CARTA DE BRAGA – “Do segundo parágrafo ao futuro incerto” por António Oliveira

Mas quem é que, diabo, lê o segundo parágrafo?’, pergunta o director Burns (Walther Matthau) ao jornalista Johnson (Jack Lemnon) por não mencionar o jornal ‘Examiner’, quando escreve a notícia da fuga de prisioneiro na véspera da sua execução. E perante a resposta de Johnson, ‘Aqui no segundo parágrafo’, o director atira-lhe pela segunda vez ‘E quem é que o lê, f…?

Este era (foi) um diálogo normal nas redacções daquele tempo (anos 20) e mesmo até há alguns, poucos, anos, quando o dr. Google e os seus irmãos menores, ainda não tinham introduzido a urgência nos jornais, urgência acompanhada por imagens e microfilmes, que fazem que só os leitores de café, leiam tranquilamente as notícias todas, e até passem o jornal ao esperante mais próximo, por serem clientes habituais, alguns dos quais começam mesmo a leitura de trás para a frente, por as páginas finais trazerem a necrologia.

E agora, quando a Ucrânia e o seu líder ‘sem gravata’ que, por isso mesmo, escandaliza os arrumadinhos trumposos, faz lembrar ao mundo que aquele país, era o lugar das férias de Verão preferido dos czares, e o celeiro de todas as rússias, pertencendo (ou não) ao império. Só que agora não é o grão o centro do problema, mas sim os torrões de ‘terras raras’, o nome artístico inventado para chamar a todas as que poderão ser ocupadas, negociadas e trocadas entre ‘Putin e Trump, os dois donos de todas as guerras, que sempre se deram bem, por serem da mesma laia, e não querem nem sabem distinguir entre valor e preço, mas admiram a força e a lei do mais forte, do grosseiro, do cruel e do abusador’.

A afirmação é Pedro Luis Angosto, historiador e cronista, em escrito no ‘Nueva Tribuna’ de 25 de Fevereiro passado, que o termina assim ‘Para eles a diplomacia, o diálogo, o respeito pelos acordos, a compreensão, a cedência, o reconhecimento do erro, são mostra de fraqueza, de mariquitas, de homens de pouca monta, incapazes de tomar decisões no momento próprio’.

A confirmar tudo isso, os media disseram, dia 6, que o trumpa já andava à procura de um adversário para Zelensky com vista a umas eventuais eleições presidenciais a curto prazo. Onde chegarão o desejo e as mãos rapaces, daquele aloirado sujeito e do seu amigo com sonhos imperiais a imitar czares?

Na opinião de David Trueba ao ‘El País’, é um enredo ao estilo dos filmes de cowboys, ou de uma película sobre a doutrina militar conhecida como ‘comoção e pavor’, para o tal aloirado conseguir o que quer.

O Veterano jornalista italiano do ‘Antidiplomatico’, Fabrizio Poggi, afirmou no New York Times, que Kiev estaria disposto a chegar a um acordo sobre os minerais, a troco de garantias de segurança, quando 70% deles são extraídos nos territórios agora ocupados pelas tropas russas e, dito assim, parece um ultraje mais a um povo que, há mais de dez anos, sofre as prevaricações dos oligarcas locais, e dos gigantes agro-alimentares que se apoderaram das férteis terras negras ucranianas, Cargill, Dupont, Monsanto e outras mais

Para a professora de Ciência Política e Estudos Europeus da Complutense, Ruth Ferrero-Turrión, ‘Negócio é negócio tanto em Gaza como na Ucrânia’. Todos os que pensaram que esta seria uma guerra de valores, começam a gora a ver os motivos atrás de um conflito que em três anos, devastou um país e as suas gentes, as infra-estruturas e também o futuro.

O maniqueísmo dos discursos em volta do conflito, continua Ferrero-Turrión, ‘‘A guerra da Ucrânia, guerra existencial para e Europa’, ou ‘Primeiro a Ucrânia, e que virá depois?’, ou ‘Ucrânia o dique frente à ameaça russa’, e ‘As democracias em jogo na Ucrânia’, abrem o caminho para uma aproximação mais pragmática, que não é mais do que a divisão do país em função dos seus recursos. Recursos que são cobiçados por todas as partes, EUA, Rússia, União Europeia e também a China, obviamente’.

Nada é novo neste mundo, novos são os rostos que vamos vendo nas imagens que nos enchem os dias de apreensão e receio, que nos fazem temer o futuro, a dar razão a George Elliot, a escritora britânica que escrevia sob nome masculino para que as suas obras fossem levadas a sério, ‘Novas questões antigas, ninguém as ia inventar agora, o mundo já se debate com muitas. Mas há uma categoria especial –as que sempre lá estiveram– mas que só o crescimento interior e o apurar da consciência, a quantos gostam de pensar, as permite tê-las agora em consideração’.

E será que os que gostam de pensar, e até leram mais parágrafos, têm acesso a tal poder?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Leave a Reply