A propósito de uma dedicatória, e de Portugal também. Por Júlio Marques Mota

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A propósito de uma dedicatória, e de Portugal  também

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 17 de maio de 2025

 

Hoje, não falemos de eleições, nem de futebol, falemos da dedicatória que faço a Boaventura Sousa Santos com a publicação [amanhã] de um longo artigo de James Bradford DeLong intitulado A minha leitura de livros difíceis, dedicatória esta que está ligada à publicação em A Viagem dos Argonautas do seu artigo Primeira escavação da época da apostasia.

O texto de Bradford DeLong trata da leitura de três grandes economistas, Adam Smith, Marx e Keynes, autores estes que são referência mundial e vastamente estudados em qualquer Faculdade de Economia que se preze. Por curiosidade, na Europa não sei se encontraremos hoje alguma onde estes autores sejam estudados em profundidade.

Bradford DeLong dá-se ao trabalho de nos expor longamente uma metodologia para abordar estes autores, metodologia esta extensível a outros autores do mesmo quilate.

No artigo pode-se ler:

“Algumas pessoas adquirem conhecimento a partir de livros… as pessoas que realmente pensam sobre o que estão a ler … Os monólogos internos desses leitores são do tipo: “Essa ideia faz-me lembrar de…”, “Esse ponto entra em contradição com …”, “Eu realmente não entendo como…”, etc. Se eles escrevem algumas notas, não estão simplesmente a transcrever as palavras do autor: eles estão a resumir, a sintetizar, a analisar. …

Mas…

Infelizmente, essas táticas não se adquirem facilmente. Os leitores precisam de aprender estratégias reflexivas específicas… como executar os seus próprios ciclos de efeitos de repercussão… compreender a sua própria cognição… isto é, o que envolve a aquisição, processamento, utilização e armazenamento de conhecimento, . [a que] a ciência da aprendizagem chama de “metacognição”… É desafiante aprender esses tipos de competências, e muitos adultos não as possuem…

(…)

Na verdade, a principal tarefa de uma universidade moderna bem-sucedida é ensinar as pessoas a ler tais livros.

De facto, pode-se dizer que uma das poucas competências-chave verdadeiramente importantes que nós aqui na universidade devemos ensinar — o nosso equivalente ou da tríade medieval de retórica, lógica, gramática ou da quadrilogia de aritmética, geometria, música e astrologia — é explicar como ler e absorver um argumento teórico feito por um livro difícil, valioso e imperfeito.

(…)

As pessoas devem ser capazes de fazer mais do que simplesmente dizer se gostaram ou não da conclusão: elas precisam de ser capazes de especificar se o argumento é coerente dadas as premissas e ainda de especificar quais são as premissas, e onde é que são as próprias premissas que precisam de ser postas em causa.

(…)

As pessoas devem ser capazes de fazer mais do que simplesmente dizer se gostaram ou não da conclusão: elas precisam de ser capazes de especificar se o argumento é coerente dadas as premissas e ainda de especificar quais são as premissas, e onde é que são as próprias premissas que precisam de ser postas em causa.

As consequências da leitura superficial não são académicas. Quando perdemos o hábito da leitura profunda, perdemos:

    • A capacidade de seguir longas cadeias de argumentos.
    • A humildade cognitiva que decorre de se ter outra visão de mundo.
    • A inteligência emocional que surge da empatia com outro discurso.
    • A capacidade de manter ideias em tensão — de gerir a ambiguidade e contradição.

Sem isso, o discurso público sai prejudicado. A política sai prejudicada. A democracia sai prejudicada. Porque o espaço em que pensamos juntos — através do tempo, da tradição e da perspetiva — é reduzido ao que corresponde a uma reação instantânea, eventualmente polémica, da realidade atual.

(…)

[Ler] é uma atividade profundamente sintética. Vai para além da absorção de “conteúdo”. Requer empatia, lógica e criatividade. Ler é uma disciplina, uma disciplina que gera ensinamentos não apenas sobre o livro, mas sobre cada um de nós mesmos e das próprias nossas hipóteses não examinadas. Esse processo exige tempo, paciência e atenção. E nenhum destes elementos é favorecido pela cultura digital contemporânea. Vivemos num mundo concebido para a distração — um mundo que nos leva continuamente a clicar, deslizar, folhear e fazer desfilar. Nesse ambiente, ler um livro de 600 páginas de Adam Smith não é apenas difícil. É um ato de resistência. Mas é um ato de resistência necessário se cada um de nós quiser tornar-se o mestre das ideias com que se depara, em vez de ser escravo delas.”

