Sobre as eleições, uma carta aberta a um amigo meu
por Júlio Marques Mota
No rescaldo das eleições um amigo meu escreveu-me um texto irónico, assim o entendi, a dizer o seguinte:
Caro professor os meus pêsames pela grande vitória da esquerda. Então, o Bloco de Esquerda, ui! Renda-se às evidências, ainda pode mudar. Grande abraço deste amigo da AD.
Este meu amigo teria toda a razão quanto a resultados eleitorais, mas coloquemos o seu texto direitinho, ou seja, substitua-se a palavra esquerda por direita e teríamos:
Caro professor os meus pêsames pela grande vitória da direita.
Porém, se tivermos em conta que na coligação ganhadora, a AD, está o CDS, e que eu considero o CDS como um partido mais à direita que o Chega do populista André Ventura e onde é figura de realce o seu ignorante[1] secretário-geral Nuno Melo, poderia substituir o termo direita por coligação do PSD e da extrema-direita e teríamos então:
Caro professor os meus pêsames pela grande vitória da coligação (PSD + Extrema Direita)
Posto isto, eu daria toda a razão a este meu amigo e aceitaria os seus sentidos pêsames pela derrota da Esquerda se com esta derrota da esquerda que ele saúda, o povo português ficasse então a melhorar alguma coisa no seu modo de vida presente e com mais melhoras ainda esperadas para o futuro. Não teria problema em saudá-lo pela vitória desta sua coligação a que pertence como simpatizante e eleitor. Mas não, não vejo perspetivas de qualquer melhoria para o povo português com esta coligação e porquê?
Veja-se o comportamento desta coligação no caso da CP. A solução seria então um ataque frontal ao direito dos trabalhadores e o meu amigo está a ver a bela obra-prima que seria a direita e a extrema-direita a legislar sobre o direito à greve. Ainda por cima, temos o ministro da tutela a dizer que concorda com as reivindicações dos trabalhadores. Avança para negociações e depois recua das negociações porque afinal é apenas um governo de gestão. Uma incoerência brutal nestes seus ministros da AD, como se vê. Leia o jornal Público sobre esta matéria para não lhe fazer perder tempo a ler um texto longo Fica-se com a sensação de que é uma greve incentivada para depois atacar os trabalhadores nos seus direitos e assacar culpas à esquerda pelos danos provocados às populações. Em eleições isto poderia render.
Na altura do apagão e durante todo o dia não houve governo em Portugal. Simplesmente não houve. Com um governo de tanta gente incompetente foi uma sorte nesse dia a greve da CP ser uma greve total. Com um governo de tanta gente incompetente já imaginou o que seriam as linhas com os comboios parados durante horas e horas e cheios de gente, sem que soubessem seja o que fosse do que se estava a passar e isto porque o governo não existia! E podíamos continuar. Mas o ministro da Propaganda também com o papel de Primeiro-ministro teve tempo para ir depois à Maternidade fazer a propaganda oficial do regime!
Com a greve do INEM não me lembro de tanta incompetência. Lembra-se disso, meu amigo? Ao contrário do governo de incompetentes que tanto estima, veja-se como é que Pedro Nuno Santos geriu uma greve que poderia ser explosiva para o país, aquando da greve dos motoristas de combustíveis pesados, com os senhores da ANTRAM (Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Mercadorias) a quererem sangue. Já agora, não ouviu o ministro Pedro Nuno Santos a falar em alterar a lei da greve nessa altura. Viu, isso sim, as condições desumanas em que esses motoristas trabalhavam. A visão do Trabalho entre o Pedro Nuno Santos e a do governo AD terá a mesma distância que falar em fascismo moderado (AD) e democracia (PS de Pedro Nuno Santos). Comparam-se os comportamentos das entidades aqui referidas? Mas ao ministro de tutela de então e líder do PS, o meu amigo agora dirá que é um louco ou um destravado e à equipa que (in)geriu a crise do INEM chamar-lhes-á especialistas em saúde? É isso?
