Estamos a viver tempos de insegurança e de interrogações, por problemas que estão para lá das nossas capacidades imediatas, por envolverem pessoas e instituições que fazem questão de nos lembrarem continuamente que não temos cartas para o jogo deles, as diversas variedades do ‘Monopólio’, que comandam a seu belo prazer.
E como é que se perde o medo? O medo que destrói e arrasa povos e povoações, que obriga milhares de pessoas a mudar de lugar com a casa às costas, para fugir da destruição, da seca, da fome e dos inimigos (antes iguais), que o poder da palavra ou do dinheiro transformou em pessoas que só vêem o que os mandam ver, pois o resto é para abater, seja de que forma for; e escreveu o cronista John Carlin, no ‘La Vanguardia’, ‘Vencer o medo tem alguma coisa de animal, um instinto básico que nos alerta sempre que o macho alfa já não tem autoridade, já não temos de temer a sua fúria, e chegou a hora de o substituir’.
Mas, escreve o escritor e cronista Pepe Ribas, também no mesmo jornal, ‘As decisões do novo ‘imperador’, estão a alterar num único golpe, os paradigmas geoestratégicos construídos depois da Segunda Guerra. Os EUA protegeram a Europa através da NATO; em troca, o dólar transformou-se na moeda global dos negócios internacionais. Grande negócio’.
Mas Ribas não se coíbe em avisar, ‘O transtorno narcisista de que padece o mandatário, continuará a crescer. O móbil dos novos autoritarismos violentos, é igual aos dos Hunos, quando chegaram aos povos mais adiantados, visigodos e romanos– optaram por os arrasar, antes de aprender a compreendê-los– e Putin, o novo mestre de Trump, fez isso na Chechénia, na Síria, na cidade de Bucha e em Mariupol na Ucrânia’. Mas a natureza de Putin, continua Ribas, é diferente da do americano e explica assim: ‘O russo não padece do transtorno narcisista, não tem amigos nem necessita de os ter. Só o move o ódio e a vingança por ter perdido a ‘guerra fria’, o império, e sentir-se banido do paraíso capitalista’.
De qualquer maneira, afirma o escritor Juan Antonio Molina, o fenómeno trumpa, também representa de um modo algo plastificado, ‘O ciclo ascendente da coesão estrutural do neoliberalismo, para uma imersão autoritária que ultrapassa a caricatura de uma figura soberba e aloucada’.
Este tema foi base de ‘Calígula’, a obra teatral de Albert Camus, onde o imperador que incarna o absurdo da omnipotência. Calígula tem uma admiração profunda pela sua insensibilidade. Parodia Vénus, deseja ser tido como um deus, e até deseja a lua. É a representação da imprevisibilidade do absurdo no teatro. ‘Rejeita a noção de bem e mal, a amizade e o amor, bem como a solidariedade humana, nivela a existência de todos à sua volta, pela raiva da destruição que é a sua vida’, e afirma na conversa que lhe antecede a morte, ‘Acabo de descobrir a utilidade do poder: tornar possível o impossível’.
Não estamos no século primeiro, mas no vigésimo primeiro, e as mentalidades parecem continuar lá, ‘Entrámos na era do impossível extravagante, com os capitalistas a assumir directamente o poder, que querem ilimitado e intimidador pois o ódio e a raiva até conseguem que os monstros impossíveis sejam terrível e temivelmente normais’, afirma Juan Antonio Molina, baseando-se numa reflexão de Hannah Arendt.
Mas, ao fim e ao cabo, ‘Este é um conflito entre milhões de pessoas trabalhadoras, que apenas não querem ser enganadas, e um punhado de milionários como Elon Musk, que querem a oportunidade de os enganar’, explica resumida e simplesmente a senadora Elizabeth Warren, professora de Direito em Harvard.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor