CARTA DE BRAGA -“de Pessoa à manipulação dos fracos” por António Oliveira

A entrevista que se segue, escrita e feita a si mesmo por Fernando Pessoa –nem podia deixar de ser como se pode ler a seguir– visto Pessoa possuir uma sintaxe adequada à lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia (in ‘Revista Portuguesa’, nº 23/24. Lisboa, 13-10-1923, Arquivo Pessoa).

“Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente. A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele, um indivíduo só. E só colectivamente é que o povo não é colectivo.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita. (…) Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode, portanto, ser indivíduo, pode, portanto, ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita –como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova– o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. (…) Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. (…) E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise”.

Escreve quem sabe e, a propósito, lembro o catedrático em Filosofia e cronista James Fernández Cardozo, ao afirmar num dos últimos escritos, no número do jornal ‘Nueva Tribuna’, de Março último, ‘O populismo é uma actividade mormente política, quando se apoia na confrontação entre o povo –a que se atribuem valores fundamentais como a humildade– e uma elite que se qualifica directamente como corrupta e egoísta, seja ela económica, intelectual, política ou mesmo mediática’.

Convém não esquecer que o fundamento do populismo radica numa única promessa, (lida ou assistida quase em permanência, nos tempos mais recentes e em diversos lugares deste planeta), a de restaurar o poder e direitos do povo de modo rápido e directo, como resposta à lentidão da tal aristocracia. É óbvio que a ambiguidade do termo ‘povo’, permite a sua adaptação ao uso nas mais diferentes situações e audiências.

Também não é por mera coincidência que os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, se tenham referido a este problema, ‘As massas só desejam o que as oprime, uma vez que o fascismo avança sem propor nada de novo, mas capitalizando-lhes o cansaço simbólico, porque o entende como fruto dos excessos de linguagem, e o querer preencher com ideias funcionais, ditas de modo simplista’.

Nem sequer oferece modelos, mas sim formas vazias de poder que produzem fascínio em vez de identificação, não pelo que contêm dentro, mas pelas atitudes, teatrais, duras e impenetráveis, queixo avançado e voz tonitruante. ou melíflua a pedir atenção redobrada, mas formas (é difícil chamar-lhes outra coisa!) sempre ‘fechadas, sem rachaduras, talvez por não terem nada dentro que valha a pena vir a ser aproveitado, mas com o poder de transformar o desejo ou a frustração em espectáculo’, como diria com estas ou outras palavras, Guy Debord, na sua obra maior ‘A Sociedade do Espectáculo’.

E escreve o catedrático de Literatura, poeta e cronista Luis García Montero, a estratégia dos que querem acabar com a justiça internacional, ‘É acomodar-se às arritmias da lei do mais forte. Aumentam as tarifas para deixar claro que o comércio livre tem seus donos, minam as instituições internacionais e apoiam financeiramente os violadores dos direitos humanos, um mau hábito e um mau costume’.

As arritmias adaptadas à vontade alheia mostram um corpo fraco, submisso e fácil de convencer e governar. o campo perfeito para saltar de um sistema político, económico e social para um outro de imposições, obrigatoriedades, censuras e barreiras com fardas, armas e celas, porque um qualquer sistema produz também os seus próprios significantes, a começar nele mesmo.

Termino com uma citação de George Orwell, o britânico que combateu os fascismos através das armas (ao lado dos republicanos contra os fascistas de Franco) e com as novelas distópicas que escreveu; e Orwell deixou escrito, ‘A verdade está a desaparecer e as mentiras passarão à história’, e ainda não tinha aparecido o trumpa que, de acordo com o ‘The Washington Post’, disse, só no primeiro mandato de quatro anos, na Casa Branca, 30.000 mentiras, numa impressionante média de vinte por dia.

A verdade já interessa muito pouco aos dirigentes políticos actuais, e muito menos à opinião pública, fabricada por influencers com poucos escrúpulos e parlapatões amorais.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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