Quanto ao destravado Pedro Nuno Santos vejo-o a si, meu amigo, a alinhar com a direita do PS que nos diz que o grande erro, e a justificar a derrota, foi ele ter sido eleito para Secretário-Geral. A um centrista do PS que me disse isto, perguntei-lhe: onde é que a campanha eleitoral de Pedro Nuno Santos esteve errada? O problema não é esse, respondeu-me: o problema é que ele não tinha que ser secretário-geral. Como se vê, isto não é argumento, é a recusa dele.
Desta forma, tão desonesta quanto a sua, passa-se a esponja por tudo o que foi a história do PS, do que foram os seus compromissos com o PSD e com o CDS, passa-se uma esponja por tudo o que foi a política de António Costa. Um exemplo curioso: segundo o Manuel Carvalho, do Público, Montenegro passou a vida a assinar os cheques e a redistribuir o dinheiro dos cheques que o António Costa deixou por assinar, e deixou-os não assinados e até sem portador por ter optado por uma política de fidelidade à austeridade da União Europeia. Nos primeiros meses a política de Montenegro foi mais ou menos isto e depois foi…a incompetência deste governo. Tão fiel que mereceu o cargo que tem e levanto aqui uma pergunta: qual é atualmente a diferença entre ele e Ursula von der Leyen?
Atribuir as culpas a Pedro Nuno Santos dos resultados do PS é não só passar uma esponja sobre as responsabilidades da equipa de António Costa nos resultados de agora, dada a descrença criada sobre a seriedade política do PS na cabeça de muita gente, como é igualmente uma tentativa de silenciar quem defenda políticas económicas e sociais verdadeiramente de esquerda. Com este objetivo abre-se assim caminho para um eventual Bloco Central com o objetivo de bloquear o avanço do Chega. Um Bloco Central liderado por Montenegro, composto pela AD ou só pelo PSD+PS+IL e com o Livre colado se o CDS ficar excluído. É nesse sentido que li o artigo de Adão e Silva no Público quando nos diz que “é mais o que aproxima os dois principais partidos do que aquilo que os afasta. Porquê, então, tanta incapacidade de articulação?” Mas um Bloco Central constituído para bloquear o avanço do Chega (o paralelismo com o que se passa em França ou mesmo na Alemanha é gritante) tem um preço a pagar para aqueles que se juntarem a Montenegro: ocupar politicamente parte do espaço do CHEGA e adicionalmente utilizar-se massivamente a guerra da Ucrânia para bloquear o PC e o mal-estar gerado pelas questões de género tipo LGBT para bloquear o Bloco de Esquerda!
Atribuir a culpa para cima de Pedro Nuno Santos é recusar-se a fazer uma análise minimamente rigorosa sobre a nossa complexa realidade económica e social, é então não só uma pura miopia política como é também estar a preparar as condições para uma queda ainda maior num futuro próximo. Mas ao atirar as culpas para cima de Pedro Nuno Santos estamos também a branquear as responsabilidades do que é convencional chamar de direita democrática na criação da situação presente, e isso também não aceito.
Se estes resultados expressam uma derrota do PS, e expressam, de que se vangloria, não é menos verdade que estes resultados expressam também uma outra derrota bem mais grave ainda, uma derrota a nível nacional do povo português e da Democracia, uma vez que o Partido do ódio alcança agora a posição de partido líder da oposição a um governo que até agora não governou, mas desgovernou. Não é isto uma vergonha, mas sobre esta questão nem uma palavra sua!
Meu caro amigo, o meu amigo está contente com os resultados eleitorais, é o que me diz, mas estará também contente porque o Chega se tornou o segundo partido na Assembleia? Na sua mensagem não há uma linha sobre o assunto, há apenas gáudio sobre a derrota da esquerda. Será que o não entristece que um Partido desta qualidade atinja esta posição no cenário por excelência da Democracia? Não o incomodou ouvir dizer: “O Chega superou o partido de Mário Soares, de António Guterres, matou o partido de Álvaro Cunhal e varreu do mapa o Bloco de Esquerda com uma pinta que nunca se tinha visto em Portugal”. Matei, matei, matei, ainda me soa aos ouvidos. Não o preocupa que a AD, na mira de apanhar votos ao Chega, quis ocupar politicamente parte do seu espaço quanto à perseguição aos imigrantes. Enquanto estes são insultados, são perseguidos pelas forças da ordem, os imigrantes que garantem grande parte do nosso PIB são explorados pelas máfias externas e internas até ao tutano e sem serem incomodados pelas autoridades. A AD alguma vez teve a coragem de se preocupar com as condições destes desfavorecidos da sorte e da vida? Nunca, que eu saiba. Alguma vez perseguiu os donos de casas de cama quente que a estes infelizes são alugadas? Nunca, que eu saiba, mas a AD sabe persegui-los em nome da segurança mesmo quando depois nos diz que somos um país seguro. Veja o que dizia o Carlinhos, como é tratado em certos meios, quando justificou a vergonha policial que se verificou no Intendente.