Quanto a Bradford DeLong, para já ficamos por aqui.

Por seu lado, Boaventura Sousa Santos no artigo citado diz-nos:

  1. . O movimento pela paz, que até ao início deste milénio mobilizava milhões de ativistas, está moribundo. A superioridade da guerra está hoje consolidada entre as grandes potências e a doutrinação mediática transforma-a num novo senso comum.
  2. As críticas à democracia vinham sobretudo das forças progressistas contra os limites da democracia liberal e a favor de uma democracia mais robusta, quer em termos de direitos sociais, quer em termos de participação cidadã.

Tudo começou a mudar com o chamado Consenso de Washington de finais da década de 1980 e o credo neoliberal que impôs globalmente (Estado mínimo, o mercado como o grande regulador económico-social, privatizações, liberalização dos mercados financeiros, globalização).

  1. A partir da década de 1980 e sobretudo depois do colapso da União Soviética, as agências económicas multilaterais (FMI e Banco Mundial) e a globalização do capital financeiro neutralizaram quaisquer iniciativas de desobediência à ordem económica imposta pelo neoliberalismo.
  2. O genocídio de Gaza é transmitido em directo todos os dias perante a indiferença quase geral. O mal banalizado é o fim do fim de época.

 

O que Boaventura nos explica é que estamos no final de uma época e num momento charneira em que descobrimos esta realidade banal assinalada por Bradford Delong: as universidades de hoje nem sequer ensinam a ler um livro e sublinhe-se que para que a leitura de um livro seja benéfica para quem o lê, é preciso saber ler bem o livro. Esse saber perdeu-se, desde o ensino de topo, as Universidades, até à base do sistema de ensino e, quando assim é, como Bradford Delong assinala, é “… o discurso público [que] sai prejudicado. A política sai prejudicada. A democracia sai prejudicada. Porque o espaço em que pensamos juntos — através do tempo, da tradição e da perspetiva — é reduzido ao que corresponde a uma reação instantânea, eventualmente polémica, da realidade atual”. Acrescentemos, quando assim é, é todo o ensino do topo à base que se degrada e se torna assim uma enorme e pesada máquina de produzir gente encartada com diplomas que atestam sobretudo a ignorância de quem os possui. A partir daqui são populações inteiras sujeitas à mais desenfreada manipulação e é através desta que se compreende , por exemplo, porque é que roçamos desde há três anos o perigo de uma guerra nuclear sem que milhões de pessoas venham à rua exigir a paz, como aconteceu com a guerra do Vietname, só assim se percebe o silêncio feito sobre o genocídio do povo palestiniano, um silêncio das elites políticas e não só das elites, um gritante silêncio de todos nós, que coletivamente somos incapazes de protestar contra esse genocídio. Essa é a via que leva os Trump’s ao poder em segunda eleição. A falta de ensino/formação em níveis dignos é o cadinho por onde entra depois a desinformação, a manipulação das massas.

Essa é a via que voltará a levar Montenegro a S. Bento. Se tal acontecer amanhã, não culpem Pedro Nuno Santos (o que irá levar à sua substituição), não culpem Rui Tavares, não culpem Paulo Raimundo ou Inês Sousa Real, não, culpem antes a ignorância a que o neoliberalismo do PS, do PSD e do CDS conduziu o povo português a não saber distinguir entre uma argumentação de uma afirmação. De novo, e com o risco de me repetir, retomo Bradford DeLong quando nos diz:

“… De facto, pode-se dizer que uma das poucas competências-chave verdadeiramente importantes que nós aqui na universidade devemos ensinar — o nosso equivalente ou da tríade medieval de retórica, lógica, gramática ou da quadrilogia de aritmética, geometria, música e astrologia — é explicar como ler e absorver um argumento teórico feito por um livro difícil, valioso e imperfeito.

As pessoas precisam de compreender o que é um argumento, e a única maneira de o fazer é realmente analisá-lo — lê-lo e tentar entendê-lo.

