
Notas
[29] Nessa altura, um grande amigo meu, Boaventura de Sousa Santos, chegou a perguntar-me se eu tinha consciência de que estava a levantar contra mim as forças obscuras da cidade, devido à questão de Contabilidade Geral. Respondi-lhe mais ou menos isto: tenho consciência disso, mas também tenho consciência de quais são as minhas obrigações como Presidente do Conselho Pedagógico e destas não estou disponível para abdicar.
[30] Sobre esta questão um amigo meu reagiu ao meu texto sobre o não doutoramento, com um texto muito irónico cuja leitura aconselho. Segue como anexo 3. ao meu texto.
[31] Como exemplo temos a política neoliberal do PS dos últimos anos aplicada no ensino e que pode ser sintetizada no programa MAIA (Monitorização, Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica). uma metodologia avaliativa de contornos kafkianos que o ministro da Educação foi insinuando nas escolas, sugerindo uma “adesão voluntária” que rapidamente se tornou, em muitos lados, imposição de uma pseudo-pedagogia normativa e totalitária. Passando em revista a retórica “eduquesa” com que o projeto tem sido vendido Luís Filipe Torgal faz um diagnóstico certeiro desta calamidade e da forma branda e resignada como está a ser acolhida nas escolas. Luís Filipe Torgal escreve:
“Decerto que podemos já tirar uma ilação da alegada aplicação das «novas» pedagogias no domínio da avaliação: o sucesso educativo inflacionou e as percentagens de retenções diminuíram drasticamente. E tais cifras fazem a felicidade das direções das escolas, do ME, do seu ministro e inspetores, bem como de muitos alunos, pais e professores. Paradoxalmente, a maioria dos alunos chega hoje ao ensino secundário e ao final do liceu pior preparados nos planos científico, literário e cívico. Trabalham menos, leem, interpretam e escrevem pior, revelam menos conhecimentos e – problema que não é de somenos importância – exibem comportamentos mais indisciplinados nas salas de aula.”
Se continuamos a descer o nível de exigência no Superior e com o nível do Secundário a descer não será incorreto dizer que estamos a caminhar para o abismo da ignorância.
[32] Isto é muito simples de explicar. Nos dias de hoje, os métodos por nós aplicados na FEUC não seriam exequíveis e por duas razões: 1) os conhecimentos com que os alunos chegam ao terceiro ano hoje não têm nada ver com os conhecimentos com que chegavam ao mesmo ano naquela altura: 2) o nível de maturidade intelectual dos nossos estudantes de hoje, também por isso mesmo, mas não só, é claramente inferior ao dos estudantes de então. Repetir hoje estes métodos seria pura e simplesmente estar a atirar poeira para os olhos.