Sobre as eleições, deixe-me dizer-lhe o que escrevi na véspera das eleições:
(…) estamos no final de uma época e num momento charneira em que descobrimos esta realidade banal assinalada por Bradford Delong: as universidades de hoje nem sequer ensinam a ler um livro e sublinhe-se que para que a leitura de um livro seja benéfica para quem o lê, é preciso saber ler bem o livro. Esse saber perdeu-se, desde o ensino de topo, as Universidades, até à base do sistema de ensino e quando assim é, como Bradford Delong assinala é “… o discurso público [que] sai prejudicado. A política sai prejudicada. A democracia sai prejudicada. Porque o espaço em que pensamos juntos — através do tempo, da tradição e da perspetiva — é reduzido ao que corresponde a uma reação instantânea, eventualmente polémica, da realidade atual”.
Acrescentemos, quando assim é, é todo o ensino do topo à base que se degrada e se torna assim uma enorme e pesada máquina de produzir gente encartada com diplomas que atestam sobretudo a ignorância de quem os possui. A partir daqui são populações inteiras sujeitas à mais desenfreada manipulação e é através desta que se compreende, por exemplo, por que é que roçamos desde há três anos o perigo de uma guerra nuclear sem que milhões de pessoas venham à rua exigir a paz, como aconteceu com a guerra do Vietname, só assim se percebe o silêncio feito sobre o genocídio do povo palestiniano, um silêncio das elites políticas e não só das elites, um gritante silêncio de todos nós, que coletivamente somos incapazes de protestar contra esse genocídio. Essa é a via que leva os Trump’s ao poder em segunda eleição. A falta de ensino/formação em níveis dignos é o cadinho por onde entra depois a desinformação, a manipulação das massas.
Essa é a via que voltará a levar Montenegro a S. Bento. Se tal acontecer amanhã, não culpem Pedro Nuno Santos (o que irá levar à sua substituição), não culpem Rui Tavares, não culpem Paulo Raimundo ou Inês Sousa Real, não, culpem antes a ignorância a que o neoliberalismo do PS, do PSD e do CDS conduziu o povo português a não saber distinguir entre uma argumentação e uma afirmação. De novo, e com o risco de me repetir, retomo Bradford DeLong quando nos diz:
“… De facto, pode-se dizer que uma das poucas competências-chave verdadeiramente importantes que nós aqui na universidade devemos ensinar — o nosso equivalente ou da tríade medieval de retórica, lógica, gramática ou da quadrilogia de aritmética, geometria, música e astrologia — é explicar como ler e absorver um argumento teórico feito por um livro difícil, valioso e imperfeito.
As pessoas precisam de compreender o que é um argumento, e a única maneira de o fazer é realmente analisá-lo — lê-lo e tentar entendê-lo.
As pessoas precisam ser capazes de ver a diferença existente entre um argumento e uma afirmação.” Fim de citação. (o sublinhado é nosso)
Fomos agora a eleições, e se perguntarem ao eleitor médio por que é que se esteve nestas eleições, este ficará em palpos de aranha para explicar o porquê…E porquê? Tem dificuldades em encontrar uma explicação porque Montenegro fez uma campanha em termos de afirmações, nunca em termos de argumentações. Explicações não houve, e Pedro Nuno Santos tem razão. A conclusão é imediata: somos um povo incapaz de distinguir entre argumentos (o que Montenegro não utilizou na campanha) e afirmações (o que Montenegro utilizou até à exaustão e com as quais nos bombardeou massivamente). Fim de citação. E é por aqui que se explicam os resultados eleitorais que tanto lhe agradam, e se a minha tese está correta, só posso dizer que tenho pena que depois de tudo o que se passou em torno de Montenegro e do vazio intelectual da sua campanha, o povo português esteja ainda a um nível de cultura política que não distingue afirmações de argumentos. E é aqui que reside um dos pilares explicativos dos resultados e o outro é o cansaço e a falta de credibilidade a que o António Costa e os seus moderados conduziu o PS. Mas em Democracia é assim, é com os erros que vamos crescendo politicamente e é com eles que a Democracia real se vai construindo. Esperamos que não seja longo o percurso, mas a pensar como o meu amigo pensa, a Democracia real só será real para a eternidade e nesta nós os dois já cá não estamos.
