
O Declínio da Língua Portuguesa: Reflexões sobre a Educação e a Cultura em Portugal
A língua é a espinha dorsal de uma nação. Através dela, transmitimos conhecimento, construímos pensamento crítico e perpetuamos a identidade cultural. No entanto, o actual panorama da educação em Portugal denuncia uma erosão preocupante das competências linguísticas dos cidadãos, comprometendo a própria essência da comunicação e da expressão escrita. A degradação do ensino da língua portuguesa não é um fenómeno recente, mas antes o resultado de décadas de escolhas erróneas, de uma infeliz subserviência a padrões europeus que descuram as idiossincrasias nacionais e de uma progressiva desvalorização do rigor académico.
As reformas educativas que foram sendo implementadas privilegiaram a superficialidade e a estandardização em detrimento do conhecimento profundo e estruturado. O ensino da gramática, outrora um pilar da formação escolar, tornou-se um acessório dispensável. Alunos que não sabem identificar nem conjugar tempos verbais essenciais, como o condicional ou o pretérito mais-que-perfeito, ou o infinitivo impessoal, ou ainda a utilização correcta dos pronomes pessoais, ou que desconhecem a existência dos números cardinais e a sua diferença para os ordinais, ou ainda que têm imensas dificuldades em interpretar frases simples, são agora a norma. Este défice de conhecimento compromete a sua capacidade de expressão e, mais grave ainda, impede o desenvolvimento de um pensamento crítico e analítico, fundamental para a compreensão do mundo.
Paralelamente, os meios de comunicação social, que deveriam servir de referência na correcta utilização da língua, tornaram-se espelhos da degradação linguística. Locutores, comentadores e jornalistas, cuja função deveria incluir o respeito pelo idioma, multiplicam erros gramaticais e sintácticos sem qualquer consequência. A falta de rigor na fala reflecte a superficialidade da formação académica e cultural e acentua o fosso entre a norma culta e a língua usada no quotidiano. Numa sociedade que valoriza cada vez menos a precisão verbal, a exigência pelo uso correcto do português torna-se quase um acto de rebeldia intelectual.
As universidades, que deveriam ser o bastião do saber, também se rendem à ditadura das “competências transversais”, relegando para segundo plano o estudo aprofundado da língua materna. A pressão para a internacionalização e a adopção de modelos de ensino importados, que privilegiam a prática em detrimento da teoria, resultam numa formação fragmentada, onde o aluno sai diplomado, mas carente de ferramentas linguísticas e analíticas essenciais. O desinteresse pelo domínio da língua por parte dos próprios académicos reflecte-se numa produção científica deficiente, onde a clareza e a estrutura do discurso se perdem em prol de uma comunicação apressada e desleixada.
Os professores, por sua vez, são vítimas deste sistema. A geração mais antiga, apesar da sua resiliência, luta contra a indiferença generalizada, enquanto os mais jovens são frutos do mesmo modelo deficitário que agora perpetuam. A falta de autoridade e de meios para exigir padrões mais elevados apenas agrava a situação. Sem uma formação adequada, muitos professores não possuem as competências necessárias para transmitir um ensino sólido e estruturado da língua portuguesa. A pressão burocrática e a falta de apoio institucional reduzem a autonomia docente, transformando o acto de ensinar num processo mecânico, distante do verdadeiro propósito da educação.
Este cenário, que se estende desde a educação básica até aos mais altos níveis académicos, conduz a uma sociedade menos apta a comunicar, menos apta a reflectir e, consequentemente, menos apta a decidir. A fragilidade da formação linguística traduz-se numa fragilidade cívica e política, pois um povo que não domina a sua língua é um povo mais vulnerável à manipulação e à demagogia. A incapacidade de argumentação, a dificuldade em interpretar textos complexos e a redução da cultura de leitura resultam num eleitorado menos consciente e mais susceptível a discursos populistas e simplistas.
Urge, portanto, um regresso ao rigor, à exigência e ao respeito pelo idioma. O ensino da língua portuguesa não pode ser um apêndice no sistema educativo, mas sim o seu alicerce. A promoção da leitura, o estudo meticuloso da gramática e a exigência no uso correcto da língua devem ser prioridades inquestionáveis. Caso contrário, estaremos a condenar as futuras gerações a um empobrecimento cultural irreversível e, com ele, ao declínio da própria identidade nacional.
Além disso, é essencial que as políticas públicas reconheçam a importância da valorização da língua portuguesa em todas as esferas da sociedade. Os media devem ser incentivados a adoptar padrões de exigência mais elevados, já que se não pode obrigar, promovendo conteúdos linguísticos de qualidade. As instituições de ensino superior devem recuperar o estatuto do português como disciplina essencial, independentemente da área de estudo. A sociedade civil, por sua vez, deve rejeitar a apatia e exigir um ensino que forme cidadãos competentes, eloquentes e preparados para os desafios intelectuais do futuro.
A defesa da língua portuguesa é, no fundo, a defesa da nossa própria cultura e identidade. Só com uma base linguística sólida poderemos garantir um país mais consciente, mais esclarecido e menos vulnerável à mediocridade que se instala quando as palavras perdem o seu valor. Para que tal aconteça, é necessário um esforço conjunto que envolva famílias, escolas, meios de comunicação, governos e a própria sociedade. O domínio da língua não é apenas um requisito académico, mas um direito fundamental de cada cidadão e um dever colectivo de um país que se pretende digno da sua história e cultura.
No passado dia 1 de Abril, li o texto abaixo, o que me levou a recuperar o que escrevi há tempos
