As sílabas marginais/A SOLIDÃO DO SILÊNCIO/Nelson Ferraz

 

A SOLIDÃO DO SILÊNCIO

 

 

sei do teu apreço

pelas coisas mais difíceis de compreender

como por exemplo o estoicismo mudo das árvores

a lengalenga indecifrável dos rios

ou a perpétua duração de um verso

 

mas se acertares naquilo que faz de mim

um sonhador sem medo do silêncio

que entra pela porta que se fecha num estrondo prolongado e lento

depois do riso dos foguetes e das afirmações

de circunstância

um sonhador sem medo do silêncio

depois de todos terem saído para todos os lugares de todos

um sonhador sem medo do silêncio

quando a solidão é feita de um cimento de imagens e ossos

quando a solidão é um eu grande com as mãos enroladas

quando a solidão é um poço cheio de arbustos e de palavras

se acertares naquilo que faz de mim

um sonhador sem medo do silêncio

se acertares naquilo que faz de mim

 esta vulgaridade cercada de múltiplas infâncias irrepetíveis

e de pulsação fraca

diz-me

por favor, diz-me

enquanto Beethoven não se vai embora.

 

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