As Raízes do Populismo: De que se Alimenta, Crescimento e a Culpa dos Governantes
por Carlos Pereira Martins
O populismo, enquanto fenómeno político e social, não nasce no vazio, nem se expande por acaso. Alimenta-se de sentimentos reais, de frustrações acumuladas e das actualmente tão faladas percepções — nem sempre infundadas — de abandono.
Cresce onde há desilusão com as instituições, medra no terreno fértil da desigualdade e floresce sob o manto da desconfiança em relação às elites políticas. Muito do seu vigor, aliás, deve-se não apenas à complexidade das crises modernas, mas também à persistência de erros e à arrogância de muitos dos que governam.
É importante começar por reconhecer que o populismo se nutre de um fosso crescente entre os cidadãos e os centros de decisão. Quando os eleitores se sentem ignorados, tratados como meros obstáculos à governação tecnocrática, instala-se um ressentimento profundo. Esse ressentimento, tantas vezes silenciado ou ridicularizado, torna-se matéria-prima para discursos inflamados que prometem devolver a “voz ao povo”. Não será exactamente o “Poder Popular” dos anos de PREC, mas usa a miragem.
O populismo apresenta-se, assim, como o regresso à autenticidade, ao bom senso popular, contra as “elites desligadas da realidade”.
Essa tensão manifesta-se hoje de formas diversas pelo mundo. Em França, por exemplo, o movimento dos gilets jaunes, nasceu como protesto contra o aumento dos combustíveis, mas rapidamente evoluiu para uma contestação mais ampla ao governo de Emmanuel Macron e à sua postura percebida como elitista e desconectada dos eleitores e da realidade do país.
Em Itália, Giorgia Meloni ascendeu ao poder prometendo devolver dignidade ao cidadão comum, num país fustigado pela estagnação económica e pelo descrédito nos partidos tradicionais. Nos Estados Unidos, Donald Trump emergiu como a voz de milhões de norte-americanos que se sentiam esquecidos pelas promessas do liberalismo globalizado. O mesmo padrão repete-se no Brasil, com Jair Bolsonaro a cavalgar o descontentamento gerado pelos escândalos de corrupção e pela insegurança, e em Espanha, com o VOX a crescer à boleia de uma crise identitária mal gerida pelo Estado central.
Estes casos, cada um com as suas especificidades e aqui apenas enunciados, levaria muito tempo e espaço esmiuçar cada um deles, partilham um traço comum: a percepção de que o sistema político deixou de ouvir e de servir o povo. Mais grave, passou a servir-se a si e aos seus!
Quando os cidadãos percebem que as decisões são tomadas num universo paralelo, onde a linguagem se tornou hermética e as consequências recaem sempre sobre os mesmos, a confiança esvai-se. A arrogância de certos dirigentes — visível na forma como ignoram críticas, impõem reformas sem diálogo ou relativizam os impactos sociais das suas escolhas — é precisamente o combustível de que o populismo precisa para se alimentar.
Portugal, embora com uma tradição política moderada, não está imune a esta realidade. A ascensão do partido liderado por André Ventura, é um exemplo claro de como o discurso populista encontra terreno fértil também no contexto português. Ventura construiu a sua retórica sobre a ideia de um país injusto, capturado por elites cúmplices, onde os “cidadãos de bem” são constantemente prejudicados. Explora medos reais — a insegurança, a corrupção, o sentimento de impunidade — e fá-lo com uma linguagem frontal, muitas vezes simplista, mas eficaz. E não é sequer necessário que as narrativas, as denúncias e os argumentos sejam verdadeiros. Qualquer boa mentira alimenta e aproxima o cumprimento dos objectivos.
O crescimento do Chega não pode ser entendido sem considerar o contexto em que floresce: escândalos de corrupção sucessivos como os casos envolvendo a banca, o sector da habitação ou membros do governo, a degradação dos serviços públicos, em especial a saúde e a habitação, e a persistência de desigualdades estruturais. A resposta do sistema político, frequentemente marcada por um discurso moralista ou por uma recusa em debater abertamente os temas incómodos, apenas tem contribuído para aumentar o fosso. A arrogância institucional, ao evitar o confronto democrático com ideias diferentes, acaba por reforçar o discurso do outsider.
Além disso, o próprio estilo de governação nos últimos anos — marcado por maiorias absolutas que degeneraram em episódios de auto-suficiência, decisões mal explicadas ou políticas sentidas como desconectadas da realidade quotidiana das pessoas — tem contribuído para este fenómeno. Quando os líderes políticos se refugiam em fórmulas de gestão ou em superioridades morais, esquecem que governar é, acima de tudo, um acto de escuta e de serviço público que deve ser continuamente escrutinado.
O populismo ocupa precisamente o espaço deixado vago por essa surdez e por essa soberba.
Contudo, importa distinguir entre a crítica legítima ao sistema e a exploração demagógica dessa crítica. Nem todo o descontentamento é populista, mas o populismo sabe explorá-lo com mestria. E fá-lo com eficácia, porque se alimenta da linguagem da proximidade, da indignação e do apelo directo às emoções. Propõe rupturas, promessas absolutas e, muitas vezes, recuos civilizacionais mascarados de renovação popular.
Em suma, o populismo cresce não apenas por mérito próprio, mas por demérito dos que, podendo governar com inteligência e humildade, optam por ignorar os sinais de alarme. A responsabilidade maior recai sobre aqueles que, ao invés de dialogar, impõem; que, em vez de escutar, corrigem de cima; que, perante o mal-estar social, preferem o paternalismo à reforma. Combater o populismo exige, por isso, mais do que censura moral ou tecnocracia cega: exige uma renovação do compromisso democrático, baseada na escuta activa, na prestação de contas e na coragem de governar com o povo — e não apenas sobre o povo.
Toda a verdade dita de uma forma clara e percetível para a maioria dos leitores / e das leitoras.