Passada essa maravilhosa data de libertação que foi, é e será o 25 de abril, damos continuação à publicação dos textos que compõem a série Abril, Ontem, Hoje e Sempre, tomando como referência o “espírito de Abril” que emerge na Itália em 1945 e em Portugal em 1974, questionando-se igualmente o que é que terá levado a que as esperanças que naquelas datas nasceram se tenham esfumado ao longo destas décadas, até hoje, num longo processo de degradação da Democracia que merece ser passado ao crivo da análise política, Os textos selecionados inserem-se neste último objetivo.
O que sugiro aos leitores é que ao ler estes textos sigam os conselhos dos respetivos autores mas com uma deslocação no tempo e no espaço, refletindo sobre o ponto de partida, não agora em 1945 mas em 1974, e não sobre o que passou em Itália mas sim sobre o que se passou, se conquistou e também se perdeu neste nosso país, Portugal, desde 1974. Os paralelos são comoventes.
A partir desta mudança no tempo e no espaço vale a pena refletir, sobre a estranha coincidência: ambos os países vivem hoje tempos difíceis, sob regimes que são de direita e da direita pura e dura, no caso de Itália com fascistas herdeiros diretos de Mussolini no poder, sem que se possa dizer que é um governo fascista, como assinala um dos textos selecionados, enquanto no caso de Portugal temos uma direita ávida de ocupar o espaço do Chega para controlar o poder e exercê-lo à boa maneira de 24 de abril de 1974. Por detrás de tudo isto, um homem espera pela sua ocasião: Pedro Passos Coelho, o homem que quis destruir o país mais rapidamente que a Troika, não o esqueçamos, e que a esquerda politicamente também o não esqueça.
A partir desta reflexão deve-se então colocar a questão central da série: como foi possível chegar-se aqui, 51 anos depois em Portugal, 80 anos depois em Itália. As respostas não serão nem fáceis nem agradáveis, mas uma coisa me parece certa; em 1945 em Itália e em 1974 em Portugal, foi-se muito rápido, rápido demais até em esquecer, e muito mais rápido ainda em perdoar. Sem nos preocuparmos sobre as razões desse perdão, recusámos lamentavelmente assacar responsabilidades sobre aqueles que nos levaram à situação trágica vivida daqueles anos negros que antecederam o nosso 25 de abril e o mesmo se terá acontecido em Itália. E tudo se quis então esquecer. É mais fácil esquecer que aprender escreveu o filósofo John Gray, e aqui o que se se passou foi que ao longo do tempo fomos esquecendo tudo o que aprendemos com o 25 de Abril, com esse esquecimento foram-se dissipando os sonhos que com Abril nas nossas vidas então se instalaram, perdoámos ou branqueámos tudo o que nos fizeram sem que nos questionássemos sobre a razão de ser desse mesmo perdão, desse mesmo branqueamento. De entre os exemplos mais emblemáticos deste processo de degradação da Democracia, na minha opinião, são as honras oficiais ainda devidas a Salgueiro Maia, as honras feitas e indevidas a um terrorista duplamente condecorado, Marechal Spínola, condecorado por Mário Soares e depois por Marcelo Rebelo de Sousa, as condecorações dadas por Cavaco Silva aos homens da PIDE ou ainda a transformação da sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso em hotel de luxo, como se a memória fosse algo que deve ser apagado do nosso imaginário. E para essa falta de memória que se pretende seja coletiva, a esquerda oficial, lamentavelmente, muito tem contribuído.
Publicamos hoje Resistência, memória inscrita no conflito por Santo Peli.
Júlio Mota
Coimbra, 29 de Abril de 2025
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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
4 min de leitura
Texto 5. Resistência, memória inscrita no conflito (*)
Publicado por
em 25 de Abril de 2025 (original aqui)
(*) 25 DE ABRIL Um excerto do discurso que o historiador fará nesta sexta-feira em Paris.
Está hoje bem estabelecido que, na memória da resistência armada na Itália, o chamado “paradigma da vítima” assumiu progressivamente uma posição central. Um dos pré-requisitos essenciais pode ser identificado num processo memorial que rapidamente ofuscou a real contribuição militar dos guerrilheiros para a guerra de Libertação. Um mecanismo compensado, mas com perdas significativas de consistência histórica, por uma interpretação puramente valorativa, que transformava os guerrilheiros em cavaleiros abstratos de uma batalha ideal, onde muitas vezes eram guerrilheiros improvisados, não menos capazes, apesar de mil dificuldades e limitações, de procurar alcançar objetivos bélicos importantes e muito concretos.
A Partir do final da década de 1940, enquanto aconteciam em massa julgamentos criminais absurdos contra guerrilheiros, testemunhamos uma subestimação progressiva do papel realmente desempenhado pelas brigadas de guerrilheiras. Por outro lado, a participação do exército regular que apoiava os Aliados recebeu a maior atenção institucional. No décimo aniversário da Libertação, um importante volume publicado pelo Poligrafico dello Stato, com o significativo título Il secondo Risorgimento, certifica o papel decisivo das tropas regulares que o governo Bonomi conseguiu colocar ao lado dos Aliados. Exemplo disso é o espaço diferenciado dado à evocação dos feitos das tropas regulares (81 páginas) e ao papel desempenhado pelos guerrilheiros, aos quais o general Raffaele Cadorna dedica apenas 22 páginas. É o resultado lógico de uma interpretação que o título do volume já antecipa sem possibilidade de mal-entendido: tanto o termo estilístico II° Risorgimento quanto o retorno da liberdade no subtítulo estão ali para sublinhar uma continuidade na história nacional, garantida pelas Forças Armadas, enquanto não há vestígios da mudança de regime político, da rutura que a guerra de guerrilha procurau levar a cabo e em parte alcançou. Quem poderia suspeitar, partindo desta fonte tão autorizada, do papel decisivo desempenhado pelos partidos antifascistas (o PCI e o Partido de Ação em primeiro lugar) na organização e, na medida do possível, também na direção da guerra de guerrilha?