As pessoas precisam ser capazes de ver a diferença existente entre um argumento e uma afirmação.” Fim de citação. (o sublinhado é nosso)

Vamos a eleições, e se perguntarem ao eleitor médio porque é que está em eleições este ficará em palpos de aranha para explicar porquê… porque é que Montenegro fez uma campanha em termos de afirmações, nunca em termos de argumentações. Explicações não houve, e Pedro Nuno Santos tem razão. A conclusão é imediata: somos um povo incapaz de distinguir entre argumentos (o que Montenegro não utilizou na campanha) e afirmações (o que Montenegro utilizou até à exaustão e com as quais nos bombardeou massivamente).

Esta é, pois, uma das vias de que o capitalismo se serviu para nos trazer até à situação que Boaventura Sousa Santos descreve magistralmente. E aqui, em Portugal, não há ninguém que tenha o peso equivalente a Marriner Eccles para chegar ao Senado americano e dizer o que disse e também não temos atualmente a classe política para o ouvir se ele, Eccles, existisse em Portugal. E Marriner Eccles afirmou:

Medidas como as que propus podem assustar os nossos cidadãos que sejam ricos. Contudo, devem sentir-se tranquilos ao refletirem sobre a seguinte citação de um dos nossos principais economistas:

“É absolutamente impossível, como este país tem demonstrado repetidas vezes, os ricos arrecadarem tanto quanto sempre tentaram arrecadar, nada deixando ficar para os outros que valha a pena. Podem acumular e manter em resguardo fábricas paradas, carruagens de comboio sem préstimo, edifícios de escritórios vazios e bancos encerrados; podem guardar comprovativos em papel de empréstimos estrangeiros; mas enquanto classe nada deixarão restar que valha a pena, para além do montante que é tornado rentável pelo aumento das compras dos consumidores. É do interesse dos ricos – para os proteger dos resultados da sua própria loucura – que retiremos dos seus excedentes o montante bastante para que os consumidores possam consumir e os negócios possam funcionar a gerar lucros.”

Estou a falar de atividade económica em tempos normais

Senador SHORTRIDGE. Quem disse isso?

ECCLES. Stuart Chase, penso eu. Ele é economista. Ou Foster. Não tenho a certeza qual deles.

Isto não é “fazer imergir os ricos”; é salvar os ricos. A propósito, é a única forma de lhes garantir a serenidade e segurança que não têm no momento presente“. Fim de citação.

Sublinhe-se que Marriner Eccles assumiu o cargo de Presidente do Federal Reserve, e de tal forma ocupou o cargo que é reputado por muita gente como o mais importante presidente do FED Reserve de sempre. Foi ainda uma das figuras centrais na conceção e criação do New Deal de Roosevelt.

Cerca de quarenta anos depois com Ronald Reagan e Thatcher inicia-se a aceleração da crise capitalista que nos trouxe à decadência atual e, curiosamente, é com Reagan que se verificam os primeiros grandes ataques às Universidades, sob os as sugestões do seu principal conselheiro  para as questões de Educação, Roger A. Freeman.

De um jornal da época pode-se ler:

Em 1970, Ronald Reagan estava a concorrer à reeleição como governador da Califórnia. Tinha ganho a eleição em 1966 com uma retórica de confrontação com o sistema de ensino público da Universidade da Califórnia e praticou políticas de confrontação quando assumiu o cargo. Em maio de 1970, Reagan encerrou todos os 28 campus da UC e da Cal State no meio de protestos estudantis contra a Guerra do Vietname e o bombardeamento do Camboja pelos EUA. Em 29 de outubro, menos de uma semana antes das eleições, o seu conselheiro para a educação, Roger A. Freeman, falou numa conferência de imprensa para o defender.

Os comentários de Freeman foram relatados no dia seguinte no San Francisco Chronicle sob o título “Professor vê perigo na educação”. De acordo com o artigo do Chronicle, Roger A. Freeman disse: “Estamos em perigo de produzir um proletariado instruído. … Isso é dinamite! Temos de ser seletivos quanto a quem permitimos [ir para a universidade]”.

“Caso contrário”, continuou Freeman, “teremos um grande número de pessoas altamente formadas e desempregadas”. Freeman também disse – adotando uma perspetiva altamente idiossincrática sobre a causa do fascismo – “foi isso que aconteceu na Alemanha. Eu vi isso acontecer”.

