CARTA DE BRAGA – “A Liberdade está no Chuveiro” por António Oliveira

A estória tem talvez um mês, mas vale a pena pegar nela mais uma vez, para se ver bem o fulano que tem quarto com casa da banho privativa na Casa Branca, que creio ser o palácio real do lado da lá do charco; e a tal estória conta que os correspondentes autorizados pelo tal fulano a ter acesso à tal Casa, em conversa sobre os últimos acontecimentos, ainda sem a assinatura garrafal do tal fulano, desde a Wall Street, à Gaza ou à Bolsa de Tóquio, foram convocados para o Salão Oval (o das assinaturas), para testemunharem um novo slogan, a última criação do tal fulano, ‘Make Shower Great Again’, ao mesmo tempo que uma secretário lhe mostrava a pasta que ele deveria assinar.

Olharam uns para os outros, a tentar adivinhar que nova arma seria aquela, quando o tal fulano ‘Os chuveiros nas casas americanas, depois de anos de ditadura woke, em que o chuveiro regulava o fluxo de água para um gotejamento ridículo, este memorando vai pôr fim às dificuldades. Não sei como explicar, mas é como se isso fosse inevitável’ e, acrescentou, que num país com tanta água, do lago Michigan, ao Rio Mississípi e ao Oceano Pacífico, ‘há pessoas que compram casa e não sai água, pois os americanos devem ter liberdade de escolher chuveiros, sem interferência do governo’, e pespegou-lhe a sua assinatura, a que sempre mostrou com orgulho, como criança que mostra o seu fantástico desenho.

Smialowski/AFP ‘Trump não assina; carimba’
‘Le Monde’, 25.04.27

Mas não parece ter sido aquela, uma semana boa para o tal fulano: sexta feira, o ‘The New York Times’ noticiava, ‘Um estudo recente descobriu que 30% dos americanos lêem no mesmo nível que se esperaria de uma criança de 10 anos’, qualquer coisa como isto, ‘Uma em cada três pessoas que se encontra na rua, tem dificuldade para decifrar o significado de um texto elementar’.

Nada diferente do tal fulano que, como é sabido, acrescenta aquele jornal, não conseguiu ler um único livro em toda a sua longa vida. Aliás não podemos esquecer outra de suas famosas frases, ‘Amo os incultos’. Um pormenor que também chama a atenção para o facto de uns cerca de oito bilhões de pessoas, estarem à mercê dos caprichos de um homem inculto, com problemas graves de saúde mental, numa conjuntura sem precedentes na história da humanidade.

Situação, que pode juntar todos os outros fulanos que vão ficar na História por destruições, assassinatos e chacinas de comunidades e povos por esse mundo fora e, que, escreve o professor, poeta e crítico literário António Carlos Cortez, no DN de 14 de Abril, ‘O que temos hoje na Europa, é, no fundo, uma estratégia de sobrevivência, não da Europa e dos seus povos, mas dos tecnocratas que temem perder os seus privilégios de casta. Não interessará muito se Trump, com a sua impossibilidade cognitiva de compreender as relações globais, irá apostar mais ainda nesta política tarifária suicida. A questão coloca-se à Europa: o rearmamento traduz-se no desinvestimento das políticas públicas, dê por onde der. É da História. Não há equívocos aqui’.

E Carlos Cortez acrescenta ainda, ‘De Lisboa a Bruxelas, de Madrid a Estrasburgo, as democracias europeias têm para oferecer às massas alienadas, o negócio da guerra em nome dos ‘direitos humanos’ e das ‘liberdades’; somos escravos de uma ideologia tentacular, de um capitalismo de vampiros, e a UE destes tecnocratas que se escolhem sem que nós os escolhamos’.

Mas esta Carta começou com o tal fulano, o mesmo que um cronista e antigo ministro considera como ‘O ‘showman’ da América, e sua arte consiste em entusiasmar com o que diz, para fazer adivinhar o que vai dizer a seguir. É um actor que passou a vida inteira interpretando-se a si mesmo, tal como John Wayne, e fez uma transição perfeita para o novo papel de presidente prático’

E nem precisa de mostrar e ostentar coldres para os Colt! Tem quem dispare por ele!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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