Meu amigo, somos um povo que não sabe distinguir um argumento de uma afirmação, somos um povo culturalmente moldado agora não pelo espírito da Democracia surgido com o 25 de Abril, mas sim pela mentalidade que resulta do desmantelamento contínuo realizado ao longo de décadas pelo PSD e pelo PS das estruturas que caracterizaram um Estado-Providência ainda incipiente, e destas sublinho, por exemplo, o sistema de Ensino[2], o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social, as Estruturas do Mercado de Trabalho, as Estruturas da Repartição e Redistribuição do Rendimento, enfim, um processo de desmantelamento que irá ser agora acelerado. Os sistemas de Ensino e do Serviço Nacional de Saúde estão já em franca decomposição, a que se seguirá o sistema da Segurança Social e depois o resto…
Quanto ao desmantelamento da Segurança Social os sinais são já claros com a ministra do Trabalho a ter nomeado uma comissão para estudar a reforma da Segurança Social à qual pertencem a ex-deputada da Iniciativa Liberal, Carla Castro e o neoliberal Jorge Bravo que tem “assinado estudos, artigos e intervenções que procuram criar uma perceção de insustentabilidade do sistema público de Segurança Social e de necessidade de um maior mercado privado de fundos de pensões, ainda com expressão reduzida em Portugal.”
Argumentos da AD por Luis Montenegro? Não os ouvi, ouvi discursos tipo Cavaco, ouvi afirmações, muitas, deixem-nos trabalhar, interessam-me as pessoas, ou outras, não, não ouvi argumentos, ouvi sim a recusa em explicar porque recusou uma Comissão de Inquérito sobre os seus comportamentos em termos de ética, e com essa sua recusa obrigando a eleições antecipadamente e desonestamente, acusando os outros de o fazerem cair. Curiosamente, por muito menos, exigiu a demissão de António Costa. Afirmações de Montenegro, ouvi muitas, argumentos nenhuns, e até implicitamente entendi uma posição estranha: o voto popular aprovou tudo o que ele foi e fez (e ilibou-o de tudo de que até aí poderia ser acusado.) Como vê, meu amigo, acertei no resultado principal, a AD ganhou o PS perdeu e o Pedro Nuno Santos caiu, mas como bem sabe não sou adivinho. Fui professor apenas e quase durante cerca de 38 anos, mas garantidamente aprendi a ler livros, no sentido de Bradford DeLong, e com eles aprendi a ouvir os sinais silenciosos dos tempos que passamos e das pessoas que escutamos.
A terminar uma conclusão se impõe: politicamente estamos em posições diametralmente opostas e isto significa que um de nós tem as lentes intra-oculares muito sujas. O meu amigo dirá que sou eu e eu direi o contrário. Quando nos encontrarmos na casa do Rui, saudemos este desacordo saudável com um bom medronho pela minha parte e com um bom espumante pela sua.
Um grande abraço
JMota
NOTAS
[1] Quando um ministro em vez de navegar nas águas do Atlântico Norte se passeia nos terrenos do Atlético Norte, e isso eu não sei o que é, está tudo dito quanto a nível para ser ministro.
[2] Quanto ao sistema de ensino criado pelo PS e assumido pela AD , desloque-se à Martim de Freitas em Coimbra e procure falar com alguns pais dos miúdos em ensino digital. Ficará assustado com o mal-estar destes, muitos deles em situação de quase burnout para evitar o burnout dos seus filhos!