(…) Freeman, enquanto economista tornou-se um elemento de longa data da política conservadora, fez parte da equipa da Casa Branca durante as administrações de Dwight Eisenhower e Richard Nixon. Em 1970, foi destacado da administração Nixon para trabalhar na campanha de Reagan. Foi também membro dirigente da conservadora Hoover Institution de Stanford. Num dos seus livros, perguntou “pode a civilização ocidental sobreviver” ao que considerava ser uma despesa excessiva do governo com a educação, a segurança social, etc.

Um tema central da primeira campanha de Reagan para governador, em 1966, foi o ressentimento em relação às faculdades públicas da Califórnia, em particular a UC Berkeley, com Reagan a prometer repetidamente “limpar a porcaria” que lá existia. Berkeley, que na altura era quase gratuita para os residentes da Califórnia, tinha-se tornado um centro nacional de organização contra a Guerra do Vietname. A profunda ansiedade em relação a esse facto chegou aos mais altos níveis do governo dos EUA. John McCone, chefe da CIA, solicitou uma reunião com J. Edgar Hoover, chefe do FBI, para discutir a “influência comunista” em Berkeley, uma situação que “definitivamente exigia alguma ação corretiva”.

Durante a campanha de 1966, Reagan comunicou regularmente com o FBI sobre as suas preocupações relativamente a Clark Kerr, o presidente de todo o sistema da Universidade da Califórnia. Apesar dos pedidos de Hoover, Kerr não tinha reprimido os manifestantes de Berkeley. Poucas semanas após a tomada de posse de Reagan, Kerr foi demitido. Um memorando posterior do FBI afirmava que Reagan estava “empenhado na destruição de elementos perturbadores nos campus da Califórnia”.

(…)

O sucesso dos ataques de Reagan às faculdades públicas da Califórnia inspirou políticos conservadores em todos os EUA. Spiro Agnew, o seu vice-presidente, proclamou que, graças às políticas de admissão abertas, “estudantes não qualificados estão a ser arrastados para a universidade na onda do novo socialismo”. Fim de citação.

Estávamos em 1970. Em 2024 as cargas policiais em pleno governo Biden foram de tal modo violentas que fariam inveja aos defensores das mais duras cargas policiais da política de choque no meu tempo, o tempo do fascismo puro e duro. A seguir vêm as cargas e as pressões brutais sobre as mais prestigiadas Universidades americanos praticadas agora por Trump. O ataque ao saber, ao investigar, ao questionar atinge foros do impensável. É necessário calar as Universidades.

Mas recordemos Roger A. Freeman quando nos diz: “Estamos em perigo de produzir um proletariado instruído . … Isso é dinamite! Temos de ser seletivos quanto a quem permitimos [ir para a universidade]“. Cerca de 50 anos depois isso consegue-se em muitos lados. Em Portugal, por exemplo, temos agora uma pequena e uma média burguesia culturalmente proletarizada e amorfa, e isto no pior sentido do termo, exatamente o que Freeman desejava para os Estados Unidos e que Trump, se nada de mais grave acontecer, poderá agora conseguir. Este ataque às Universidades vem, pois, de longe, de muito longe, dos tempos em que se acelerou a marcha para o abismo de que nos fala Boaventura Sousa Santos, cujo marco consideramos ser o início dos anos 70, e tornou-se agora, pelo menos aparentemente, uma necessidade de sobrevivência  da classe dominante.

Sobre o que acabo de dizer, deixem-me dar-vos um exemplo curioso: na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, a cadeira de Política Económica tornou-se uma cadeira de opção e de carga horária menor. Diga-se então, tornou-se uma disciplina irrelevante. Creio que isso já terá acontecido na Universidade Nova, que por falta de imaginação, e não só isso, muitos querem agora imitar. Um aluno pode sair diplomado em Economia, hoje, sem saber o mínimo decente de base, o que é a política económica. Mas contra isto veja-se o que nos disseram o Presidente da República italiana, Mattarella, e o antigo Presidente do BCE, Mario Draghi, recentemente em Coimbra, segundo relato do jornal Repubblica:

