CARTA DE BRAGA – “sucessão das horas, signos e linguagem” por António Oliveira

Para os dias de cada um, a sucessão interminável das horas, a dos signos, e até a inclinação dos trópicos, garantem plenitude e grandeza própria, da mesma maneira que cada tempo, vivido ou a viver, arrasta sempre a ‘colheita’ do tempo anterior.

Nela se consubstanciam os principais elementos da natureza, a terra, o ar, o fogo e a água, as manifestações da energia toda que agrega o universo, bem como da totalidade dos seres que o integram.

Convém lembrar de haver sempre alguma dificuldade na aceitação dessa realidade, tanto mais que a ideia romântica dos sistemas perfeitos, perpassa pela História do homem com resultados profundamente negativos de milhões de vítimas, como agora bem se vê.

Tudo isto vem dar uma dimensão dramática ao processo de criação do ‘habitat humano’ pois, para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, a única relação harmoniosa do homem com a natureza, aconteceu há já uns milhões de anos.

E diz o teólogo e filósofo, ‘Há dez ou doze mil anos, principiou a época de intervenção, com a gestão da água, a irrigação, os cultivos agrícolas e a criação de animais, rompendo o equilíbrio dinâmico da natureza. Depois, com a era industrial, passou-se à agressão directa, a da exploração, sem ter em conta as suas possibilidades e os seus limites, com a falsa ideia de os recursos naturais serem infinitos; permitiram assim um desenvolvimento também infinito, um processo que já não é o Antropoceno, mas o Necroceno, ou seja, a devastação massiva das formas de vida’.

O grande e maior problema deste estado de todas as coisas, reside no facto de a enorme riqueza assim produzida, ter dado origem a uma desigualdade extrema –pelo menos 150 milhões de pessoas em pobreza extrema, de acordo com o Banco Mundial– apesar de a espécie humana, o Homo Sapiens, depois de uma evolução de 400.000 anos, ser a única espécie que tem consciência de ser global, e da sua importância na hierarquia animal deste mundo.

As consequências desta situação –o arrastar a colheita dos tempos anteriores– alargam-se a todos os níveis da vida social e política, principalmente aos da política, onde é muito difícil entrar e permanecer, por ser bem visível e agora muito mais, que se baseia em estratégias de ataque e perseguição sem regras –a qualquer adversário– usando até os malefícios de qualquer pandemia, como via de acesso ao poder, sem deixar de recorrer aos serviçais préstimos de ‘gente diversa e disponível’, estrategicamente distribuída por diferentes e variados órgãos, mesmo os de comunicação.

Numa sociedade em que não se respeita a existência e a liberdade do outro, cai-se forçosamente no dogmatismo, com atitudes excludentes e de rejeição, que também levam a banir do espaço público qualquer atitude crítica, e estamos a caminho desse trauma um pouco por todo o mundo, como também se pode ver, ouvir e ler em todos os ecrãs com que nos encharcam o viver.

Dogmatismo que só se pode combater com imaginação, contando os montes de estórias que todos temos, por a língua ser o contentor de cultura, a cultura que conduz ao ‘despertar’ do homem, uma vez que a linguagem é tão grande quanto o universo, por conter tudo, desde o primeiro choro de um bebé ao último suspiro de um ancião, mais o mundo abarcado pelas estórias que os separam.

A escritora norte-americana Toni Morrison, Prémio Nobel de Literatura em 1993, explicou isto tudo numa frase bem simples, ‘Nós morremos. Esse pode ser o sentido da vida. Mas nós fazemos a linguagem. Essa pode ser a medida das nossas vidas’.

Opinião de ter em atenção, pois a nossa relação com as horas mudou radicalmente nos últimos anos. À velocidade com que se fazem as perguntas e a que se exige nas respostas, a quantidade de coisas que arranjámos para fazer cada dia e, acima de tudo, a prevalência dos telemóveis, que nem sequer existiam, vieram alterar completamente as razões, o sentido e o modo de agir, naquele tal fazer.

E a linguagem, aquela que nos recebeu quando aqui chegámos, e com a qual aprendemos a entender o ‘outro’ e o mundo?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Leave a Reply