Paradoxalmente, quem pretende apreciar o significado militar das forças organizadas pelo Corpo de Voluntários da Liberdade deve prestar atenção, mais do que aos ritos comemorativos das instituições republicanas, aos louvores e agradecimentos reservados aos guerrilheiros feitos pelos Aliados; melhor ainda, nas Memórias de Guerra do Marechal de Campo Alfred Kesselring, onde a perigosidade dos grupos de guerrilheiros e o consequente envolvimento massivo de tropas alemãs indispensáveis para os combater são amplamente discutidos.
Intimamente interligada a esse processo de enfraquecimento do significado militar da guerra de guerrilha está a tendência de transformar os guerrilheiros em mártires de uma causa sagrada, e toda a população italiana em vítimas da “barbárie nazi-fascista”.
ENTRE OS MUITOS EXEMPLOS POSSÍVEIS da passagem do “guerreiro” ao “mártir” que caracteriza a figura ideal-típica do guerrilheiro, pode-se ler a poderosa epígrafe com que, em 1952, Piero Calamandrei, insuperável bardo da Resistência, dirigindo-se polemicamente a Kesselring, apresenta, com eficácia perene, uma interpretação da guerra da resistência que pode ser considerada, com razão, paradigmática. As imagens às quais Calamandrei confia a tarefa de resumir a substância heroica e mortuária da guerra da resistência são: «A terra dos cemitérios onde os nossos jovens descansam serenamente»; «As pedras fumegantes das aldeias indefesas dilaceradas pelo teu extermínio». “O silêncio dos torturados é mais duro que qualquer rochedo.” Os elementos decisivos dessa representação, destinada à eternidade, são: a guerra da resistência partidária como luta santificada pelo martírio, e a presença de todo o povo, protagonista coletivo, unido, compacto na determinação como no sofrimento viril. Não há vestígios de guerra civil, fascismo e fascistas não são aqui lembrados, a crueldade é exclusivamente alemã. O paradigma da vítima muitas vezes acaba, mais ou menos conscientemente, por funcionar como uma limpeza da consciência nacional, exorcizando uma tomada de responsabilidade coletiva que ainda está frequentemente ausente das celebrações públicas da guerra de libertação.
SEIS ANOS ANTES, um jovem intelectual destinado a ocupar um lugar de destaque na cultura italiana, Franco Fortini, publicou Il canto degli ultime partigiani. Neste famoso poema, são os restos dos corpos desmembrados dos guerrilheiros da resistência (cabeças, baba, unhas, dentes) que devem significar a aniquilação de toda a essência humana alcançada pela ferocidade nazi-fascista. O corpo massacrado do mártir guerrilheiro comunica certamente indignação e horror, colocando toda a história da guerra de Resistência numa dimensão intemporal, povoada por corpos destroçados e por uma ferocidade bestial. Que tudo isto aconteceu não restam dúvidas; que seja suficiente para compreender a génese e os efeitos da guerra da Resistência é difícil de sustentar.
Existe também, naturalmente, uma orgulhosa memória partidária que reivindica o estatuto de guerrilheiros e combatentes, não só pela liberdade, mas também pela justiça social. No entanto, prevaleceu claramente o paradigma da vítima, certificado em centenas de lápides e pelo uso já consolidado e inabalável de termos como massacres, chacinas, massacres para recordar batalhas até desastrosas, derrotas no campo de batalha por erros na avaliação das relações de poder ou por inexperiência: sinais precisamente dessa mudança progressiva que privilegia a imagem do martírio sobre a da guerra.
Uma guerra, a de guerrilha, muitas vezes muito difícil, quase sempre conduzida com escassez de meios e de experiência. Ter lutado e finalmente vencido não foi coisa pouca. A memória da Resistência também se podia orgulhar das suas próprias derrotas e erros. Emancipar-se do paradigma da vítima é um passo indispensável para recolocar a guerra da Resistência no seu contexto histórico, que a sacralização e o martirológio acabam inevitavelmente por obscurecer.
Programa
Na Sorbonne Nouvelle Université Paris 8 vai realizar-se, no dia 25 de abril, uma jornada de estudo sobre “Atualidade da Resistência 1945-2025. Itália, França, Espanha, Portugal” (das 9h30 às 19h30). Para além do discurso de Santo Peli (aqui antecipado em excerto) sobre “Guerra da Resistência e recusa da guerra”, estarão presentes: Patrizia Gabrielli sobre “Historiografia e memórias das mulheres na Resistência”; Alberto Cavaglioni (“O verdadeiro e o verídico”); Manuela Spinelli (“Figuras imperfeitas. O anti-herói na narrativa da Resistência”); Marie Fabre sobre o polémico legado de Vittorini; Mercedes Yusta sobre a resistência armada contra Franco; Ana Maria Cristina sobre o 25 de Abril em Portugal.
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O autor: Santo Peli, licenciado em Letras em 1973, lecionou História Contemporânea na Universidade de Pádua até 2013. As suas áreas de investigação são, em particular, o conflito Operário entre a primeira e a Segunda Guerra Mundial e a resistência italiana. Para Franco Angeli escreveu La Resistenza difficile em 1999. Para a Einaudi publicou La Resistenza in Italia. Storia e critica (2004), Storia della Resistenza in Italia (2006) e Storie di Gap. Terrorismo urbano e Resistenza (2014 e 2017).