Ninguém durma”, canta o tenor, Sergio Mattarella. Ouve-o a sala e relança assim a famosa invocação de Turandot: “Podia aplicar-se à nossa União”. O Presidente da República e Mario Draghi tentam agitar a Europa, a partir da sessão do doutoramento honoris causa, em Coimbra. Reajam, diz Draghi, que fala durante meia hora. Aponta a competitividade interna, apoiando-se em três vetores: energia, defesa, tecnologia. Com os dados que temos “estamos num ponto de rutura”. Com Trump, nada será como dantes. A ordem multilateral foi minada “de uma forma difícil de inverter” com o recurso massivo “a ações unilaterais para resolver litígios comerciais e o esgotamento definitivo da OMC”. É preciso chegar a um acordo com os EUA, mas sabendo que “o nosso comércio não voltará ao normal”. Assim, “se a Europa quiser realmente reduzir a sua dependência do crescimento dos EUA, terá de o fazer por si própria. Terá de alterar o quadro da sua política macroeconómica“. Fim de citação. (O sublinhado é nosso)

Se queremos diplomados ignorantes, diplomados de ignorância encartados, e essa é a tendência desde algumas décadas já, o preço a pagar agora por essa ignorância pretendida e adquirida é exatamente a crise de ignorância e de inconsciência política de que fala Boaventura Sousa Santos. E não esqueçamos que há uma enorme correlação entre ignorância e servilismo.

Depois de ter lido dois documentos seus sobre o seu caso pessoal, publicados em A Viagem dos Argonautas, onde se percebe que ele é objetivamente silenciado pelas Instâncias Nacionais e Internacionais, sem qualquer acusação e, portanto, sem qualquer julgamento em Tribunal, questiono-me se este silêncio não terá sido também um objetivo politico [1]  a alcançar no ou com o processo que lhe é criado, mas juridicamente ainda inexistente, por ausência de queixa [2]. E entre tantos casos de assédio sexual de que se ouve falar, em nenhum deles se atingiu o impacto violento que se viu neste caso. Dir-me-ão que é por ser figura de relevo internacional. A esse argumento eu direi: mais uma razão para se proceder juridicamente com mais rigor e não estar a condená-lo e a puni-lo na praça pública pelo diz que diz. Para que haja uma condenação é preciso bem mais.

Sublinho aqui que Boaventura Sousa Santos [3], a par de Noam Chomsky, de Jeffrey Sachs e de John Mearsheimer são hoje referências mundiais no plano da sociologia, da política e das relações internacionais, daí o incómodo moral e intelectual que tudo isto me deixa. Mas uma coisa é certa: calá-lo seria uma vitória do pensamento único, hoje florescente e dominante à escala mundial. Daí a questão dos alhos (o dito assédio) poder servir para esconder os bugalhos (o silêncio total a que uma figura de tão elevado prestígio científico é sujeita) .

 

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Notas

[1] Relembro aqui o caso Assange que começou exatamente com a acusação de assédio sexual! Não foi por acaso que foi assim.

[2] Sobre as acusações feitas contra Boaventura, direi que se vive apenas no plano do diz que diz e com as três interrogações pessoais seguintes que para mim são muito relevantes:

  1. Como é possível considerar que a elevada estatura intelectual de Boaventura Sousa Santos tenha sido recentemente alcançada através do extractivismo do trabalho dos outros. Como é possível pensar que alguém que escreveu o que escreveu, no isolamento em que o escreveu e nas condições psicológicas em que o escreveu, possa ter andado a viver do trabalho dos outros? Direi que o que ele publicou na solidão criada e vivida depois de surgida a acusação de assédio sexual e moral mostram bem a razão desta interrogação.
  2. Uma segunda interrogação surge quanto à acusação sobre um homem que passa tanto, tanto tempo em Instituições Internacionais só seja acusado no quadro das suas atividades no CES.
  3. Fala-se em pressão sobre o trabalho a realizar. Se a pressão é feita neste quadro, isto é muito comum na Universidade. Se não é nesse quadro, isso é então uma outra história. Lembro-me por exemplo do José Reis, como presidente do CC. a exigir o respeito dos prazos estipulados por lei, aceitando as teses em fase quase final, fechadas no cofre, mas em que o processo de entrega seria dado por finalizado no prazo por ele determinado, fosse entregue ou não uma outra versão de tese. As coisas assim eram duras, mas era a única forma de se combater o perfeccionismo. Sei do que falo, pois eu próprio terei sido vítima do meu próprio perfeccionismo que não me levou a lado nenhum.

[3] A sua importância intelectual é para nós tão importante que isso leva a que o blog A Viagem dos Argonautas esteja a considerar a hipótese de republicar os artigos de Boaventura Sousa Santos publicados desde a divulgação do caso até à publicação pelo blog do seu texto Porque me demiti do CES.

 

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