Esta Carta pede um tratamento diferente, tanto pelos tempos que vivemos como pelas figuras que assumem os ‘papéis’ principais nos dramas que assumiram representar.
Se olharem em volta, nas ruas, nos bairros ou em urbanizações não exclusivas, nos autocarros das idas e vindas para o trabalho, nos cafés, nos balcões das mercearias ou nos corredores dos supermercados, quando as pessoas falam das rendas das casas, do preço dos ovos, do azeite ou de um molho de grelos, é facílimo notar como a gente tem medo.
Medo de não encontrar um sítio para viver, de ter trabalho e ser obrigado a ir viver a muitos quilómetros de distância, situação que, desde a última crise, em 2008, ninguém pode contar com nada, por os dirigentes falarem de zonas de conforto (qual?) que ninguém explica, mas a apontar, nas palavras do escritor e professor universitário Carlos Fortea, ao ‘Nueva Tribuna’ de 25 de Fevereiro, ‘Tudo nos conduz para uma sociedade de meninos de colégio que se colocam atrás do fanfarrão, para não serem as próximas vítimas’.
Um medo que também se nota nas nações e países, acrescenta Fortea, que faz com que a Europa não seja consciente do seu imenso poder económico, e da sua capacidade para enfrentar com êxito as bravatas de tais fulanos e, ‘assim perder a oportunidade de ser a referência para todos os que não querem submeter-se ao medo’.
E o medo chega de muitas maneiras, nos órgãos de comunicação mais populares e nas redes sociais, dos mais pequenos aos maiores, como demonstrou uma jornalista de um jornal europeu: criou um perfil falso no TikTok, como sendo um estudante apaixonado pelo futebol, e sem interesse pela política. Só que, em poucas semanas o seu feed estava cheio de mensagens dos partidos de extrema direita, sem sinais de outros partidos ou candidatos. Der acordo com a jornalista, os algoritmos estão desenhados para maximizar o ‘engajamento’, ou a participação e colaboração, uma atitude que parece ter sido abandonada pelos partidos tradicionais e da esquerda, por se recusarem a competir com essas plataformas.
Na verdade, a ignorância não consiste na falta de informação, mas em não a saber interpretar segundo a verdade e, nestes tempos, somos obrigados a olhar para a grande maioria dos órgãos de comunicação e redes sociais, como fautores da falsidade e da mentira; note-se como os mais importantes –Washington Post, Facebook, X e outros de menor calibre, renegaram o uso de controlos de falsidades– principalmente desde a chegada do trumpa ao poder.
Aliás a associação trumpa/musk, é a maior e mais vergonhosa manifestação de como o domínio do digital e do ouro, estão a ganhar o poder político sem ter de recorrer a partidos ou a conselhos de ministros, para determinar os linhas da economia e da política, de acordo com os interesses pessoais, pois as nomeações para qualquer cargo, passam pela quantidade de dinheiro dos candidatos a assumir o lugar e, assim e por isso, temos um governo de multimilionários a gerir tudo nos state.
O filósofo Parra Montero, lembrou-se e lembrou-me também que T. S. Elliot escreveu um dia, ‘Somos os homens ocos /Somos os homens recheados /Inclinados uns aos outros /Cabeças cheias de palha. Ai de nós!’. Tenho pena de ver por esta Europa sem consciência de si mesma e do que pode valer, políticos a tentar imitar o trumpolineiro, mais o seu tutor e padrinho, de tal maneira que muitos cidadãos de todos os países europeus já parecem dar mais importância às identidades nacionais que a sua cidadania europeia.
O professor catedrático José Mendes, lembrou também, em crónica no DN, ‘O problema dos poderosos é que não habitam aos pares. Por norma, entram em choque na disputa pelo poder e pelo protagonismo. Por isso, sou dos que suspeitam que a proximidade de Musk e Trump tenderá a ser explosiva. Isso poderia ser bom, porque um afastaria o outro. Mas poderia ser também mau, porque abriria uma guerra fratricida entre dois homens muito impulsivos, que dispõem de meios de litigância verdadeiramente destrutivos. O mundo não ficaria mais seguro’.
Juntemos a esta situação, o mandão do leste europeu, Putin, o terceiro factor do medo nas vidas de todos nós, a seguir as palavras do escritor Juan Tallón, na crónica de 23 de Fevereiro para a ‘Cadena Ser’, apresentando uma solução milagrosa para a situação, que traduzi assim, ‘Pretendo reverter um erro textualmente. Nos computadores, esse espírito é representado pela tecla ‘delete’, com que se apaga o que é preciso. Só que desastres não terminam assim geralmente, mas é bom imaginar que na segunda-feira Trump e Putin começarão a andar para trás, em câmara lenta, até que um dia acabarão no ventre de suas mães, de onde foi uma pena terem saído’.
E disse António Gedeão, ‘Eles não sabem, nem sonham, /que o sonho comanda a vida. /Que sempre que um homem sonha /o mundo pula e avança /como bola colorida /entre as mãos de uma criança’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor